De acordo com um exercício, com base em modelos matemáticos, da Organização Mundial de Saúde e da ONUSIDA, uma interrupção de seis meses da terapia antirretroviral nos países da África Subsaariana resultaria em 500 mil mortes adicionais devido a doenças relacionadas com a sida, incluindo a tuberculose.

Em 2018, o número de mortes relacionadas com infeções por HIV atingiu as 470 mil nesta região.

“A terrível perspetiva de que haverá mais meio milhão de pessoas a morrer de doenças relacionadas com a sida é um passo atrás na história”, considerou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

De acordo com o exercício, num cenário de seis meses de interrupção de tratamentos, a região retrocederia a números de há mais de 10 anos (2008), quando as mortes relacionadas com a sida na região ascendiam a 950 mil.

Além do impacto imediato, a investigação estima que as pessoas continuariam a morrer em grande número pelo menos durante cinco anos, com uma média anual de 40% de mortes adicionais.

Por outro lado, é admitido também um impacto na incidência das infeções por HIV no próximo ano.

“Devemos ler isto como um alerta aos países para que identifiquem formas de sustentar todos os serviços de saúde vitais”, disse o diretor da OMS.

Adiantou que alguns países já estão a garantir pontos de entrega para medicamentos e ‘kits’ de autodiagnóstico de HIV, o que permite aliviar a pressão sobre os serviços de saúde.

“Temos também de assegurar que o fornecimento global de testes e tratamentos continue a fluir para os países que deles necessitam”, acrescentou.

Na África Subsaariana, estima-se que, em 2018, 25,7 milhões de pessoas viviam com HIV e 16,4 milhões (64%) estavam a fazer terapia antirretroviral.

De acordo com a OMS e a ONUSIDA, essas pessoas correm agora o risco de ver o seu tratamento interrompido porque os serviços estão fechados ou são incapazes de os fornecer devido a perturbações na cadeia de abastecimento ou porque estão sobrecarregados por causa da resposta à covid-19.

“A pandemia de covid-19 não deve ser uma desculpa para desviar o investimento do HIV”, afirmou, por seu lado, a diretora da ONUSIDA, Winnie Byanyima.

“Existe o risco de que os ganhos obtidos na resposta à sida sejam sacrificados à luta contra a covid-19, mas o direito à saúde significa que nenhuma doença deve ser combatida à custa da outra”, acrescentou.

No exercício estiveram envolvidas cinco equipas que usaram diferentes modelos matemáticos para analisar os efeitos de vários tipos de interrupções, causadas pela covid-19, nos serviços de despistagem, prevenção e tratamentos do HIV.

Cada modelo analisou o potencial impacto da paragem dos tratamentos por três ou seis meses na mortalidade causada pela sida e na prevalência de infeções por HIV na África Subsaariana.

Num cenário de rutura de seis meses, as estimativas de mortes adicionais relacionadas com a sida num ano variaram entre 471 mil e 673 mil, dados que comprometeriam o objetivo global de menos de 500 mil mortes relacionadas com a SIDA em 2020.

Perturbações mais curtas de três meses teriam um impacto reduzido, mas ainda significativo, nas mortes por HIV, segundo o exercício.

O estudo aponta ainda que a interrupção dos serviços poderia também reverter os ganhos obtidos na prevenção da transmissão do HIV de mãe para filho.

Desde 2010, as novas infeções por HIV entre as crianças da África Subsaariana diminuíram 43%, de 250 mil em 2010 para 140 mil em 2018.

A redução destes serviços durante seis meses poderia fazer aumentar drasticamente as novas infeções por HIV entre as crianças, chegando a atingir 37% em Moçambique, 78% no Maláui, 78% no Zimbabué e 104% no Uganda.

Outros efeitos significativos da pandemia na resposta à sida na África Subsaariana incluem a redução da qualidade dos cuidados clínicos devido à sobrecarga, a suspensão dos testes de carga viral, a redução do aconselhamento, a mudança do regime de medicamentos e a falta de preservativos e de testes de despistagem.

A investigação sublinha, por isso, a necessidade de “esforços urgentes” para assegurar a continuidade dos serviços de prevenção e tratamento do HIV, defendendo que os países deem prioridade ao reforço das cadeias de abastecimento e à garantia de que as pessoas que já se encontram em tratamento o possam continuar.

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