“A criação de uma especialidade é complexa. Temos de ouvir todas as especialidades, começando pela Medicina Interna porque é a especialidade ‘mãe’. Mas vamos ouvir outras também”, disse Miguel Guimarães.

Na terça-feira foi noticiado que cerca de duas dezenas de médicos criaram a Sociedade Portuguesa de Medicina de Urgência e Emergência (SPMUE).

“Em Portugal não existe a especialidade de Medicina de Urgência e Emergência, o que existe é uma proposta que já foi entregue no ano passado à OM para que seja criada e que nasceu no seio do Colégio de Emergência Médica da Ordem”, disse à Lusa o médico Vítor Almeida.

Na Europa apenas cincos países, nos quais se encontra Portugal, não têm esta especialidade.

Hoje, convidado a comentar esta pretensão, Miguel Guimarães recordou que a proposta “caiu no início da pandemia [da covid-19] e ficou parada”, mas garantiu que a discussão está agora a ser reativada.

“A nível da Europa a especialidade existe em vários países. Mas isto também está dependente do que existe em Portugal que tem três tipo de urgência”, disse Miguel Guimarães.

Os três tipos de urgência são a urgência básica, as médico-cirúrgicas e as polivalentes.

Atualmente em Portugal as equipas de urgência dos hospitais têm a participação de especialistas de várias áreas.

São consideradas especialidades base do serviço de urgência a Medicina Interna e a Cirurgia Geral.

De acordo com o Miguel Guimarães esta ideia já foi lançada no passado quando era bastonário José Manuel Silva, o qual, descreveu o atual líder da OM, “contactou várias especialidades que têm uma relação mais forte com o serviço de urgência e depois acabou por se concluir nessa altura que a criação da especialidade podia ter efeitos positivos e efeitos negativos na reorganização dos próprios serviços de urgência”.

“Porque se amanhã tivermos a especialidade de Medicina de Urgência, os serviços de urgência têm de ser reorganizados. Tem de se pensar na carreira dos médicos. Lembro que neste momento os médicos a partir dos 50 anos estão dispensados de fazer urgência noturna e a partir dos 55 estão dispensados de todo de fazer urgência. Isto tem a ver com a própria complexidade e stress do serviço”, analisou Miguel Guimarães.

No dia e que se assinala o Dia Internacional da Medicina de Emergência e Urgência, à Lusa, o bastonário apontou, ainda, que uma outra área que “tem de ser consultada” é a de Medicina Geral e Familiar porque, embora não esteja ligada ao serviço de urgência, está ligada à sua eventual reorganização.

“Todos sabemos que muitos doentes não precisariam de ir à urgência se tivessem a possibilidade de recorrer a serviços na área da Medicina Geral e Familiar”, referiu Miguel Guimarães, recordando que no passado existiram os chamados Serviços de Atendimento Permanente que tinham como objetivo “retirar algumas das pessoas das urgências”.

Segundo Miguel Guimarães após o debate interno, segue-se um debate no Conselho Nacional da OM e uma votação pela Assembleia de Representantes, o órgão máximo da Ordem, bem como uma proposta Assembleia da República.

O papel das autoridades de saúde nacionais também foi destacado pelo bastonário da OM, uma vez que “é preciso perceber até onde o Estado está interessado em mudar a organização atual do serviço de urgência” e “em apostar em programas de formação novos”.

Miguel Guimarães acrescentou outros fatores, nomeadamente a discussão sobre o “perfil do médico” que se candidatará a esta especialidade e “quais os critérios de admissão, uma vez que atualmente a urgência é feita por médicos altamente qualificados, o que significa que se vier a existir a especialidade, tem de haver uma admissão por consenso”.

Este tema já tinha sido levantado no início de maio quando um especialista com experiência em cenários de catástrofe que trabalha no Hospital de São João, no Porto, unidade onde a 02 de março foi detetado o primeiro caso em Portugal do novo coronavírus, defendeu que a pandemia estava a reacender o debate sobre a necessidade desta especialidade.

“Acreditamos que devia existir uma especialidade no nosso país que ainda não existe. Em termos europeus esta especialidade está perfeitamente definida e contempla também a resposta em catástrofes”, disse à Lusa Nelson Pereira, médico de medicina interna, que em 2000 trabalhou em Moçambique, em 2003 no Irão e em 2016 na República Centro-Africana, entre outros cenários de catástrofe.

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