O Jornal Público avançou esta quarta-feira, 18 de julho, que "Os Maias" vão deixar de ser de leitura obrigatória no ensino secundário. Contactado pelo SAPO24 o Ministério da Educação confirmou esta informação e avançou que "por exemplo, numa mesma turma, um conjunto de alunos poderá ler 'Os Maias', outros 'A Relíquia' e outros 'A Cidade e as Serras'. Todos contactam com o autor e o movimento literário, mas alarga-se o leque de leituras dos alunos."

As "Aprendizagens Essenciais", onde está prevista esta alteração e cujos documentos estão em consulta pública até 27 de julho, entram em vigor nos anos iniciais de ciclo do próximo ano (1.º, 5.º, 7.º e 10.º anos). Tendo sido "construídas a partir dos documentos curriculares em vigor", estes documentos orientadores "continuam a listar autores como Eça de Queirós como leituras obrigatórias, dando liberdade às escolas para selecionar as obras concretas a ler".

De referir que o período de consulta pública serve "para que sejam enviados contributos que podem traduzir-se em alterações", sendo que os contributos devem ser realizados através deste formulário.

As "Aprendizagens Essenciais" são documentos de orientação curricular que servem de base para a planificação, realização e avaliação do ensino e da aprendizagem.

Assim, no que diz respeito à educação literária, este plano prevê, no 11º ano, que os alunos de português interpretem "obras literárias de autores marcantes entre os séculos XVII e XIX: Padre António Vieira, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Antero de Quental e Cesário Verde".

Detalha o documento que do Padre António Vieira o estudo terá de ser do “Sermão de Santo António. Pregado na cidade de S. Luís do Maranhão, ano de 1654”. De Almeida Garrett deverá ser estudada a obra "Frei Luís de Sousa". Os alunos podem ainda escolher uma obra narrativa de Almeida Garrett, Alexandre Herculano ou Camilo Castelo Branco; um romance de Eça de Queirós; três poemas de Antero de Quental e três poemas de Cesário Verde.

Para o 10º ano de escolaridade está reservado o estudo de  Gil Vicente ("Farsa de Inês Pereira" ou "Auto da Feira") e de Luís de Camões ("Rimas" e "Lusíadas"); e no 12º ano a atenção vira-se para Fernando Pessoa, José Saramago e poetas contemporâneos.

Aqui, as escolhas passam por Fernando Pessoa ortónimo, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos; pelo "Livro do desassossego" e pela "Mensagem". Entre os poetas contemporâneos, a escolha pode passar por  Miguel Torga, Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, António Ramos Rosa, Herberto Helder, Ruy Belo, Manuel Alegre, Luiza Neto Jorge, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Ana Luísa Amaral. Já no caso de José Saramago, a leitura recomendada é do "Memorial do Convento" ou de "O Ano da morte de Ricardo Reis".

Susana Almeida, professora de Português do ensino secundário, não considera que seja uma "missão impossível" ter diferentes grupos de alunos a ler obras diferentes do mesmo autor, e salienta que tudo dependerá da forma como os departamentos das escolas escolherem abordar esta questão e avaliar os conhecimentos adquiridos. "O objetivo é que realmente leiam o Eça". A professora, que dá aulas há 16 anos, vê com bons olhos a maior liberdade que esta medida introduz, salientando porém que "Os Maias" são uma obra quase incontornável.

No mesmo sentido, Susana Ribeiro, professora há 12 anos, acha difícil que a obra seja preterida em sala de aula. "Eu duvido que hoje algum professor decida não trabalhar Os Maias. É aquela obra que nos marca, a alunos e professores; e de todas as obras [do Eça de Queirós] é aquela em que, se conseguirmos passar a mensagem de que é cativante, os alunos vão gostar. É uma obra transversal, que não pode deixar de ser lecionada."

No entanto, vê vantagens em abrir o leque e, inclusivamente, incluir os alunos na escolha da(s) obra(s) a trabalhar. "Quando decidimos com os alunos, eles sentem-se parte integrante e gostam mais. O pior é a imposição, aí gostam menos". Todavia, alerta para o desafio de trabalhar várias obras ao mesmo tempo com turmas com 30 alunos, vendo aqui uma oportunidade para aplicar modelos de divisão de turmas que permitam grupos mais pequenos e, por isso, mais acompanhados.

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