"Ser professor não é trendy". A muitos alunos basta olhar para a cara do professor para saber o que não querem ser. A profissão perdeu charme e prestígio. E dignidade também. Nisto, Isabel Le Guê, professora há 38 anos e diretora do Rainha D. Amélia durante 14, e Margarida Gaspar de Matos, psicóloga clínica e da saúde, estão de acordo.

"O Ministério da Educação fala de líderes nas escolas, mas a verdade é que prefere dirigentes que sejam obedientes relativamente à tutela" e que implementem as diretivas sem dar maçadas de maior. "Há, e não é de agora, uma grande contradição no discurso político", diz Isabel Le Guê. Por um lado "passam a mão pelo pelo" aos professores, por outro "tiram-lhes o tapete".

Um dos problemas é que "cada ministro quis deixar a sua marca, mas fê-lo com coisas de somenos importância, nunca foi ao fundo da questão". E recorda como há muito acenam com a "cenoura" da autonomia das escolas, que acaba por ser um logro. Para a professora, "um avanço a sério seria poderem ser os diretores a escolher o seu corpo docente", por exemplo. "Mas aí está um tabu".

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No tempo do culto da juventude, "em que as mães se vestem como as filhas", os professores estão "velhos" e "cansados", e muitos "saem do ensino diretamente para um lar". Esta é uma caricatura, mas não está longe da realidade. Hoje, no ensino, não há troca de saberes: a mais-valia da experiência e o ímpeto da juventude.

Margarida Gaspar de Matos lembra os resultados aflitivos do último estudo sobre a saúde psicológica dos professores e dos alunos: "Um terço dos alunos está de algum modo perturbado e metade dos professores" também. Sem diferença entre regiões.

A culpa é de todos, a começar no Ministério da Educação, que foi relapso e, apesar de todos os sinais, deixou andar: salários baixos, currículos desatualizados, burocracia ilimitada, perda de autoridade, más condições de trabalho.

Há mais professores no Norte do país e faltam nos distritos de Lisboa e de Faro. A deslocação de docentes implica pagar rendas, já não de uma casa, mas do aluguer de um quarto, nem sempre digno, porque os preços são incomportáveis. "É preciso lembrar que um professor em princípio de carreira ganha mil euros líquidos", explica Isabel Le Guê.

E "não dá para tirar professores da cartola". "O senhor ministro, ao contrário do anterior, vem da Educação, mas a solução que encontrou não é a melhor. Não torna a carreira mais atrativa nem dignifica a profissão", diz a docente.

Ir buscar licenciados não profissionalizados para dar aulas é um "paliativo". "Não resolve nada e traz para a escola pessoas que não quiseram ser professores e não sabem ser professores. E vamos ter mais professores de História a ler capítulos de livros" uma aula inteira, garante.

A história do professor que lê capítulos do livro durante as aulas é contada por Margarida Gaspar de Matos, que prefere acreditar no exagero de expressão comum aos adolescentes a pensar que isto acontece de facto. Mas é mesmo assim.

"Podíamos ouvir os jovens em vez de nos sentarmos no pedestal e acharmos que o que têm para dizer não tem interesse nenhum. Não precisava de ser este massacre", diz a psicóloga clínica. "Embora a escola não exista para divertir os alunos, não fazia mal nenhum que fosse uma coisa interessante".

Por isso insiste em dizer que "os currículos têm de mudar" e "é fundamental trabalhar os conteúdos e a maneira como as aulas são administradas". Isabel Le Gué corrobora: "Horroriza-me pensar que as escolas, tal como estão concebidas, matam esse entusiasmo e essa sede de conhecer coisas novas".

Esta é uma conversa com espaço para muito mais, e poderá ainda ouvir, por exemplo, Margarida Gaspar de Matos defender que a retenção não funciona, "pelo contrário", ou Isabel Le Guê denunciar a ameaça que as escolas enfrentam de não verem devolvidos pelo Ministério das Finanças os saldos acumulados de vários anos de boa gestão, como acontece no caso da Escola Secundária Rainha D. Amélia.

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