Travis McMichael, que atirou em Arbery, o seu pai, Gregory, e o seu vizinho, William "Roddie" Bryan, que participaram na perseguição, foram considerados culpados do homicídio depois de um julgamento de um mês na localidade de Brunswick, na Geórgia.

Os doze integrantes do júri popular, entre os quais havia apenas um cidadão negro, deliberaram durante mais de 11 horas para chegar a este veredito unânime — isto apesar de 25% dos 85.000 residentes do condado de Glynn, onde ocorreu o julgamento, sejam negros.

Agora, Travis McMichael, de 35 anos, o oficial de polícia reformado Gregory McMichael, de 65, e Bryan, de 52, podem ser condenados a prisão perpétua pelo assassinato de Arbery.

Travis, Gregory e William são também acusados a nível federal por crime de ódio, um caso que será levado a julgamento no ano que vem.

Uma multidão que se reuniu do lado de fora do tribunal em Brunswick explodiu em comemorações após o pronunciamento do veredito ao final deste julgamento de alto perfil, que durou um mês.

"Digam o seu nome: Ahmaud Arbery. Digam seu nome: Ahmaud Arbery", entoaram em coro os presentes. Já na sala de audiências, um membro da família gritou de alegria quando Travis McMichael foi condenado.

Após o veredito, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, elogiou a condenação dos três, mas enfatizou que ainda há "muito trabalho" a fazer para garantir justiça racial no país.

"Embora os vereditos de culpa reflitam que o nosso sistema judicial está a fazer o seu trabalho, isto por si só não é suficiente. Devemos, ao contrário, voltar a comprometer-nos a construir um futuro de unidade e força compartilhada, onde ninguém tema a violência pela cor da sua pele", declarou em nota.

O reverendo Al Sharpton, que assistiu ao julgamento juntamente com Jesse Jackson, outro renomeado ativista pelos direitos civis, também comemorou as condenações.

"Isto tem de se espalhar por todo o mundo, que um júri de 11 brancos e um negro, no sul profundo [dos EUA], se posicionou na sala do tribunal e disse: as vidas negras importam, sim", afirmou Sharpton diante da corte de juízes em Brunswick.

"Nunca pensei que este dia chegaria"

"O espírito de Ahmaud derrotou o grupo de linchadores", disse Ben Crump, advogado do pai de Arbery, Marcus, que comemorou a leitura do veredito, tal forma que o juiz que presidia o tribunal pediu que deixasse a sala.

"Nunca pensei que este dia chegaria", disse a mãe de Arbery, Wanda Cooper-Jones. "Mas Deus é bom. Obrigada aos que marcharam, aos que rezaram".

Um vídeo com imagens do incidente, no qual Arbery estava desarmado, veio a público quase três meses depois do assassinato, chocando os Estados Unidos e transformando Arbery num ícone do movimento antirracista "Black Lives Matter" ("Vidas negras importam").

O caso ajudou a inflamar os protestos de 2020 nos Estados Unidos contra a injustiça racial provocados pelo assassinato de George Floyd — um homem negro de 46 anos — por um agente da polícia branco no Minnesota.

Após a difusão das imagens do assassinato, os três homens foram presos e declararam-se inocentes. Todos eles afirmaram que confundiram o corredor com um ladrão e citaram uma lei estadual da Geórgia que autoriza os cidadãos comuns a realizarem prisões. Também alegaram legítima defesa, acusando Arbery de ter reagido de forma agressiva.

No entanto, os procuradores afirmaram que não havia justificação para tentar deter Arbery e que os acusados jamais deram voz de prisão enquanto a vítima corria pelo bairro de Satilla Shores, na localidade costeira de Bunswick, num domingo à tarde.

A procuradora Linda Dunikoski disse que os McMichael, que estavam armados com uma caçadeira e uma pistola, e Bryan não viram Arbery cometer nenhum crime naquele dia, mas, mesmo assim, "decidiram confrontá-lo".  O jovem "estava a tentar escapar desses estranhos que gritavam ameaçando matá-lo", disse Dunikoski. "E, de seguida, fizeram-no", acrescentou.

Durante o julgamento, os jurados assistiram a um vídeo dos McMichael perseguindo Arbery na sua carrinha de caixa aberta, enquanto Bryan fazia o mesmo no seu próprio veículo e filmava a cena no seu telemóvel.

A determinado momento, Arbery tenta correr para contornar a parte dianteira da carrinha dos McMichael, que tinha acabado de parar.  Travis McMichael, que tinha acabado de sair do veículo, abre fogo com uma caçadeira de calibre 12. Depois, é possível ver Arbery, ferido, a entrar em luta corpo a corpo com McMichael, antes de ser assassinado por outro disparo.

Kevin Gough, advogado de Bryan, pediu várias vezes ao juiz que declarasse o julgamento nulo, alegando que a presença de Sharpton e Jackson na sala influenciava o júri. O juiz Timothy Walmsley desmentiu as moções e disse que qualquer um poderia assistir.

Os vereditos de culpabilidade no julgamento na Geórgia chegam poucos dias depois da absolvição de Kyle Rittenhouse noutro caso de grande repercussão nos Estados Unidos.

Rittenhouse, de 18 anos, matou a tiro dois homens e feriu outro durante os protestos e distúrbios contra a violência policial em Wisconsin no ano passado, que aconteceram depois de um homem negro ter sido alvejado pela polícia.

O adolescente alegou legítima defesa e foi absolvido de todas as acusações. Rittenhouse e as três vítimas eram todos brancos.

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