Quando o mundo parou devido à covid-19, os aviões deixaram de irromper pelos ares, ficando em terra. Apesar de certamente haver quem se tenha regozijado com o silêncio que a inatividade aérea proporcionou, essa benesse foi na verdade um sintoma para o mal-estar económico que o repouso das aeronaves significou.

O descanso, porém, tem os dias contados: com o progressivo desconfinamento adotado pelos estados de todo o mundo, as companhias aéreas começaram a anunciar a retoma dos seus planos de voo: se na semana passada a Air France e a EasyJet apontaram o regresso dos seus voos para Portugal, hoje, por exemplo, foram a Ryanair e a Transavia a fazê-lo.

Excluindo as problemáticas associadas à poluição causada pela aviação, o reiniciar da atividade aérea traz boas notícias ao mundo. Houve, porém, uma companhia aérea cujo tentativa de regresso em pleno não parece estar a satisfazer ninguém.

Ontem foi anunciado pela TAP o seu plano de voos para junho e julho, o que implica 27 ligações semanais no primeiro mês e 247 no segundo. À partida, o plano não parecia ser controverso, com a retoma de voos para destinos como Nova Iorque, Maputo, Luanda, Praia, Recife, Miami e o reforço das ligações para as regiões autónomas.

O grande problema que se veio a verificar, porém, é que a grande maioria destes voos terá, segundo o plano, o mesmo ponto de partida ou chegada: Lisboa, havendo uma muito mais diminuta quantidade de voos a partir de Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto

A companhia aérea já tinha recebido recados no início do mês por parte tanto do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP) como do movimento político de Rui Moreira, Presidente da Câmara Municipal do Porto, que considerou “insultuosa” a “desproporção no número de rotas". 

A TAP, porém, não mudou o plano, e o dia foi marcado pelas reações adversas de parte a parte à sua estratégia.

O primeiro sinal foi dado pelo Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes da Área Metropolitana do Porto, que considerou "irrisória" a percentagem de voos da TAP a partir do Porto e pediu às organizações e empresas e outros agentes da região para que se “manifestem publicamente, opondo-se à posição” da companhia aérea nacional.

Assim o fez Rui Moreira, numa conferência de imprensa em conjunto com o presidente do TPNP e os presidentes de Câmara Municipal da Maia, Viana do Castelo e Vila Real.

Culpando a TAP de impor um "confinamento ao Porto e Norte", o autarca portuense apontou também o dedo ao Governo português na sua "responsabilidade acrescida” em garantir que a companhia sirva o país, porque decidiu retomar a “paridade no capital da TAP”, revertendo uma decisão que tinha sido tomada anteriormente.

“O Governo tem de decidir mesmo. Das duas uma: ou [a TAP] é uma empresa privada que não serve o país, e então tem de encontrar meios de mobilizar financiamento onde quiser, ou é uma empresa participada pelo Governo, em que o Governo vai ter de lhe dar provavelmente mil milhões e então vai ter de ser tomada como um ativo estratégico nacional”, sublinhou.

O teor destas críticas, de resto, repetiu-se ao longo da tarde, tanto pela esquerda, como pela direita:

  • O PSD, através do seu Presidente, Rui Rio (ele próprio ex-autarca do Porto) acusou a companhia de ser “uma empresa de ordem regional, confinada mais ou menos à antiga província da Estremadura, a grande Lisboa” por não responder “aos aeroportos de Faro, do Funchal, de Ponta Delgada e do Porto como deve ser”.

No meio do coro de críticas, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse apenas estar a acompanhar o caso, sem adiantar mais nada.

O que é certo é que de todos os destinos que a TAP oferece, a companhia aérea ainda não sabe o seu, e este plano de voos apenas veio complicar as coisas. Recorde-se que a empresa se encontra em risco de insolvência, estando sob debate uma intervenção do Estado na empresa, e todas as críticas apresentadas hoje apontaram o mesmo problema: para ser apoiada pelos contribuintes, a TAP tem de servi-los, a todos.

O retorno a um mundo normal significa uma nova viagem para a TAP, mas da turbulência a empresa já não se vai conseguir desviar.

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