Na opinião de Pedro Almeida, investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC), “é preciso ir muito além” do que o campo punitivo sobre ações que envolvam violência racista, como o que aconteceu com o maliano Marega (FC Porto), na visita de domingo ao estádio do Vitória de Guimarães, em que abandonou o campo depois de insultos dessa índole.

“Há um outro campo que não é o punitivo. Não é que não considere que não deva ser punido, mas é um ponto de partida e não um ponto de chegada. Parece que se resolve tudo com medidas de erradicação, e eu creio que envolve uma discussão muito mais alargada, no futebol, no desporto em geral, e no resto da sociedade”, explicou.

Assim, um outro caminho “passa pela educação”, mas não “no campo moral”, porque “não basta dizer ‘não ao racismo’”.

“Seria promover, dentro e fora do contexto de futebol, ações de formação, por exemplo, que mostrem como esta ideia de inferioridade e superioridade, a construção do ser branco, negro, ou de outras etnias, é uma construção intelectual. E, assim, também pode ser desconstruída”, atirou.

Para o autor de uma tese sobre futebol e a questão de raça em Portugal, desenvolvida entre 2012 e 2019, o contexto do futebol “tem um alcance limitado”, uma vez que é na sociedade portuguesa que se devem produzir trabalho, até porque “é algo a longo prazo”.

“Não é agora que se vai mudar um quadro ideológico, a forma como o colonialismo português é pensado na nossa sociedade. Há muito trabalho a fazer"

“Não é agora que se vai mudar um quadro ideológico, a forma como o colonialismo português é pensado na nossa sociedade. Há muito trabalho a fazer, de desconstrução e de percebermos que [a questão da raça] é uma construção histórica”, apontou.

O antropólogo aponta ainda para “a figura do atleta negro”, muitas vezes descrito como “fisicamente poderoso, rápido e explosivo, mas pouco inteligente”, um exemplo de “herança colonial” que viu reproduzida, por exemplo, pelos ‘media’ aquando do Mundial2010, na África do Sul.

Uma “ilusão” de um “colonialismo benevolente” e um contexto social e político favorável, diz, permite que os portugueses não percebam “que isto [o racismo] é um produto histórico e está altamente enraizado na sociedade portuguesa”.

Numa questão que “ultrapassa largamente o Vitória de Guimarães”, o racismo é problematizado de uma forma que, na opinião do antropólogo, “parte de um pressuposto errado de que é uma questão meramente moral” e da consciência de cada um.

Antes, refletiu, “obedece a um quadro ideológico mais geral”, que advém do passado colonial português e que leva a que pessoas de raça negra “não sejam entendidos como parte integrante da nação”, obedecendo a “um certo critério de exceções, da qual Eusébio é um exemplo”.

Outra ‘tentação’, alerta, é “achar que é só uma tentativa de desestabilizar o adversário”, como ouviu “nos discursos de alguns atores de futebol, de jornalistas a dirigentes, jogadores ou adeptos”, mas antes “uma desumanização”.

Há na sociedade um racismo “muito mais enraizado do que nós, enquanto portugueses, acreditamos ou queremos acreditar”, defendeu, e o futebol, pela “representatividade que tem junto da cultura popular, ocupa um papel de destaque e catalisa certos sentimentos, práticas e discursos” racistas.

O avançado do FC Porto recusou-se a permanecer em jogo e abandonou o campo, ao minuto 71, após ter sido alvo de insultos racistas por parte dos adeptos do clube vimaranense, numa altura em que os ‘dragões’ venciam por 2-1 - anotou o segundo golo -, resultado com que terminou o encontro da 21.ª jornada da liga, no domingo.

O Ministério Público instaurou um inquérito na sequência deste incidente, que já mereceu a condenação do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do primeiro-ministro, António Costa, entre outros.

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