Parece anedótico que exista um conceito de crimes de guerra, que haja regras de cortesia entre balas, que haja respeito entre duas pessoas que têm como objetivo matar o outro. É quando vemos as imagens daquela que foi denominada rua da morte, em Bucha, nos arredores de Kiev, com dezenas de corpos mortos, trucidados, largados no alcatrão, despojados de qualquer ponta de humanidade que somos confrontados com o limite, para além daquilo que já considerávamos absurdamente horrível.

"São insuportáveis as imagens da barbárie que nos está a ser mostrada nestes últimos dias", escreve Francisco Sena Santos na crónica que publica hoje no SAPO24, onde compara os acontecimentos em Bucha com outros massacres que fizeram virar o curso da história, como foi o "caso do bombardeamento do mercado de Sarajevo, em 1995, que levou à decisão de intervenção da NATO contra os sérvios da Bósnia e assim fazer mudar o rumo da guerra dos Balcãs".

"Aqueles cadáveres com um buraco na testa ou na nuca, evidência de execuções sumárias em subúrbios de Kiev, obrigam a que seja feito tudo o que for preciso para parar esta guerra e este massacre", sublinha.

Passei parte da minha tarde de hoje a escrever sobre crimes de guerra. O que os define, o que tem acontecido na Ucrânia, de que forma os culpados podem — ou não — ser julgados. As imagens de Bucha são não só o testemunho de um terrível massacre, como também são a representação de tudo o que não vimos nesta guerra e que está escondido pela desinformação, por cordões e ocupações militares, pelos escombros ou pelas cinzas. É impossível encarar esta guerra como algo que, eventualmente, se vai prolongar no tempo até se chegar a um acordo em que ninguém, no papel, perca muito, em que se esquecem os mortos de Bucha ou qualquer um dos 1.430 civis, incluindo 121 crianças, que já morreram.

Hoje, a procuradora-geral da Ucrânia denunciou que o país já registou “mais de 4.000 crimes de guerra” cometidos pelas forças russas durante o conflito e revelou que as circunstâncias da morte de civis em Bucha ainda não foram verificadas.

Iryna Venediktova acrescentou que as situações ocorridas nas cidades de Mariupol, no sudeste da Ucrânia, e de Bucha, perto de Kiev, ainda não foram verificadas. Mas assegurou que está a trabalhar para documentar os factos e apresentar as provas primeiro perante os tribunais ucranianos e depois perante o Tribunal Penal Internacional.

“Trabalhamos para que todos os responsáveis ​​sejam levados à justiça, a começar pelas pessoas que desencadearam esta guerra, que a incentivaram, que criaram as condições para que ela acontecesse, que invadiram o país e que deram ordens precisas para matar civis”, garantiu.

Habitações, hospitais e infraestruturas civis da Ucrânia estão a ser “sistematicamente bombardeadas”, alertou a procuradora, num momento em que a comunidade internacional tem reagido à denúncia das autoridades ucranianas da existência de mais de 400 cadáveres nas ruas de Bucha, a oeste de Kiev, no seguimento da ocupação pelas forças russas.

Como é possível imaginar quatro mil vezes as imagens de Bucha?

A Rússia nega a autoria do massacre e diz que vai apresentar a verdadeira versão da natureza dos acontecimentos naquela cidade ucraniana. Sem uma única palavra pelas vítimas, os mesmos que bombardeiam um país há mais de um mês tentam explicar que tudo aquilo foi encenado pelos ucranianos, como se esta peça não estivesse em cena há quarenta dias.

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