“Nunca a pedi [a pasta da Coesão e Reformas], nunca a quis e não percebo porque é que o atual Governo a pretendeu. Nós somos grandes beneficiários de fundos estruturais, talvez esta explicação seja simples, e, portanto, a última coisa que interessa a um país que é um grande beneficiário dos fundos é ficar com a responsabilidade dos fundos a não ser para fazer propaganda pelo país. Isso não serve para mais nada”, afirmou Pedro Passos Coelho.

O também antigo primeiro-ministro acrescentou que o seu Governo tinha “interesse em tudo”, menos na pasta responsável pela gestão dos fundos comunitários.

Maria Luís Albuquerque “esteve para ser nomeada” comissária europeia entre 2014 e 2019.

Pedro Passos Coelho discursava, em Lisboa, no lançamento do livro “Vento Suão: Portugal e a Europa”, do ex-comissário europeu da Investigação, Ciência e Inovação Carlos Moedas, onde revelou que a ex-ministra das Finanças do seu executivo, Maria Luís Albuquerque, “esteve para ser nomeada” comissária europeia entre 2014 e 2019.

“A questão era complexa, mas é verdade que eu a aceitei equacionar. E chegou a haver algumas conversas” com o antigo presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, prosseguiu o ex-líder social-democrata, vincando que “o lugar que estava proposto não era nada um lugar irrelevante” e veio a ser “ocupado por Valdis Dombrovskis, que era responsável por todo o Semestre Europeu [ciclo de coordenação das políticas económicas e orçamentais na União Europeia]”.

O ex-primeiro-ministro referiu que Maria Luís Albuquerque não rumou a Bruxelas devido à “situação que, na altura, se estava a viver” no Banco Espírito Santo (BES) e que inspirava “a maior das preocupações”.

“Sucede que estávamos numa semana crítica para saber se o BES podia sobreviver ou não podia sobreviver. Eu tinha de comunicar o nome ao presidente indigitado da Comissão Europeia até uma sexta-feira”, referiu Passos Coelho, explicando que não indicou Maria Luís Albuquerque porque não sabia o que iria “acontecer com o sistema financeiro português” e não podia “ter no mesmo dia um problema sério num dos maiores bancos portugueses e a ministra das Finanças a ir para Bruxelas”.

O ex-presidente do PSD acrescentou que Maria Luís Albuquerque “não tinha pedido” para ser comissária europeia e que a hipótese resultou de “uma insistência” de Jean-Claude Juncker.

Nomeação de Carlos Moedas. Passos diz que Costa mudou de opinião

O ex-primeiro-ministro criticou também o contraste entre a avaliação política feita pelo atual executivo liderado pelo socialista António Costa ao desempenho de Carlos Moedas como comissário europeu e as críticas feitas, em 2014, à sua nomeação na altura em que António Costa era candidato a secretário-geral do PS.

“O atual Governo faz uma avaliação muito positiva do mandato que Carlos Moedas fez [enquanto comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação] e, de resto, disse-o publicamente e até o chamou a São Bento [à residência oficial do primeiro-ministro] para fazer uma bonita cerimónia de passagem de pasta. O Governo passa a pasta em Bruxelas aqui em Lisboa”, ironizou o antigo líder social-democrata Pedro Passos Coelho.

“Foram escolher para comissário [europeu] alguém que é o mais ortodoxo dos ortodoxos que podia ser designado para comissário. Não sei se ainda se lembram do ministro [Vítor] Gaspar (antigo ministro das Finanças). Mas se achavam que o ministro Gaspar era um ortodoxo, então esperem para ver o que é o comissário Carlos Moedas, esse, sim, é o ortodoxo dos ortodoxos”, vincou, em setembro de 2014, António Costa.

Hoje, Pedro Passos Coelho atribuiu as declarações do atual primeiro-ministro “ao clima que se vivia no PS, que era de disputa interna”, lembrando também as críticas do então líder socialista, António José Seguro.

“O líder do principal partido da oposição, na altura, que era o PS, fez uma reação bastante pesada. Procurou diminuir a nomeação, disse que tinha sido negativamente surpreendido com a escolha que o Governo [PSD/CDS-PP] tinha feito. Catalogou-a como uma escolha, sobretudo, de natureza partidária”, afirmou o também antigo primeiro-ministro.

Passos Coelho reconheceu que atualmente as críticas feitas a Moedas “estarão deslocadas e quem as fez pensará de outra maneira” e enfatizou o “contraste repleto” entre a postura do PS, em 2014, e a posição tomada recentemente pelo PSD quando Elisa Ferreira foi indicada pelo Governo para comissária europeia portuguesa.

“Recordo-me bem do PSD (…). Sem necessariamente fazer a promoção da candidatura, na verdade endossou-a, endossou palavras de simpatia, realçando as características pessoais que eram relevantes e que habilitavam a comissária”, assinalou Passos Coelho, acrescentando que, “quando se trata de fazer escolhas desta natureza”, deve-se, “realmente, pesar um bocadinho melhor” o que é dito e “pensar que as coisas não se esgotam naquela altura”.

Durante a apresentação do livro, Carlos Moedas, que é atualmente administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, referiu que uma das missões do seu mandato na Comissão Europeia foi fazer com que “as pessoas olhassem” para Portugal e considerassem que era “um país de ciência e tecnologia”.

Na iniciativa estiveram, entre outras figuras políticas, a ex-líder do CDS-PP Assunção Cristas, os antigos presidentes da bancada parlamentar social-democrata Hugo Soares, Luís Montenegro e Fernando Negrão, o fundador do PSD Francisco Pinto Balsemão, o vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, Miguel Pinto Luz, e o presidente da Câmara de Sintra, Basílio Horta.

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