Os deputados aprovaram que o processo de destituição siga para o Senado, pondo Dilma a dois passos de deixar definitivamente a presidência. O Senado pode começar o processo no próximo mês e, se o julgamento for aprovado, a presidente terá de se afastar do cargo enquanto é julgada.

Dilma Rousseff pode sobreviver ao julgamento, mas os analistas consultados pela AFP acreditam que o Senado vai seguir o caminho traçado pela Câmara dos Deputados. E os deputados que anunciaram o seu voto ao microfone, como os manifestantes das ruas não hesitaram em dizer: "Tchau, querida".

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Cenário de vingança

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O vencedor imediato de todo este processo é o vice-presidente Michel Temer, que se tornou o principal rival de Dilma e, segundo manda a Constituição, vai assumir o poder enquanto a presidente for julgada e vai completar o seu mandato até 2018, se ela for declarada culpada.

Michel Temer assume-se como um presidente à espera. Isso ficou claro depois de ter divulgado "acidentalmente" uma gravação onde ensaiava o seu primeiro discurso à nação. Mas a realidade do cargo pode não ser tão atrativa. "Um eventual governo seu estará numa situação melhor que o de Dilma, mas também muito complicada", disse à AFP Diego Werneck, especialista em Direito Público da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.

O advogado constitucionalista e o seu partido, o PMDB, vão encontrar uma oposição amarga e vingativa se Dilma for forçada a deixar o cargo. Profundamente impopular entre a maioria dos brasileiros, Michel Temer, de 75 anos, enfrentaria um problema de credibilidade ao chegar à presidência sem o voto popular. E isso antes de abordar os problemas estruturais, num momento em que a maior economia da América Latina atravessa a sua pior recessão em décadas, deixando os investidores espantados.

As três grandes agências de rating baixaram as obrigações da dívida brasileira para a categoria de "lixo".

Pesadelo

"A crise vai continuar, e inclusive vai agravar-se, porque o lado perdedor vai utilizar todos os instrumentos para boicotar os vencedores. De qualquer forma, o Brasil amanhecerá pior amanhã", disse à AFP o analista político André César.

Coalition partner abandons Brazil's Rousseff 

Michel Temer declarou que pretende estabelecer uma coligação de unidade nacional, mas "não é tão fácil. Será um pesadelo", acrescentou. Diego Werneck disse, por exemplo, que Temer pode acabar por lutar contra si mesmo para permanecer no poder.

Os aliados de Dilma apresentaram um pedido de "Impeachment" contra o atual vice-presidente, alegando que também está envolvido na alegada manipulação de contas na qual se baseia o caso de Dilma. Embora seja pouco provável que um processo de "Impeachment" contra ele se concretize, uma vez que o seu companheiro de partido Eduardo Cunha é que preside à Câmara de Deputados, a ameaça vai estar sempre latente.

Michel Temer também enfrenta com Dilma Rousseff um processo na justiça eleitoral, acusados de terem recebido dinheiro do esquema de corrupção na Petrobras para financiar a sua campanha. O tribunal pode anular a eleição presidencial de 2014 e convocar uma nova.

Crise sem fim

Brazilians in favor and against president Dilma Rousseff take the streets to demonstrate

O obstáculo mais imediato para quem quer que esteja no poder é recuperar a governabilidade deste país fraturado. Dilma encontra-se praticamente sem nenhum poder no palácio presidencial, sem ligação com o Congresso e desprestigiada entre a população.

Mas os analistas acreditam que Michel Temer corre o mesmo risco. O seu PMDB tem uma mistura de ideologias e sempre contou com um papel chave no poder, mesmo que não apresente um candidato próprio desde 1994. Com parceiros potenciais para as eleições de 2018, as alianças, no entanto, podem ser frágeis.

Sylvio Costa, especialista político do blog "Congresso em Foco", disse que Dilma está longe de ir embora, mas que os novos problemas são avistados no horizonte. "Quem perder vai continuar a protestar nas ruas. O que temos certeza é que a crise não termina hoje", conclui.

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