O cantor atuava com regularidade em Portugal, tendo, por exemplo, aberto, em 2017, o 34.º Festival de Teatro de Almada e tocado, nesse mesmo ano, no Festival de Músicas do Mundo de Sines.

O seu último álbum, "Classics of my Soul" (2010) apresentou-o, em 2013, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, com a Orquestra Gulbenkian, num concerto que descreveu como um "encontro da música ocidental erudita com a música contemporânea de África".

Este trabalho discográfico, gravado com a Orquestra Sinfónica de Londres, sob a direção do maestro Nick Ingman, foi apontado como um dos álbuns do ano na categoria de ‘world music’ pelo jornal francês Libération.

Sobre a sua música, muitas vezes definida como um misto de afro-pop, fado, ‘soul’ e influências brasileiras, Waldemar Bastos explicou que ela tem a ver com as músicas todas que ouviu.

"Porque nós, se falarmos historicamente, enquanto colonizados, ouvíamos de tudo - eu ouvia Amália Rodrigues. A minha música tem um bocado de tudo, porque tudo de bom das culturas, eu absorvo; o que é belo, eu absorvo naturalmente", disse numa entrevista à agência Lusa, em 2013.

"É lógico que sou compositor de um país que tem uma música forte e a espinha dorsal ou a alma é aquela. Mas, à volta dela, está toda a minha viagem musical e intelectual ou espiritual, por onde eu ando", sublinhou.

Na mesma entrevista, questionado sobre se os músicos, como outros artistas, devem ter um papel interventivo na sociedade, Waldemar Bastos respondeu: "Eu penso que sempre que se fala de valores, os valores são um apelo à consciência, e acolá, onde as coisas não estiverem corretas, essa música pode fazer refletir".

"Aí, sem intervenção direta política - porque eu acho que a música é música -, mas os valores que ela transporta, os sentimentos, tudo isso, pode fazer refletir e ajudar a política até a melhorar", defendeu.

"A minha música nunca foi de intervenção direta… Eu faço arte. E o belo pode ter a capacidade de transformar para melhor", enfatizou.

Waldemar Bastos nasceu em Mbanza-Kongo, ex-S. Salvador do Congo, na província do Zaire, no noroeste de Angola, e começou a cantar ainda menino.

No período colonial, o músico foi preso pela PIDE, a polícia política do Estado Novo.

Aos 28 anos mudou-se para Portugal onde editou o seu primeiro disco, "Estamos Juntos" (1983), ao qual se seguiu "Angola Minha Namorada" (1989) e "Pitanga Madura" (1992).

Em 1997 publicou, pela etiqueta Luaka Bop, de David Byrne, "Pretaluz [blacklight]", e dois anos depois foi distinguido, em Monte Carlo, no Mónaco, com o prémio de New Artist of the Year nos World Music Awards.

Discograficamente, editou, em 2004, "Renascence", pela etiqueta neerlandesa World Connection. Sobre este álbum, a BBC referiu a "grande maturidade e até suavidade em muitas das faixas" onde a esperança e a reconciliação estão entre os temas explorados.

"Guitarras africanas ressoam, a percussão é veloz, trompas deslizam para dentro e para fora, mas a voz de Bastos treme com contenção, como se ele quisesse medir cada pensamento e sentimento", a televisão britânica assinalava que "a fé religiosa do cantor também impregna muitas faixas com uma qualidade espiritual".

"Bastos declarou abertamente sua crença nos poderes de cura da música", escreveu Chris Moss no mesmo artigo em que realçou "toda a estudada resposta às suas raízes angolanas" e acrescentou que "Bastos é fã dos Bee Gees, e de Santana, e numa faixa como ‘Pitanga Madhurinha', faz uma homenagem à abordagem irreverente de David Byrne aos sons do mundo e das raízes. Este é um afro pop temperado - fácil para os ouvidos e sedutor para o corpo. Bastos - mais velho e mais sábio - está de volta à moda".

Em 2008, editou o álbum "Love Is Blindness", em que gravou em inglês.

Em 2018, o músico foi distinguido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, a mais importante distinção do Estado angolano nesta área.

Waldemar Bastos vivia em Angola desde 1990, com a família, sendo pai de três filhas.

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