Em entrevista conjunta à Lusa e ao Expresso, João Lourenço responde às alegações dos familiares de algumas daquelas vítimas de que os restos mortais que lhes foram entregues não correspondem às pessoas indicadas, depois das análises de ADN: “É um trabalho de muita paciência, de muito rigor, a única garantia que nós damos é que nós, as autoridades do país, submetemo-nos às conclusões do exame científico que os especialistas fizerem”.

Em causa estão os restos mortais, entre outros, dos dirigentes José Van-Dúnem, Sita Valles e Rui Coelho, detidos e mortos durante a alegada tentativa de golpe de Estado de 27 de maio de 1977.

Rui Coelho era chefe de gabinete do então primeiro-ministro, Lopo do Nascimento, Sita Valles já tinha sido afastada do MPLA e estava a trabalhar num hospital como médica e José Van-Dúnem era comissário político, embora dias antes tivesse sido expulso do Comité Central, juntamente com Nito Alves, o mais proeminente elemento do grupo.

Os seus familiares foram notificados no ano passado do local onde supostamente se encontravam as suas ossadas, mas um exame forense realizado entretanto em Portugal acabou por constatar que o ADN dos familiares não coincidia com o dos restos mortais.

O facto levantou suspeitas sobre as intenções do Governo angolano, mas João Lourenço alega que a realização desses exames serve exatamente para confirmar ou não as identidades supostas.

“Haverá com certeza casos em que se pensa que determinados restos mortais são da família A e da família B e o exame vir a concluir que não, o que é uma coisa absolutamente normal”, afirma.

Mas, “o que não se pode à partida é vir a público dizer que houve a intenção deliberada do Governo enganar a A ou a B. Eu sei de que caso se está a referir, acho que não é justo o que se está a fazer com Angola”, responde o chefe de Estado.

João Lourenço também nega que o seu Governo tenha recebido alguma acusação formal relativa a este assunto. Mas, se tal acontecer, “não temos nada a esconder”.

“Os especialistas são a autoridade competente para dizer que esses restos mortais coincidem com os da família A ou com a família B e são livres de exprimir as conclusões do seu trabalho. É ou não é. No caso, disseram que não é, tudo bem, não é. Vamos continuar à procura. Pode ser que se venham a encontrar os verdadeiros restos mortais”, assegura.

E conclui: “portanto, nós nunca vamos contra os resultados dos especialistas" e "insistir que é mesmo esta" a vítima. "Não, se os especialistas disserem que não é, não é. Foi esta atitude que nós tomámos até à presente data”.

Em março, uma associação que representa os órfãos do 27 de maio acusou, numa carta aberta, o governo de se ter aproveitado da entrega dos restos mortais para fazer campanha.

Numa “carta a Angola”, os órfãos denunciam a “máquina de propaganda” do Governo angolano e da CIVICOP - Comissão de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos, ao realizar cerimónias fúnebres e entregar corpos “em cerimónias públicas amplamente televisionadas, em véspera de eleições presidenciais”, que descrevem agora como “um exercício de crueldade”.

“O país viu. Todo o país viu e viveu esse momento como um tempo de verdade e reconciliação. Porém, nem todos recebemos acriticamente os restos mortais que nos foram indicados como pertencentes aos nossos pais. Alguns de nós pediram a realização de testes de ADN para confirmar a identidade dos cadáveres”, explicam no documento.

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