António Madureira conhece os circuitos do serviço de radiologia do Centro Hospitalar Universitário São João, no Porto, como quem conhece as tubagens do corpo em tons de cinzento que a máquina de TAC projeta no ecrã. Lá dentro daquele engenho enorme está um homem, minguado pelo tamanho do aparelho, que lhe revela as entranhas.

Apanhar o rasto de um vírus como o SARS-CoV-2, responsável pela covid-19, pode trazer o paciente para aqui, o piso número dois do principal hospital do Norte, às máquinas de Tomografia Computadorizada (TAC) do serviço de radiologia, que António dirige. Hoje, guia-nos pelos circuitos já em prática para fazer face à primeira fase da pandemia — e pelas novas estruturas que hão de surgir para preparar esta unidade para o inverno.

“A preparação especial para o inverno começou numa reunião que tivemos há cerca de dois meses, convocada pelo conselho de administração, que pediu aos diversos serviços para elaborarem cenários e previsões sobre a melhor maneira de responder a esta situação”, explica o médico. “Cada serviço forneceu o seu plano e ao nível do serviço de radiologia a grande alteração que fizemos foi a criação de uma nova sala, cujas obras vão começar para a semana, com capacidade de realizar radiografias e ecografias”.

Os doentes devem continuar a vir ao hospital para tratar as suas patologias do modo habitual

O objetivo é criar um espaço isolado, para que os utentes com covid-19 não se cruzem com os que não tenham a doença. “Na fase anterior esses exames tinham de ser feitos noutras salas diferentes, que obrigavam a parar essas salas, parar a atividade, e, depois, desinfetar as salas antes de começar a retomar a atividade”.

Mas criar um serviço de radiologia dentro do serviço de radiologia tem custos e já obrigou à compra de novos equipamentos. Todavia, é uma das conclusões que se retiram dos primeiros meses a lidar com a pandemia: os serviços não podem ficar travados para tratar dos casos covid-19.

“Isto foi uma medida que teve os seus custos económicos, porque tudo custa, mas que é muito importante, porque uma das coisas que também aprendemos foi que não nos podemos dedicar somente aos doentes que têm covid-19 e esquecer os outros”, conta António. “Nesta primeira fase aconteceu um bocadinho isso — a prioridade foi a covid-19, desmarcou-se o resto da atividade assistencial toda e focamo-nos exclusivamente nos doentes com covid-19”.

Como consequência, aumentaram as listas de espera, tardaram os diagnósticos. “Se voltar a acontecer realmente uma situação de pandemia, ou se isto se voltar a exacerbar, já não vamos poder ter essa abordagem — e esta solução visa precisamente dar-nos ferramentas para podermos dar essa resposta”, explica. “Ou seja, parte do serviço vai dedicar-se aos doentes covid, mas o resto do serviço continua a poder funcionar perfeitamente de modo normal e habitual para os outros doentes”.

Durante o mês de agosto está a ser feito um esforço de recuperação das listas de espera, nomeadamente cirurgias, e os blocos operatórios

“Porque as outras doenças continuam a existir, esses doentes continuam a precisar de fazer exames, de ser seguidos e de ser tratados e, portanto, não nos podemos esquecer deles e não os podemos deixar para trás”.

Nesta altura, o serviço de radiologia já não tem exames em atraso, tendo recuperado a agenda à custa do trabalho fora de horas, aos fins de semana e à noite.

“A nível do hospital também lhe posso dizer que tenho conhecimento de que durante o mês de agosto está a ser feito um esforço de recuperação das listas de espera, nomeadamente cirurgias, e os blocos operatórios, que durante o mês de agosto tinham uma reduzida atividade cirúrgica, estão a operar todos os dias, incluindo sábados e domingos”.

Significa isto que os profissionais de saúde podem estar em sobrecarga? António acredita que não, já que não só o hospital é grande e tem muitos funcionários, como os esforços para ajustar os calendários já permitiram uma coisa que não fora possível na primeira metade do ano: férias.

“Já não temos férias em atraso, as pessoas estão descansadas e relaxadas e acho que [a sobrecarga dos profissionais] não será um risco”, explica ao SAPO24.

Já vimos qual a gravidade desta doença — e convém não exagerar a sua gravidade

Dos cerca de 170 profissionais do serviço de radiologia, apenas dois foram infetados — fora do serviço —, tendo ficado “sem sequelas perceptíveis”, revela António Madureira. “Ou seja: durante este tempo todo fizemos milhares de exames a doentes covid e ninguém ficou infetado, o que quer dizer que as medidas de isolamento, de proteção, de higiene que temos utilizado são eficazes”, garante.

“Acho que esta é uma mensagem muito importante e que importa transmitir às pessoas: os doentes devem continuar a vir ao hospital para tratar as suas patologias do modo habitual, porque é seguro — aquele medo que faz as pessoas ficarem em casa e não irem ao hospital é um medo um bocado irracional, porque o hospital preparou-se, o hospital definiu circuitos, os circuitos estão separados, as pessoas, se vierem aqui fazer uma radiografia do tórax, não se vão cruzar num corredor, numa sala de espera com um doente covid-19, os circuitos estão perfeitamente definidos e separados”.

A chuva que tem caído sobre o Porto em pleno agosto pode fingir que é o inverno à porta, mas o calendário não engana. Com a aproximação do outono, chega também o tempo das gripes e constipações, problemas respiratórios que vão colocar mais pressão sobre os hospitais.

António, contudo, afasta o medo do que possa estar para vir: “não classificaria como medo, posso dizer que é um respeito ou, quando muito, alguma apreensão — mas também aprendemos lições muito importantes e já vimos qual a gravidade desta doença — e convém não exagerar a sua gravidade”.

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