Fim de tarde. A chuva andou a cair a semana toda, mas agora só as folhas húmidas e o chão brilhante são dela indícios. O céu anda escuro, mas por esta altura, vai calmo. Os carros seguem apressados no trânsito parado que corre a desaguar na praça da Galiza.

Aqui, os muros são só os que dividem propriedades. É, aliás, essa a sua função: dividir, compartimentar, separar. Nessa hora de pouca chuva, plantámo-nos à beira de um, em frente a um portão — o de uma faculdade, no Porto.

Por ali passam jovens de diversas áreas, diversos interesses. Mas os que falam, convergem: um muro físico, desses de alvenaria ou outra engenharia, aí erguido no meio da vida, destrói tudo: os laços, as rotinas, o bem-estar. Deve, por isso, ser combatido.

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Mas há depois os outros muros, os que não têm matéria tangível, mas isolam do mesmo modo que os outros — e devem ser combatidos de igual forma.

Durante 28 anos, 161 quilómetros de betão e arame farpado separaram, não só geografias, como vidas, na Alemanha. A separação dos amigos ou familiares, o dia-a-dia condicionado por um muro, ou as restrições de um regime ditatorial provocaram efeitos negativos que, em muitos casos, ainda não sararam.

No dia 9 de novembro de 1989, porém, um acaso abriu as portas de um novo lugar: A queda do muro de Berlim, que faz este mês 30 anos, mudou a ordem mundial em vigor desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas aconteceu por acaso e graças a uma multidão de anónimos.

“Ninguém estava à espera que o muro de Berlim caísse naquele dia”, afirmou à Lusa o professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Miguel Monjardino, defendendo que o episódio que tanto marcou a História contemporânea chama a atenção “para o papel do acaso nos acontecimentos” e para “o papel das pessoas anónimas”.

No dia 9 de novembro, pelo início da noite em Berlim, o porta-voz do partido comunista da Alemanha de Leste, Günter Schabowski, passou no gabinete do dirigente Egon Kenz – que estava há pouco mais de um mês na liderança da RDA – para saber se havia novidades. Havia.

A “lei da mobilidade” visava abrir as portas da Alemanha de Leste ao Ocidente, mas de forma moderada e muito restrita, para que, segundo o analista político, a Alemanha ajudasse a Rússia, do ponto de vista financeiro e tecnológico, a modernizar-se.

“Egon Kenz dá-lhe duas folhas com as novas regras para os alemães de leste poderem vir à Europa, mas o Schabowski não sabia bem o que estava ali”, contou Miguel Monjardino, lembrando que a conferência de imprensa foi longa e cansativa e, mesmo no fim, um jornalista perguntou quando é que a lei da mobilidade entrava em vigor.

“Schabowski não sabia, mas como estava exausto e confuso, deu aquela célebre resposta: ‘imediatamente’”. Um acaso que o analista político considera ter sido o gatilho que mudou tudo.

“Imagine que o Schabowski não tinha passado no gabinete de Kenz naquela noite. O mais natural é que o muro de Berlim não tivesse caído nesse dia e, se calhar, nem na semana seguinte. Portanto, foi uma sucessão de acontecimentos perfeitamente surpreendente que precipitou as coisas”, defendeu.

Nesse dia, o muro caiu. “As pessoas aproximaram-se, os guardas não tinham instruções e, na dúvida, olhe, pronto, foi”, resumiu.

Foi a pior noite da minha vida”, disse Egon Krenz no ano passado, em entrevista à BBC. Atualmente com 83 anos, o ex-líder da RDA garante que entende o conceito de “celebração” criado pelo Ocidente, mas lembra que o episódio podia ter acabado muito mal.

“Num momento tão carregado de emoção como aquele, se alguém tivesse sido morto naquela noite, poderíamos ter sido engolidos por um conflito militar entre grandes potências”, referiu.

O facto de a queda do muro de Berlim, que dividia a cidade, o país, mas também a Europa e mesmo o mundo – ter acontecido de forma pacífica é também um ponto referido à Lusa por Patrícia Daehnhardt, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI). “Este elemento de transição de uma ordem internacional através de meios pacíficos, não bélicos, foi talvez aquele que representou a maior mudança”, defendeu.

Para esta especialista, a mudança não foi tão inesperada assim. Apesar da surpresa causada pela resposta de Günter Schabowski durante a conferência de imprensa de 9 de novembro, “em fins de junho, julho e agosto (…) já estávamos perante mudanças significativas na RDA, na Checoslováquia, na Hungria e na Polónia”.

“Acho que o verão de 1989 foi um verão quente no sentido de que em vários pontos da Europa de Leste as coisas estavam a ferver, as pessoas estavam a ir para a rua, estavam a reclamar para si o direito de autodeterminação”, considera a investigadora.

Para Patrícia Daehnhardt, a verdadeira surpresa “foi a forma como o processo político-diplomático para a unificação depois decorreu, porque, em menos de 12 meses deu-se a unificação efetiva de dois Estados até então divididos”.

A queda do muro de Berlim abriu “um ciclo extraordinário de concertação diplomática entre o Presidente dos EUA, George Bush (pai), Mickail Gorbatchov, secretário-geral do partido comunista da URSS, e Helmut Kohl, chanceler alemão”, reforçou Carlos Gaspar, membro da direção do IPRI.

Uma concertação que só foi possível “pelo facto de a URSS estar numa fase de retraimento e de reforma interna e de haver uma forte preponderância política, diplomática e mesmo militar dos EUA naquela conjuntura”, explica.

O país que já não existe

David Furkert nasceu em 1989, pouco depois da queda do muro, num “país que já não existe”. O carimbo, na certidão de nascimento, e o boletim de vacinas, no entanto, são desse lugar desaparecido.

“Toda a minha vida foi no Leste: o meu trabalho, família, amigos, as minhas atividades. Como a cidade esteve dividida, existia tudo a dobrar, universidades, salas de concertos, jardins zoológicos. Tudo o que havia no lado ocidental, também existia no lado oriental. Por isso nunca senti a divisão porque vivi sempre no meu ‘mundo oriental’”, conta o estudante de doutoramento à agência Lusa.

Karen Hoffmann, também de 1989, teve a “sorte” de nascer na República Democrática Alemã (RDA) uns meses antes da queda do muro de Berlim, caso contrário, os pais não teriam arriscado outro filho “devido à insegurança social, política e económica” que se viveu nessa altura.

“Quando era criança, não posso dizer que senti a divisão da minha cidade natal, talvez em parte porque Berlim é uma cidade muito grande. Mas claro que quando comecei a crescer, fui-me tornando mais consciente e aprendendo mais sobre o que aconteceu em 1989”, partilha.

Também Felix Specht, outro berlinense de 1989, de pouco se apercebeu quando era criança. Lembra que o colapso da União Soviética e da cortina de ferro também se deveu à bancarrota da RDA e essa falta de dinheiro deixou imagens difíceis de esquecer.

“As casas estavam em ruínas, as ruas destruídas”. Mas este alemão nascido pouco depois da abertura do muro, no lado ocidental, foi crescendo e vendo crescer o outro lado.

“A antiga RDA teve um desenvolvimento rápido. Berlim começou a ficar ‘trendy’ e velhas partes da cidade foram renovadas, tornando-se hoje muito chiques. Em algumas zonas só conseguimos notar que estamos no antigo leste por causa dos semáforos”, descreve à Lusa.

“Os meus pais contam-me muitas vezes como a vida na RDA era diferente, e como algumas coisas eram melhores. Por exemplo, ouço que naquela altura todas as pessoas tinham emprego, apesar de muitos trabalhos não serem realmente necessários. Depois da reunificação, o desemprego tornou-se um problema sério na parte oriental da Alemanha”, lamenta David Furkert.

“Esta realidade faz com que muitas pessoas comparem os dois cenários e sintam faltam do que tinham na RDA. Há até um conceito muito particular que descreve isso mesmo, chama-se 'ostalgie', uma mistura de 'Ost' ('leste') com 'nostalgia'”, explica. “Muitos elementos da minha família perderam os empregos depois do colapso da RDA”, confessa Karen Hoffmann.

“Isto não aconteceu apenas porque os órgãos oficiais do governo foram suspensos, mas também porque muitas empresas, que também pertenciam ao estado, fecharam e foram vendidas a proprietários privados”, revela, frisando o grande desafio que esses tempos constituíram para a família.

“Os meus pais ficaram bastante surpreendidos com a queda do muro, já que estavam nesse exato dia a mudar de apartamento comigo e com a minha irmã mais velha”, recorda. “A maior parte dos berlinenses tinha-se conformado com o facto de viver numa cidade muralhada onde era impossível circular livremente. No lado ocidental era como viver numa pequena ilha”, compara Felix Specht.

“De repente, a 9 de novembro, tudo isso tinha terminado. As pessoas não queriam acreditar que estava mesmo a acontecer. Ligaram a televisão e tiveram de ir pessoalmente ao muro para acreditar que ele estava realmente a abrir-se. Deve ter sido muito emocionante!”, exclama.

Atualmente “a Alemanha é um país, no que diz respeito à estrutura, burocracia e administração”, esclarece David, “no entanto, na cabeça de muitas pessoas, ainda existe uma divisão”. “Houve pessoas que tiveram muitas dificuldades com a queda do muro: perderam os empregos, a ideologia, os planos de futuro, e ainda estão a curar todas essas feridas. Principalmente os alemães de leste”, continua.

“Durante a RDA, as pessoas não questionavam o governo, havia apenas dois lados, ou eras contra ou a favor. Não existia meio termo nem cedências. Esta mentalidade dual ainda se mantém, o que não é bom. O processo de reunificação está completo, mas deixou cicatrizes. Não aconteceu há muito tempo e ainda conseguimos ver os efeitos nas gerações dos nosso pais e avós”, precisou David Furkert.

“Acho que ainda existe uma divisão socioeconómica na Alemanha que se manifesta no fortalecimento da extrema direita, especialmente na antiga RDA”, considera Karen Hoffmann.

Para Felix Specht a reunificação, tanto em Berlim como em grande parte do país, foi bem-sucedida. “Apenas uma minoria não está contente, Berlim é hoje uma só cidade e a Alemanha um só país”, conclui.

O muro invisível persiste

Três décadas após a queda do muro de Berlim, o contraste entre as metades leste e oeste da Alemanha vão-se apagando pouco a pouco. Todavia, nalguns aspetos a barreira ainda se nota: na economia, no emprego, na demografia — e na orientação política.

"A situação no leste é muito melhor do que a sua reputação", declarou no final de setembro o governo de Angela Merkel, quando apresentou um relatório anual sobre a unidade alemã. Apesar disso, há distinções a fazer: o PIB per capita das cinco regiões da antiga República Democrática Alemã só representava 74,7% do oeste da Alemanha em 2018.

A diferença tem vindo a diminuir — desde 2011 caiu 3,1 pontos percentuais —, graças a pequenas e médias empresas e ao dinamismo de Berlim, Leipzig e Dresden. Porém, o caminho é longo: nos anos 1990, o setor industrial da ex-RDA estava falido.

Junta-se a isto o facto de no lado oriental do país não haver grandes empresas como a Volkswagen, a Siemens ou a Bayer, cujas sedes estão no lado ocidental, onde empregam milhares de pessoas.

Os Länder da antiga RDA estão ainda atrás nos valores médios de salário: em 2018, um funcionário do oeste ganhava em média 3.339 euros brutos por mês, enquanto no leste eram 2.600 euros, segundo a agência federal para o emprego.

Desde 1991, a população do leste alemão passou de 14,6 para 12,6 milhões de habitantes, enquanto no oeste (incluindo Berlim), subiu de 65,3 para 69,6 milhões.

A emigração em massa para o oeste ou para o exterior de jovens adultos no início dos anos 1990 fez com que caísse a taxa de natalidade no leste, o que terá consequências durante várias décadas, segundo os especialistas.

O acolhimento de milhares de refugiados na Alemanha desde 2015 não bastou para inverter essa tendência, até porque a maioria deles escolheu ficar no oeste.

Apesar disso, o leste tem sido um reduto da extrema direita. Criado em 2013, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) conseguiu os melhores resultados no lado oriental do país, onde já tinha entre 20 e 30% dos votos, enquanto no oeste consegue, em média, cerca de 10%.

Em junho, uma frente comum de todos os partidos fez falta para impedir que o AfD conquistasse em Görltiz, a primeira cidade importante. O leste, onde os partidos tradicionais e a antiga esquerda comunista estão em queda, é também um celeiro para o movimento islamofóbico Pegida, que reuniu nos últimos anos milhares de manifestantes em Dresden.

Esta situação está relacionada, segundo os cientistas políticos, com o facto de muitos alemães do leste continuarem nutrindo o sentimento de serem "cidadãos de segunda classe”. Assim, 74% considera, segundo um estudo recente, que continuam a existir "diferenças muito grandes" entre as duas partes do país.

*Com Lusa e AFP

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