Há civis que foram assassinados, queimados, castrados, suspensos, afogados, asfixiados ou abandonados a morrer de fome. Os seus corpos foram abandonados ou empilhados em valas comuns. Foi identificado, inclusive, um caso de canibalismo forçado. Alguns meses depois do início da guerra, a ONU tinha anunciado uma primeira estimativa de 10 mil mortos e manteve este número, apesar de os assassinatos terem aumentado e alastrado a todo o país. Até que, em março de 2016, comunicou o total de 50 mil vítimas.

O centro de reflexão Grupo Internacional de Crise (ICG, na sigla em inglês), que acompanha a guerra desencadeada no país mais jovem do mundo, tinha comunicado esta mesma estimativa de 50 mil mortos em novembro de 2014. Para Eric Reeves, professor da Smith College, dos Estados Unidos, e especialista no Sudão do Sul, a incapacidade de contabilizar os mortos é uma falha moral. "Se não estimamos a mortalidade, estamos a dizer que as vidas não importam", disse à AFP.

Segundo agentes humanitários e funcionários que pediram o anonimato, o número total de mortos poderia estar perto dos 300 mil, o que seria equivalente aos cinco anos de guerra na Síria. "O nível e a intensidade da violência são muito maiores do que os que presenciamos em outros conflitos", afirma um funcionário da organização humanitária, habituado a zonas de guerra.

A ONU 'perdeu as contas'

O número comunicado pela ONU, de 50 mil mortos, corresponde à quantidade de vítimas diretas do conflito. Mas se fossem levadas em consideração as vítimas indiretas, este valor dispararia. Por exemplo, caso fossem incluídos aqueles que morreram de fome devido ao bloqueio do fornecimento de ajuda humanitária ou as vítimas de atrocidades em massa, como o caso dos 60 civis que as tropas governamentais deixaram morrer asfixiados num contentor em outubro de 2015. Também se enquadram aqui as pessoas que não receberam atendimento médico adequado devido à destruição de hospitais.

A organização Médicos sem Fronteiras alertou para as "consequências consideráveis para centenas de milhares de pessoas" depois de seis centros médicos terem sido atacados, saqueados ou incendiados. Vários grupos armados realizaram massacres étnicos e, apesar do acordo de paz firmado em agosto de 2015, seguem os combates em diversos lugares onde as facções têm interesses locais.

Alguns números são conhecidos: 2,3 milhões necessitam de ajuda alimentar urgente; 15 mil meninos-soldados foram recrutados; e 200 mil civis encontraram refúgio em acampamentos da ONU, que precisa de 1,1 mil milhões de euros de ajuda. Mas não existe qualquer estimativa fiável sobre o número de mortos.

Hervé Ladsous, responsável pelas operações humanitárias da ONU, admitiu, na semana passada, que as Nações Unidas "perderam as contas".

'Stress pós-traumático'

Num estudo realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), 63% dos entrevistados afirmam terem perdido um familiar devido ao conflito. Outros 14% dizem ter sofrido tortura, 33% têm um parente desaparecido e 55% perderam a casa. Nas zonas mais afetadas pela guerra, estes números são ainda mais altos. O estudo também indica que 41% sofrem de algum transtorno de stress pós-traumático (TEPT), "um nível comparado ao do Ruanda ou Camboja depois do genocídio". Segundo os analistas, a ausência de uma estimativa fiável faz com que pouco se fale sobre a guerra no Sudão do Sul, e permite que os crimes continuem impunes. Enquanto continuam os combates, há tempo para apagar as provas dos massacres.

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