Situado no Parque Eduardo VII, em Lisboa, o Pavilhão Carlos Lopes foi idealizado pelos arquitetos Guilherme e Carlos Rebello de Andrade e Alfredo Assunção Santos. Fabricado em Portugal, mas construído pela primeira vez no Brasil, para a Grande Exposição Internacional do Rio de Janeiro – que abriu a 21 de maio de 1922 e prolongou-se até 30 de maio do ano seguinte – recebeu o nome de “Pavilhão Português das Indústrias” – o primeiro de vários títulos.

É desmontado e transportado de barco para Portugal, em 1929.  Reconstruído e com novo nome, Palácio das Exposições e das Festas, abre portas a 3 de outubro de 1932 com a Grande Exposição Industrial Portuguesa. Depois da II Guerra Mundial, nos anos 40, é adaptado para receber eventos desportivos. Nele disputou-se, entre outros, o Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins de 1947. Por esse motivo ficou doravante conhecido como Pavilhão dos Desportos - mais um título.

Em 1984 recebe o último nome, aquele pelo qual o conhecemos hoje, em homenagem ao atleta português Carlos Lopes que nesse ano foi ouro na maratona nos Jogos Olímpicos de Los Angeles – Pavilhão Carlos Lopes. A sugestão foi do então presidente da Câmara de Lisboa, Krus Abecassis.

Um Pavilhão que conta a história política, cultural e desportiva dos anos 70, 80 e 90

Depois do 25 de abril de 1974, o Pavilhão foi palco de vários acontecimentos desportivos, culturais e políticos. São muitas as memórias e as histórias que os anos guardam.

O edifício foi palco de vários comícios e congressos partidários. Como o primeiro congresso do PPD, em 1974, meses após a sua fundação, e do BE, em 1999. Nele discursaram Mário Soares e Salgado Zenha, em 1975, no comício do PS que ditou a grande rutura entre socialistas e comunistas. Nele também discursou, por várias vezes, Álvaro Cunhal, líder histórico do PCP, em pleno verão quente de 1975, quando propôs um entendimento do PS com o PCP para "impedir a formação de um governo reacionário" CDS-PSD, em 1977, ou aquando do seu regresso da URSS, em 1989.

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Foi palco também dos extremos da política portuguesa. Do MRPP de Arnaldo Matos, que debatia nos anos 70 a revolução e a contra-revolução, aos partidos de extrema-direita, como os da coligação MIRN-PDC-FN, que nos anos 80 organizavam também os seus comícios no então Pavilhão dos Desportos.

Ali realizou-se ainda o Comício do Movimento Nacional Pró-Divórcio, a 21 de junho de 1974; Yasser Arafat, ex-líder da Autoridade Palestiniana, participou num comício de solidariedade com o povo palestiniano, em 1979; a Aliança Democrática (AD) reuniu-se na véspera da greve geral de 11 de fevereiro de 1982; e a candidata Maria de Lourdes Pintasilgo encerrou a sua campanha eleitoral para as presidenciais de 1986.

Entre os anos 80 e 90, o Pavilhão foi palco de muitos espetáculos musicais. São vários os nomes internacionais e nacionais que passaram pela sala lisboeta em concerto. Em 1983 Pete Seeger  - concerto que ficou documentado em disco, “Pete Seeger ao vivo em Lisboa” - e em 1988 os Mão Morta na primeira parte de Nick Cave. Em 1990 foi a vez dos Vaya Con Dios, no auge da carreira. No mesmo ano os Delfins gravaram lá um concerto para a RTP e os Sétima Legião um concerto que viria posteriormente a ser editado em vídeo. Também Marillion, Jesus and Mary Chain, Siouxsie and the Banshees e Van Morrison passaram também pelo pavilhão.

Foram vários os eventos desportivos que também se realizaram no Pavilhão, onde já em 1947 Portugal se sagrara campeão mundial de Hóquei em Patins. Recebeu o campeonato Europeu de basquetebol de 1982, mas também eventos de artes marciais, vólei, futsal e patinagem artística.

Outros eventos, como as marchas populares de Lisboa, cerimónias de entrega de prémios, programas televisivos, concursos de beleza, feiras de agricultura, congressos da IURD, entre outros, escolheram o versátil edifício. Até que em 2003 encerrou por falta de condições de segurança e esteve vários anos ao abandono.

Em meados de setembro de 2015, a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou a constituição de um direito de superfície sobre uma área de 12,9 mil metros quadrados - que diz respeito ao Pavilhão Carlos Lopes - pelo prazo de 50 anos e por cerca de 3,5 milhões de euros, a favor da Associação de Turismo de Lisboa.

Chegaram a ser pensadas alternativas para o espaço municipal, como a criação de um museu do desporto ou um centro de congressos, mas nenhuma avançou, pelo que a Câmara encarregou a ATL de o reabilitar.

O Pavilhão Carlos Lopes Reabre este sábado, 18 de fevereiro, pelas 17h00. A data não é escolhida ao acaso, o ex-atleta do Sporting e medalhado Olímpico, Carlos Lopes, completa no dia 70 anos.

A cerimónia de reabertura será presidida pelo primeiro-ministro, António Costa, e conta com a presença do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina.

14 anos depois do seu encerramento, a reabertura do edifício histórico é também uma prenda para a cidade de Lisboa.

As obras, o “novo” Pavilhão e o futuro

Em declarações à agência Lusa, o diretor-geral da Associação Turismo de Lisboa (ATL), entidade encarregue de reabilitar o pavilhão, reconheceu que o edifício estava “bastante degradado e com falta de azulejos e outras peças (…), porque tinham sido vandalizadas, e estava em risco de desaparecer”.

As obras que se iniciaram há cerca de um ano e agora terminam, no valor de oito milhões de euros, foram “no sentido de restaurar e revitalizar este espaço, que é um espaço icónico”, acrescentou Vítor Costa.

“O projeto implicou uma melhoria da relação do próprio edifício com o espaço envolvente, quer com o Parque Eduardo VII, quer com a zona urbana: melhoraram-se acessibilidades, criaram-se escadas, inclusivamente uma escada rolante [para a Avenida Sidónio Pais] e retirou-se o estacionamento que havia aqui à volta”, precisou Vítor Costa à agência Lusa.

No seu interior foi tudo restaurado, respeitando todas as regras que os elementos decorativos e o interesse patrimonial assim o obrigavam. A fachada principal do edifício conserva os painéis de azulejos, em azul e branco, produzidos pela Fábrica de Sacavém, em 1922, e que representam momentos da história de Portugal com temas dedicados a Sagres, à Batalha de Ourique, à Ala dos Namorados na Batalha de Aljubarrota e ao Cruzeiro do Sul. Também as esculturas “Arte” e “Ciência”, peças do escultor Raúl Xavier, foram preservadas.

A antiga sala multiusos, com cerca de 2.000 metros quadrados e capacidade para cerca de 2.000 pessoas, foi modernizada, mas manteve a fachada. A sala respeita agora todos os requisitos legais e de mercado que permitem nela a realização dos mais variados eventos.

À agência Lusa, Vítor Costa garantiu ainda que Carlos Lopes “participou ativamente” na intervenção. A exposição permanente – Exposição Carlos Lopes - “foi feita com orientação dele” e conta com 300 peças por si cedidas, como troféus, medalhas e roupa desportiva.

Até 18 de março, de segunda a domingo, entre as 10h00 e as 18h00, estará aberta ao público uma instalação multimédia sobre os 20 anos do Turismo de Lisboa.

Apesar de se prever a “exploração comercial” do pavilhão — com valores que estão “dentro daquilo que é usual no mercado” — o objetivo principal da requalificação foi preservar a memória histórica do espaço, contou o responsável à Lusa. O primeiro evento após a inauguração já tem data, a 10ª edição do Peixe em Lisboa, que decorre entre o dias 30 de março e 9 de abril. Outros virão, como a Moda Lisboa em outubro.

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