“Os chineses que procuram Portugal para fazer turismo são os reformados e o número de reformados na China está neste momento a aumentar muito”, diz o líder da comunidade chinesa em Portugal, referindo que o investimento chinês em Portugal começa agora a diversificar-se, tendo durante muitos anos ficado centrado em investimento de grande dimensão.

Agora, considera Y Ping, também as pequenas e médias empresas começam a olhar com interesse para Portugal, em particular no setor dos serviços, onde o turismo é uma área preferencial, com a classe média chinesa, que agora começa a ter acesso a pensões de reforma, a constituir um nicho de mercado com muito potencial.

Os números oficiais referem este aumento de procura, tal como referem que os chineses são os turistas que mais divisas gastam quando se encontram em Portugal.

Mas o líder da comunidade chinesa em Portugal refere que falta agora convencer esses turistas a passar mais tempo neste país.

“Os turistas que nos visitam ficam apenas dois ou três dias. Geralmente, vêm à Península Ibérica num modelo de sete dias e ficam cinco dias em Espanha e dois em Portugal. É preciso encontrar pacotes turísticos que levem esses turistas a passar mais tempo no nosso país”, conclui Y Ping Chow que diz procurar sensibilizar as agências de viagens para esta preocupação.

Sob o signo do comércio

O turismo afirma-se como uma área de potencial, mas não é a única. Para Y Ping, há ainda muito caminho para percorrer, no que diz respeito à atração de investimento chinês em Portugal, apesar das apostas que grandes empresas chinesas têm feito em setores como a banca ou a energia.

O líder da comunidade chinesa em Portugal sugeriu na entrevista a criação de uma câmara de comércio como uma alavanca importante, sobretudo para atrair o investimento de pequenas e médias empresas chinesas (que serão sempre grandes empresas à dimensão europeia) que olham não apenas para o território português, mas também para a capacidade de influência que Portugal tem nos países africanos de língua portuguesa.

Y Ping Chow explica que é fácil estabelecer essa câmara de comércio em Portugal e que até já falou com o embaixador chinês em Lisboa, que se mostrou muito recetivo à ideia.

Mas Y Ping Chow realça sobretudo o interesse na capacidade de influência das empresas portuguesas na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

“Portugal é uma porta da entrada para África. Portugal é importante, mas a CPLP é ainda mais importante”, confessa.

Y Ping refere a recente visita do Presidente da China, Xi Jinping, a Lisboa, como um momento importante que ajudou a criar condições para esta nova etapa de relações.

“Com os muitos protocolos que foram assinados nessa visita, acredito que não faltarão empresas chinesas interessadas em apostar em Portugal e nos países de língua portuguesa”, disse o empresário chinês.

Esta câmara de comércio pode ainda também levar as empresas portuguesas a procura a China como mercado de investimento, embora reconheça que esse cenário é sempre mais difícil.

A maior dificuldade poderá estar em encontrar interlocutores na China, para essa organização, já que implica a sensibilização de um conjunto de empresas que pode ter menos sensibilidade para a relevância desse investimento.

“Mas já falei também com o embaixador português em Pequim e fiquei com a ideia de que este projeto é viável e útil”, afirmou Y Ping.

“Há o interesse de muitas empresas estatais chinesas para esta câmara de comércio, principalmente as de infraestruturas e de construção”, disse o líder da comunidade chinesa, considerando ser "um sinal da amizade entre Portugal e a China”.

Apesar de haver uma guerra comercial em curso entre a China e os EUA, Y Ping considera que esta pode afirmar-se como uma janela de oportunidade para a Europa encontrar novas rotas de comércio com os chineses. “A Europa não pode é ir atrás dos EUA, nesta guerra”, considera o líder da comunidade chinesa em Portugal.

“Eu penso que esse conflito comercial não afetará Portugal, até porque os EUA parecem estar a querer abandonar a Europa”, disse Y Ping, referindo que estão a criar-se boas condições para novos e mais profundos entendimentos comerciais.

“Os portugueses aceitam bem o investimento chinês e os chineses sentem-se bem em Portugal”, afirmou o empresário que pertence à terceira geração de chineses em Portugal e que está na região norte do país desde o início dos anos 60.

Contudo, apesar dessa boa relação, a comunidade chinesa em Portugal continua a crescer, mas de forma menos visível do que acontecia há alguns anos.

O empresário diz que o programa Vistos Gold pode ser melhor aproveitado para renovar a comunidade chinesa, sobretudo se for capaz de atrair empresários com bons contactos na China, mencionando um fenómeno em crescendo que era pouco usual: os empresários chineses em Portugal que começam a investir na China.

“O crescimento económico da China levou alguns empresários chineses a fazer mais investimento na China do que no país para onde tinham vindo”, disse o líder da comunidade chinesa em Portugal.

O empresário diz ainda que há países europeus com vistos temporários que acabam por ser mais atraentes para os empresários que, muitas vezes, não querem vir viver para a Europa, mas apenas ser capazes de entrar e sair para fazer negócio.

Para Y Ping Chow, o ensino e a divulgação da língua chinesa em Portugal podem dar um contributo relevante para tornar a China um país mais relevante para os portugueses.

“Não podemos esquecer que, dentro de alguns anos, a China será a maior potência mundial e aprender chinês será tão importante como aprender inglês”, disse o empresário.

Por outro lado, diz Y Ping, o facto de os chineses em Portugal estarem cada vez mais a aprender português é igualmente um fator para uma maior abertura da comunidade, bem como para um melhor entendimento entre os dois povos.

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