Diário de um pai em casa. Dia 23


Domingo chuvoso. Despertar tardio para quem tem menos de 15 anos. Para quem tem mais, começou muito antes. Uma churrasqueira resolveu as dúvidas existenciais sobre o que será colocado à mesa e poupa o corpo de uma semana a tirar coelhos da cartola. A propósito, ontem, ao fim de já não sei quantos dias em Estado de Emergência, abrimos uma lata de atum, tamanho familiar. O tal prato que tem mais nobreza do que aparentemente está à vista, mais que é mais usado, quase sempre, como necessidade de força maior. Os croquetes que transitaram da véspera deram colorido ao lanche que apareceu em forma de jantar. Estavam divinais. Repetimos a dose, que não passou de meia. Tudo abrilhantado com o bolo de chocolate, feito em casa, com os morangos e chantili. Uma verdadeira cereja em cima da sobremesa, para terminar em beleza.

O que se faz num dia de chuva fechado em casa? Poderíamos cair da tendência de galopar de refeição em refeição. Mas o espírito não é esse. A gastronomia, embora de excelência, não passou, de uma nota de rodapé. A imaginação trouxe para primeiro plano outra atividade. Que envolveu todos e não só alguns. Os mesmos de sempre.

Decidimos fazer aquilo que gostamos. Ou pelo menos, parte de nós gosta e assim o decidiu. Campo definido, alguns jogadores equipados, uma bola a andar de mão em mão e, sem pejo, ensaiámos umas jogadas de râguebi. Debaixo do nosso teto. Como se estivéssemos na relva, à chuva, a deslizar a cara e o corpo na lama.

Metade da nossa casa gosta de râguebi. Eu e os meus dois filhos rapazes, o José Maria, 15 anos, e o António, de 6. A outra não percebe a dinâmica, mas compreende o quão apaixonante o jogo é. Uns, mais do que outros, sabem que é muito mais do que uma modalidade desportiva. Tem um alcance que serve para a vida presente e futura.

Uma ressalva. A minha filha, a Teresinha, 11, descreve que é um jogo em que os jogadores se atiram para cima uns dos outros e no fim, quem perde e quem ganha, abraçam-se todos uns aos outros. Para quem não percebe a ressalva, recue, por favor, para a última frase do parágrafo anterior. A Francisca, 13, limita-se a sorrir quando lhe digo que vou ver um jogo. A minha mulher, a Zezinha, de regras diz perceber zero, mas dos valores, conhece-os de trás para a frente.

Convencer o agregado familiar foi tarefa fácil. Fizemos da nossa casa, a rua. A cada um foi atribuído um papel. A cinco, concordámos qual o que seria reservado a quem tem menos idade. Um desempenho que lhe assenta que nem uma luva.

Filmámos. Uma só jogada. Em família. Para memória futura desta quarentena. Um ensaio de laboratório no local de confinamento. No final, somámos as peças soltas de cada um de nós e dos fragmentos resultou meia dúzia de segundos para a eternidade.

Um aviso: tentem isto em casa. Mesmo. Façam-no. Sem hesitações.

Atirem-se para cima dos sofás e das camas. Coloquem os pés em cima de cómodas, utilizem almofadas, desviem-se de obstáculos estrategicamente colocados.

Não tenham receio de quedas e de empurrões. Nem tão pouco de pôr as mãos nas paredes. A seguir, lavem. Mãos e paredes.

Serpenteiem entre divisões, desviem-se dos obstáculos, reais e imaginários, calcorreiem pelos corredores e abram as portas dos quartos à procura de uma saída.

Coloquem a bola nos céus. Lá no alto alguém a apanhará. Passem a bola para trás, para outro dar passos para a frente.

Apoiem-se uns aos outros. Se alguém cair, ajude-o a levantar-se. Não desistam.

Corram, corram e corram. Quando se aproximarem da linha (imaginária) de ensaio, deslizem. Mergulhem. Como estivessem no campo. E celebrem, todos juntos.

Atenção: Não me responsabilizo por eventuais candeeiros partidos ou outro mobiliário. Há momentos que valem mais do que qualquer peça de decoração.

Argumento: Miguel Morgado

Realização: Zezinha Morgado

Luz: Natural

Atores: Miguel Morgado, José Maria, Francisca, Teresinha e António (Totti)

Guarda Roupa: José Maria e António Morgado vestidos por Grupo Desportivo Direito. Miguel Morgado, Francisca e Teresinha, vestidos com a roupa que tinham à mão.

Dedicatória

Dedico este "filme" a uma modalidade: râguebi. Aos meus filhos. Que jogam. A todos os atletas do escalão sub-10 (Grupo Desportivo Direito) e à equipa de treinadores da qual faço parte. Ao Escalão Família (pais de atletas) do Direito e a todos os jogadores, treinadores e dirigentes de todos os clubes – Direito, Agronomia, CDUL, Belenenses, Técnico, Cascais, Benfica, CDUP, Académica, Lousã, CRAV, Sporting, São Miguel, Jaguares, Montemor, entre muitos outros, bem como à Federação Portuguesa de Râguebi, no seu todo, seleções, jogadores, treinadores e dirigentes e funcionários. À Associação Rugby Com Partilha que promove a prática da modalidade nos estabelecimentos prisionais, associação da qual sou membro e voluntário. E, por fim, ao meu amigo Nuno Peixoto, treinador no escalão sub-8 e pai de três filhos, todos jogadores, no Direito. Festejou 50 anos hoje. A jogar râguebi, em família. Em casa. E seguramente acompanhado de outra riqueza gastronómica.

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