Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro

Há muito que o estado de saúde de João Gilberto não era o melhor, pelo que havia perfeita consciência de que, um dia e sem avisar, o homem que inventou a bossa nova iria partir deste mundo para se juntar a um outro onde só a memória teima em não apagar o que ele construiu, excluindo quaisquer ideias teológicas acerca do local onde ele se encontre agora. Mas mesmo o mais ateu entre os melómanos não impedirá um pensamento bonito de raiar na sua cabeça: João Gilberto ladeado por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, bebendo e cantando para os anjos, segredando palavras de amor e carinho às profundezas celestes, dissolvendo a sua alma – e o seu violão – na eternidade.

Mesmo tendo essa consciência a notícia da morte de João Gilberto não pode senão ser encarada como um choque. Poucos segundos após ter caído uma notificação no telemóvel dando conta da mesma, uma breve incursão pelas redes sociais permitiu vislumbrar, desde logo, dúzias e dúzias de lamentos e homenagens ao homem que, mais que a compor, pintou a música. Uma delas, no Twitter, bateu como uma flecha: «O Brasil só existe por causa do João Gilberto».

É um manifesto exagero, dirão alguns, porque o Brasil é muitas coisas e muitas cores e não pode ser reduzido a uma só pessoa ou coletivo ou monumento. O Brasil existe pelos indígenas, pelos colonizadores, por Pedro I; por Machado de Assis e Jorge Amado e Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade; por Pelé, por Romário, por Ronaldo; pela Amazónia, pelo Corcovado, pelo Viaduto do Chá, pelo Sertão; por Tom Jobim e pelos Mutantes e pelos Sepultura. E isto é só uma ínfima parte; poderíamos escrever uma enciclopédia com dezenas de volumes sobre tudo aquilo de que é feita a terra boa e gostosa que uma tal 'Aquarela do Brasil' enumerou há 80 anos.

Menciona-se 'Aquarela do Brasil' por três motivos: primeiro, é uma canção extraordinária, até na sua primeira gravação, um samba patriótico sobre as mais pequenas coisas que caracterizam todo um povo; segundo, foi a porta de entrada de muitos para o mundo da música brasileira, ao ser incluída (e ao ter dado nome a) num trecho de “Saludos Amigos”, filme da Disney de 1942 que deu às crianças a personagem de Zé Carioca; terceiro, João Gilberto cantou-a – e como a cantou! — por diversas vezes, a mais pungente das quais no Festival de Montreux, em 1985, numa versão de 9 minutos que ao patriotismo original adiciona uma dose cavalar de lamento, por algo que não se sabia ter-se perdido no tempo. Em poucas palavras: 'Aquarela do Brasil', nesse concerto, deixou de ser canção. Gilberto transformou-a num hino.

Conseguir converter uma canção popular numa obra que defina uma pátria inteira é algo que está somente ao alcance dos génios. E João Gilberto era um génio, cujo potencial já vinha desde a infância, mesmo que tenha sido o único entre os seus irmãos a não terminar com um diploma nas mãos. Não que os diplomas definam a genialidade, claro. Ao músico bastou um violão para se tornar gigante sobre os gigantes, que dentro da bossa nova e da música popular brasileira são numerosos: Caetano, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Chico Buarque, Jobim...

créditos: EPA/DARIO ZALIS

A culpa era do violão, claro, e da forma inovadora como o tocava, com um ritmo samba que bebia do jazz e que ao ouvido alheio parecia simultaneamente algo incrivelmente simples e extraordinariamente complexo, um paradoxo que se tem vindo a manter ao longo dos anos no que à bossa nova diz respeito. Mas era também do seu ouvido divino, dito absoluto, fenómeno raro onde um indivíduo é capaz de identificar ou recriar uma nota musical em particular. Felizmente para ele, porque lhe permitiu criar uma música fabulosa. E também infelizmente, porque depressa ficou com fama de “difícil”, exigindo cuidados perfeccionistas ao nível da acústica nos seus espetáculos, e não só: terá gravado 28 takes de 'Rosa Morena' só para conseguir acertar em cheio na afinação que queria para o “o” em “Rosa”...

O violão só seria escutado pelo mundo em 1959, muito depois de João Gilberto ter lançado um disco a solo pela editora Copacabana, em 1952, do qual não reza a história. Foi com “Chega de Saudade” e seu sucesso instantâneo – 35 mil cópias vendidas aquando da edição – que o músico começou a inscrever o seu nome no panteão dos deuses, e a inspirar toda uma legião de jovens fãs, que depressa assimilaram a idiossincrasia da forma que Gilberto tinha de tocar. Quando não assimilavam aquele sussurro, aquele murmúrio, aquela forma tão baixinha de cantar, um 'Desafinado' que não o era verdadeiramente.

Nem 'Chega de Saudade' nem 'Desafinado' eram composições suas; eram de Tom Jobim, maestro da bossa nova que foi colaborando por diversas vezes com João Gilberto (e algumas delas sob alta tensão, conforme é descrito no livro “Chega de Saudade”, de Ruy Castro, dada a personalidade vincada de Gilberto). Mas se um tinha a batuta nas mãos, o outro tinha tudo o resto, completando as composições de Jobim com o seu característico estilo, dando-lhes uma dimensão que provavelmente não teriam caso se tivessem restringido ao piano do autor. João Gilberto era, por isso, talvez o maior intérprete da bossa nova, assim como Elvis Presley o foi do rock n' roll. As canções estavam lá. Só precisavam da atitude certa.

A atitude de Gilberto ajudou a bossa nova a expandir-se do Rio de Janeiro para todo o mundo, especialmente após o lançamento de “Getz/Gilberto”, em 1964, álbum em parceria com o saxofonista norte-americano Stan Getz que deu a conhecer o género ao público norte-americano. Ao público de massas, bem entendido; alguns ouvidos mais atentos, como Dizzy Gillespie, Charlie Byrd e Miles Davis já haviam se enturmado com o estilo de João Gilberto, poucos anos antes. O disco foi o segundo mais vendido nos EUA, nesse ano, e venceu quatro Prémios Grammy. Outros intérpretes, como Frank Sinatra, não escaparam à sua magia; é por “Getz/Gilberto” e pelas dezenas de artistas que influenciou que, hoje, a melodia de “Garota de Ipanema” é facilmente reconhecível em qualquer jantar romântico, passeio pela praia ou elevador de centro comercial. E é por esse disco que a canção quase que atinge o estatuto de património imaterial da humanidade...

As décadas seguintes seriam de consolidação, com vários álbuns editados, concertos aclamados pelo público e pela crítica e um estatuto que lhe permitia, até, gravar boleros como 'Besame Mucho' e fazer com que soassem a algo brasileiro. Só na década de 90 é que se começa a falar de João Gilberto fora do seu habitat natural, a música. Primeiro com o processo movido contra a editora EMI, a qual acusou de ter adulterado a sonoridade das suas gravações e de ter editado uma coletânea contendo os seus três primeiros álbuns sem autorização (em 2018, este processo ainda corria nos tribunais); depois, com o cancelamento de vários espetáculos, a partir dessa mesma década; e, finalmente, com a reclusão que impôs a si próprio, já nesta década, raramente saindo da sua suíte no Hotel Copacabana Palace e recebendo visitas. Disputas financeiras entre os seus filhos e sua ex-companheira, Cláudia Faissol, só serviram para colocar alguma sujidade no seu legado.

Alguma, porque é difícil manchar plenamente alguém que impôs a música e a cultura brasileiras ao mundo, que conseguiu trazer a modernidade ao “antiquado” samba, que deixou de ser música de favela para o ser (também) das elites. Porque é difícil escrever uma palavra que seja contra João Gilberto, mas também o é escrever a favor; não há palavras ou adjetivos suficientes que consigam fazer passar a mensagem de que a sua obra estava além da perfeição – como ele sempre pareceu querer que assim fosse. João Gilberto morreu e a sua ideia de Brasil morreu com ele. Talvez seja melhor recordá-lo através de algo que ele também, e muito, valorizava: o silêncio. Respeitoso, solene, dolente. Ou afirmar que a saudade, no seu caso, não é para terminar nunca.

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