Diário de um pai em casa — Dia 17


Os decibéis musicais continuam cá por casa. Há uma razão. Confinado em casa com uma família numerosa, comecei a trabalhar de headphones. Só lá vai assim. Escuto e canto. Para a paz de espírito. De todos.

Se na passada 6ª feira chegou ao fim o 2º período das escolas, se ontem foi o último dia de fim de semana, hoje são as primeiras 24 horas de uma interrupção escolar que promete ser longa. Quão longa? Não sei. Nem eu, nem a “nova troika” liderada por António Costa, Graça Freitas e Marta Temido.

Hoje, 2ª feira, os meus filhos, como o resto de todos os outros filhos, estão de férias. Repito: férias. Um, dois, três, quatro filhos. Depois da experiência em lecionar, preparo-me para vestir o fato de animador dos tempos mortos. A propósito, não consigo ter muito tempo livre. Não combina com teletrabalho.

Depois de uma manhã produtiva, enquanto os menores de 16 anos dormiam, cheguei a temer que a tarde fosse como um carro numa autoestrada em sentido contrário. Antecipei o pior. Depois de “Everyday is like Sunday”, de Morrissey, esperava uma Manic Monday tendo por base o hit popularizado pela banda feminina americana (que não está nas minhas predileções musicais) “The Bangles”, mas cuja letra e composição pertence a um monstro da música mundial: Prince.

Não aconteceu. A explicação é mais simples do que a eventual dificuldade antevia. Enquanto trabalhava, ao som de Pearl Jam (do álbum "Ten" ao "MTV Unplugged" de 1992), a cada pergunta “pai, posso...”, disparava um “pode”, antes mesmo de ouvir, ou querer saber, o que queriam fazer ou fizeram. Talvez seja por isso. Ou então, começo-me a habituar.

Embalado, ao som de Seattle, comecei a pensar em coelhos. Tido com símbolo da esperança na renovação da vida, é o primeiro animal a sair da toca, na chegada da primavera. E também está ligado à Páscoa. Por isso, chegados a esta altura, para além de ter que de redescobrir locais para esconder o bicho, vou ter, durante os próximos dias, que tirar algo da cartola, para alimentar os destinatários e sossegar o ideólogo.

Hoje foi o aniversário de uma amiga da família que tem a feliz coincidência de ser vizinha do prédio em frente. Olhos nos olhos, do 3º andar, viemos todos à janela, dar os parabéns. Do lado de lá, a uns bons 10 metros de distanciamento social, com os três filhos, recebeu-nos de sorriso aberto ao cartaz que o meu filho mais novo, António, empunhava, com a palavra: parabéns.

Amanhã, a minha mãe faz anos. No dia seguinte, 1 de abril, será a vez da minha sogra. Vou cantar os parabéns a ambas. Talvez à janela, ou muito provavelmente, por telefone. Estranhos dias.

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