Vamos começar por um número que ajuda a materializar aquilo de que vamos falar: nos últimos cinco anos, as organizações civis de recolha do lixo marinho em Portugal terão apanhado qualquer coisa como mil de toneladas de lixo na costa portuguesa. A estimativa é de Tiago Pitta e Cunha, presidente executivo da Fundação Oceano Azul e um dos especialistas nacionais no tema dos oceanos.

O que é que aconteceu para tantas pessoas usarem o seu tempo livre a, literalmente, apanhar lixo? Tiago Pitta e Cunha arrisca algumas explicações. “Não sabemos se foi por causa da conferência das Nações Unidas, em 2017, que pôs a questão dos plásticos na agenda mundial, se por causa do novo Blue Planet da BBC que saiu no final de 2018, o que é certo é que começámos a assistir a um enorme crescimento de movimentos de cidadãos de limpeza de lixo marinho”. Na sala, dois nomes grandes de quem se move nestes palcos – Paulo Rose e Alan Friedlander – falam também destas alavancas, na política e nos media, mas apontam o dedo especialmente numa direção: os miúdos, os jovens, um grupo para quem o tema dos oceanos e da preservação do planeta como um todo é, claramente, prioritário. Uma evidência que já é visível em vários dos estudos e que resulta do dia-a-dia. Uma evidência que ontem resultou numa sala cheia de gente, não apenas gente mais nova, mas onde os jovens claramente marcaram presença.

O que os fez vir a um sábado até ao Oceanário, em Lisboa, muitos de lugares bem distantes por todo o país?

Várias coisas.

Alguns já tinham estado juntos, sem estar efetivamente juntos, mas tendo sido parte da campanha de recolha de lixo marinho que a Fundação Oceano Azul realizou a 21 de setembro, o dia internacional que assinala essa prioridade na defesa do planeta. “Nesse dia tivemos 107 organizações e todos eles trabalharam em conjunto. Hoje vieram de alguma maneira confrontar-se com o potencial que têm”, afirma o presidente executivo da Fundação.

Para que o dia de ontem acontecesse, ajudou muito a experiência de Flávia Silva, gestora de projecto da Fundação Oceano Azul, que há 12 anos está a trabalhar em lixo marinho, e que conhece provavelmente todas as organizações que existem. Para a COOL, foram convidadas cerca de 100 organizações - 62 organizações acabaram inscritas. “O que é extraordinário para um país que não tem uma sociedade civil visível na agenda do ambiente, não tem grandes ONG, ou uma grande agenda do Parlamento ou do setor privado”, considera Tiago Pitta e Cunha. “Ter todos estes cidadãos é uma lufada de ar fresco incrível”.

Maioritariamente as pessoas que andam pela costa portuguesa a apanhar lixo, fazem-no no seu tempo livre. Também há ONG especializadas efetivamente nestes temas, como é o caso do Geota, da Liga para a Proteção da Natureza ou da Quercus, mas na convenção de ontem eram uma minoria – “85% das organizações que aqui estão são de cidadãos que já têm nome, já se constituíram, já conseguiram mobilizar, muitas delas, centenas de voluntários, mas que trabalham porque a leitura que fazem da crise climática que vivemos as leva a tomar uma iniciativa”.

Se é certo que todas as organizações têm um objetivo comum – a redução do lixo marinho e a limpeza da costa portuguesa – é também verdade que a forma como o fazem, ou o contexto, espelha a diferença na origem, geográfica e não só.  “Há de tudo. Até há um grupo de peregrinos católicos que nas suas peregrinações descobriu que havia muito lixo no chão e que passou ele próprio a ser uma associação que combate o lixo na costa portuguesa”, conta Tiago Pitta e Cunha.

Há também uma organização que trabalha com centros comerciais e que fez um livro sobre o plástico do mar para crianças que vai ser distribuído pelos pais Natal dos shoppings este ano em Portugal. E, em novembro, a Fundação fez uma parceria com as organizações de escuteiros que já mobilizou mais de cinco mil escuteiros só este mês.

Na convenção de ontem – nome talvez demasiado formal para uma sala que disposta em grupos onde todos falavam com todos – as 62 organizações presentes vieram para se conhecer, para dizer quem são e o que as move. O “potencial” de que falava o presidente da Fundação Oceano Azul é este. Mas, vieram também ouvir alguns convidados e a reação na sala foi elucidativa de como os temas ambientais têm os seus heróis mapeados.

Paul Rose, a rockstar dos mares

Alguns, como Paul Rose, são uma espécie de rockstar dos oceanos. É por aí que começámos uma conversa com ele, depois de, na sala, ter contado a sua experiência a um público atento. “Sente-se uma espécie de rockstar?”, perguntamos. Rose brinda-nos com uma gargalhada sonora. “Sinto-me feliz por ser uma força para o bem e gosto de estar rodeado de pessoas que se consideram uma força para o bem, que vivem uma boa vida, celebram a sua forma de vida e seguem com a ideia de fazer a diferença onde estão”, responde. “Adoro a ideia de fazer a diferença”.

A televisão, mais em concreto a BBC, tornou Paul Rose um nome conhecido do grande público, inglês e não só. Ontem, na convenção em Lisboa, veio falar do projeto de limpeza do rio Tamisa (Cleaner Thames Project) de que é o rosto com a chancela da National Geographic. Mas Rose, mergulhador, alpinista, explorador, é um homem dos sete ofícios. Líder de expedição no projeto Pristine Seas da National Geographic, que visa proteger da poluição locais remotos do oceano, Rose é um dos nomes de referência nas iniciativas globais de redução do plástico, sendo embaixador das Nações Unidas para as convenções neste domínio.

Rose nasceu na zona leste de Londres, em 1951. Na sala, exibiu um gráfico que mostra a evolução do lixo decorrente do plástico desde o ano em que nasceu até 2015. A curva descrita no gráfico é um meteorito, sempre a subir. Mas, nesse tempo do pós-guerra, a batalha pela redução do lixo nos oceanos e do plástico como uma das principais preocupações, estava longe. Não foi por isso que Paul se tornou um explorador que passa a vida a viajar pelo globo e conhece pessoas com histórias singulares no mundo inteiro.

“Quando tinha 11 anos, odiava a escola, mal sabia ler e estava sempre em sarilhos. Falhava quase tudo. Foi nessa altura que me apaixonei por mergulho, sem qualquer influência na família, ninguém o fazia.” O que aconteceu então? Aconteceu o que acontece a miúdos de 11 anos – sonhar com o que pode ser. E, pela mão e pelas imagens que lhe chegavam na televisão de três nomes, Paul Rose sonhou que podia ser uma espécie de herói. Um desses nomes era o incontornável Jacques Cousteau. O outro, um personagem de ficção, Mike Nelson [nome do protagonista da série americana Sea Hunt], que vivia aventuras no mar e por quem as miúdas mais giras se apaixonavam. “E, não sabendo nada de conservação, eu queria ser um mergulhador”.

Ou seja, era pura aventura – a aventura que se tornou real e que o faz hoje ficar três a seis semanas num lugar e rumar a outro e que o leva a conhecer “gente incrível” e a “fazer parcerias para que as coisas aconteçam”. Na sala, Rose tinha mostrado imagens deste seu mundo de aventuras – um dia ladeado de ministros em Paris, outro dia em Ljubljana, onde uma fábrica que recicla redes de pesca está a ser parte desta história. “Passei a minha vida a tentar transformar hipóteses científicas em ação concreta e é fantástico fazer isto”.

Transformar a ciência em ação significa concretizar coisas que os cientistas sabem em iniciativas que envolvem “aviões, barcos, mergulhadores, alpinistas”, entre outros, nas palavras de Paul Rose. E tudo começou pela aventura: “sim, era só aventura no início. Não sabia nada de conservação, nem sequer dizer a palavra, mas quando via Mike Nelson pensava “isto é para mim” e foi a razão para começar a mergulhar”.

Este explorador que hoje é recebido como um herói por quem acompanha as iniciativas ambientais só pelos 30 anos percebeu que tudo se tinha tornado sério. “Apercebi-me que estava a contribuir para a ciência e que estava a fazer coisas importantes acontecerem – e esse foi um momento brilhante para mim”. Aos 68 anos, já leva mais do dobro com “consciência” do trabalho que faz, além da aventura, mas foi nos últimos anos que assistiu às maiores mudanças.

“Em primeiro lugar, no nível de atenção ao tema. Nunca em toda a minha vida vi este nível de atenção a temas globais. Hoje posso ir a qualquer empresa, reunião com políticos, escolas ou comunidades e todos têm o seu ponto de vista  e  bastante informação sobre estes temas globais, seja sobrepopulação, geopolítica, plástico, etc. As pessoas nunca prestaram tanta atenção – talvez seja por causa da internet”. Estas são as boas notícias de uma vida em digressão pelo planeta.

Mas há más notícias, também. “Nunca vi tanto plástico na minha vida como hoje. Todos os lugares de mergulho onde sempre fui tem bastante menos peixes do que costumavam ter”.

Logo no início da conversa, Paul Rose disse que já era parte da família em Portugal. Acabámos a conversa como começámos: como é que isto aconteceu? “Tudo começou com um homem fantástico, Emanuel Gonçalves quando liderei a expedição às Selvagens, em que ele era o especialista português. Demo-nos bem e percebemos que havia uma boa oportunidade de fazermos uma parceria com a Fundação Oceano Azul que estava a começar”. Depois disso já voltou várias vezes a Portugal e ao mar português – ontem foi mais uma.

Nota de edição: Artigo corrigido às 22h15 para alterar a estimativa de recolha de lixo nos últimos cinco anos. Por lapso, o número avançado era de mil milhões de toneladas quando na realidade se trata de mil toneladas. 

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