Aos gritos de "Renúncia, renúncia!", milhares de simpatizantes da oposição venezuelana reuniram-se numa rua do município Chacao, a leste de Caracas, enquanto outros milhares de chavistas marchavam no centro da capital, com as palavras de ordem "Maduro, fica!" e "Yankees, go home!". Ainda não há números oficiais de quantas pessoas participaram, mas as manifestações transcorreram sem incidentes.

Sob o lema "Vamos com Tudo", a coligação opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) - que controla o Parlamento - convocou os seus partidários a marcharem em 15 dos 23 estados, além de Caracas. "A Venezuela não aguenta mais. Imaginem mais três anos destas políticas. A cada dia o seu fracasso é maior em tudo. Por isso, queremos sair daqui de maneira democrática, pacífica, eleitoral e constitucional", defendeu o presidente do Parlamento de maioria opositora, Henry Ramos Allup, no encerramento do comício da MUD.

Segundo ele, o Parlamento entrará, este domingo, em "debate permanente" para discutir a prorrogação do decreto de emergência económica pedido por Maduro na sexta-feira. Este decreto chegou a ser vetado pelo Parlamento, mas entrou em vigor graças ao apoio do poder judiciário. Na última quarta-feira, a MUD revelou a sua estratégia para alcançar este objetivo por vias paralelas: um referendo revogatório e uma emenda para encurtar o mandato de Maduro (2013-2019), além de manifestações para pressionar a sua renúncia.

Em resposta aos que criticam a coligação por não se decidir por uma única alternativa, Ramos explicou que "todos os mecanismos estão em risco". Por isso, completou, decidiram "promovê-los todos ao mesmo tempo".

'Estão a ficar loucos'

Para ir contra o movimento da oposição, Maduro liderou uma marcha no centro de Caracas, na qual garantiu que ficará "até ao último dia" do seu mandato. "Que venham (...) Há bastante povo para enfrentá-los e vencer, com a Constituição e a paz", proclamou, acompanhado do alto comando militar do país. "Já estão a ficar loucos", disse Maduro, referindo-se à agenda da oposição para tirá-lo do poder. "É uma loucura o que vocês fazem: 'vamos contra Maduro, com isto, com aquilo'. Façam o que tiverem na vontade. Eu estou aqui é para lutar. E Maduro estará aqui até ao último dia, deixado por Hugo Chávez", proclamou o presidente, diante da multidão de chavistas. "Vocês não deixam Maduro, porque Maduro não é Maduro, Maduro é povo e é revolução! Que parte disto não entenderam? ", criticou o chefe de Estado.

A grave crise económica da Venezuela tem pulverizado a popularidade de Maduro. O presidente insistiu em que se manterá no poder "com o apoio do povo, das Forças Armadas e com a decisão absoluta de que aqui ninguém vai render-se".

"Eles não têm povo para tirar o presidente porque Maduro somos todos e não vamos permitir isso", garantiu, enquanto os manifestantes o fotografavam com os telemóveis. "Esta revolução não se entrega", vaticinou.

O presidente também rejeitou o facto de os Estados Unidos terem renovado um decreto que considera a Venezuela uma ameaça "fora do normal e extraordinária" à sua segurança. A 3 de março, o presidente americano, Barack Obama, ampliou por um ano a declaração de "emergência nacional" em relação à Venezuela, alegando que a degradação dos direitos humanos e a perseguição de dirigentes opositores continuam no país.

Queda de braço judicial

Juristas como José Ignacio Hernández assinalam que todas as opções para a saída do presidente terão de passar pelo filtro do Supremo Tribunal de Justiça (TSJ), acusado pela oposição de ser o "escritório jurídico" do chavismo. Na semana passada, este tribunal eliminou funções de controlo que eram do Parlamento, órgão que após 17 anos de hegemonia chavista passou a ser de maioria opositora, gerando uma crise institucional de choque de poderes. O TSJ reduziu drasticamente os poderes parlamentares, eliminando a possibilidade de supervisão dos atos dos Poderes Judiciário, Eleitoral, Cidadão e dos Comandos Militares. O tribunal "não apenas viola grosseiramente a Constituição, como também o faz de forma cobarde", criticou neste sábado no Twitter o líder Ramos Allup, antes da manifestação.

Esta decisão aumentou o temor de que o tribunal bloqueie, eventualmente, a emenda para reduzir o mandato para quatro anos e até mesmo o referendo, cuja realização, se o processo administrativo começasse agora, aconteceria em meados de novembro, estima o especialista em temas eleitorais Eugenio Martínez.

O referendo vai ser organizado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), também acusado de servir os interesses do governo. Na última quinta-feira, no primeiro de dois debates parlamentares, a maioria opositora aprovou uma lei de referendos para agilizar e flexibilizar a sua realização. "O que não pode fazer o governo, nem o TSJ, nem o CNE, é mudar uma realidade: a de que a maioria da população quer mudanças, não é chavista, e que, frente a um processo eleitoral, a oposição venceria", declarou à AFP o analista Luis Vicente León.

Dona da maior reserva de petróleo do planeta, a Venezuela apresenta a inflação mais alta do mundo - 180,9% em 2015 - e uma escassez de alimentos e medicamentos que preocupa a população. A crise deve-se em parte à queda dos preços do petróleo, embora a oposição responsabilize o governo Maduro.

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