A África do Sul e os portugueses de cá estavam nas atenções de Portugal. A expectativa era elevada.

Mas em meados de Março sobreveio o COVID-19 e tudo teve que ser suspenso. Portugal declarou o estado de alerta a 13 de Março e o estado de emergência a 18 de Março. A África do Sul declarou a 15 de Março o “State of National Disaster” e entrou em “Lockdown” em 27 de Março.

E tudo teve que ser suspenso.

Não foi um abandono ou uma desistência, foi e é uma decepção, verdadeiramente uma impossibilidade de fazer a celebração que todos queríamos: as altas autoridades em Portugal, a nossa comunidade, as autoridades sul-africanas, esta Embaixada e toda a estrutura diplomática, consular, comercial e de ensino que aqui temos.

As palavras retiradas da carta de Manuel Carvalho, embaixador de Portugal na África do Sul, à comunidade portuguesa são elucidativas. O país que é o início e o fim do continente africano tem saudades de Portugal e este ano, preparado como já é tradição há mais de meio século, para o abraçar, viu a saudade escorregar-lhe antes sequer de chegar aos braços daquela que é uma das maiores comunidades da diáspora portuguesa, um facto demasiadas vezes esquecido.

“Depois da descolonização tivemos na África do Sul para cima de 500 mil portugueses”, diz-nos António José Contente, empresário e presidente da União Portuguesa, o clube português mais antigo do país.

O próprio fez parte desse meio milhão de portugueses que ali encontrou uma casa depois do processo que ocorreu após o 25 de Abril. Nasceu em Portugal, no baixo Alentejo, numa aldeia perto de Odemira, chamada São Martinho das Amoreiras. Foi para Moçambique, ainda miúdo, “com cinco ou seis anos de idade”, antes de chegar a África do Sul. Vive em Joanesburgo há mais de 40 anos e é uma das figuras mais envolvidas na comunidade.

“Aprendemos às nossas custas. Somos pessoas que vieram de Angola, de Moçambique, outros já cá estavam, vindos da ilha da Madeira, a nossa comunidade madeirense, muitos tinham vindo para a construção. Somos unidos, criámos essas raízes e acho que somos mais portugueses do que os portugueses em Portugal”, ri-se. “É uma maneira de dizer, somos amigos uns dos outros, celebramos os dias, expandimos a nossa língua, somos vaidosos quando a nossa equipa portuguesa defronta lá fora outras cores, temos brio e temos prazer em sermos campeões da Europa, somos orgulhosos de sermos portugueses”.

Ao SAPO24 lamenta que “este ano, que tínhamos aqui um caso único do nosso presidente se lembrar que os portugueses também existiam na África do Sul, tenha acontecido o coronavírus”.

As celebrações do Dia de Portugal, Camões e das Comunidades que iriam acontecer na Madeira e depois neste país, onde iria marcar presença não só Marcelo Rebelo de Sousa como também o primeiro-ministro António Costa e o presidente do governo regional da Madeira, Miguel Albuquerque, foram canceladas devido à pandemia provocada pela Covid-19. O Presidente da República prometeu que as celebrações que não aconteceram este ano iriam ocorrer em 2021, caso fosse reeleito, e que, caso não fosse, que iria deixar esta agenda como sugestão ao seu sucessor.

No fosso que fica entre o desejado encontro entre a comunidade e o país que poderá ser colmatado daqui a um ano - ou não - sobrevive um outro vírus, o do esquecimento.

10 de Junho. “Um festa cigana” bem portuguesa, com certeza

Michael Gillbee nasceu na África do Sul, país onde viveu até aos sete anos, antes de vir para Portugal. Por cá estudou, licenciou-se e trabalhou até 2012, ano em que ficou desempregado. O regresso a África, onde o mercado de trabalho era maior, afigurou-se como a solução mais viável no ano seguinte.

Chegado à terra que o viu nascer, ingressou nos quadros do jornal a Voz Portuguesa e depois saltou para O Século de Joanesburgo. A comunidade portuguesa é a sua casa e o seu objeto de trabalho, é sobre e para ela que escreve.

Conta-nos que o 10 de Junho “é tipo um casamento cigano” que dura de sete a 15 dias, que é comemorado pelas várias associações portuguesas no país, e que esta é a primeira vez em décadas que não se celebrará o Dia de Portugal, Camões e das Comunidades.

“As celebrações do 10 de Junho na África do Sul começaram há mais de 50 anos com a fundação da Academia mãe do Bacalhau, que é a Academia do Bacalhau de Joanesburgo, que aconteceu a 10 de junho de 1958. Portanto, a academia, que é uma tertúlia de portugueses que se juntam à volta de um copo de vinho tinto e de um prato de bacalhau e em que parte dos fundos do almoço revertem para sociedades de beneficência, para ajudar os mais desfavorecidos, é o ponto de início”, explica-nos.

José Contente, que presidiu durante quatro anos à Academia, explica que a ideia da fundação foi “para ajudar os que menos podem, para colaborar com aqueles que têm mais dificuldades e para nos podermos juntar e falar a nossa língua. Há 50 anos não havia as facilidades que há hoje. Era tudo através dos jornais, portanto era a maneira de nos juntarmos e saber o que se estava a passar pelo país”.

Como a fundação da Academia passou a bater com o Dia de Portugal, a celebração tornou-se ainda maior e passou a culminar, a 10 de Junho, com um jantar de gala “com um máximo de 500 compadres e comadres” em que “os fundos revertidos são sempre para fundos de solidariedade”.

Este é o epicentro das celebrações, onde são atribuídas as medalhas de mérito do dia 10 de Junho aos jovens que se destacam na sociedade portuguesa, em que discursa o cônsul e o embaixador e em que a gastronomia portuguesa é também cabeça de cartaz.

“Para não haver colisão de datas e para que se possa participar em todas as festividades, as comemorações começam antes e em cada dia vai havendo um evento diferente. Por exemplo, no dia 10 há a receção oficial na embaixada em Pretória em que são convidados um certo número de pessoas, principalmente o corpo diplomático estrangeiro. Dali vai tudo para a associação de portugueses em Pretória onde há um grande jantar de gala, no dia seguinte há, por exemplo, uma receção aqui no consulado em Joanesburgo ou na casa do cônsul, o arraial do LusoÁfrica costuma ser no fim de semana a seguir ao 10 de junho. Todas as igrejas portuguesas rezam missas, fazem procissões e há arraias também. É a evidência da nossa cultura, a gastronomia, a religião, são os valores familiares e é o orgulho de ser português estendidos por vários dias”, conta Michael.

O vírus da distância

Joaquim Melo, presidente do Lusoclube, ouve Portugal do lado de cá do telefone e reage imediatamente. “Portugal? Adoro. Só há um país maior do que aquele onde nasci, é Portugal. Se algum dia tiver de sair daqui é para Portugal, a nossa terra”, diz com um sorriso na voz.

“Nasci na África do Sul. Nasci aqui em 68, fui para Portugal com os meus pais em 76 e regressei em 79. Eu tenho uma irmã em Portugal, somos da Vila da Feira, Espinho, o meu pai tanto está aqui como está lá, gosto muito de ir a Portugal”, sublinha.

Melo é responsável pela organização do grande arraial, um dos momentos mais esperados dos dias em que se celebra Portugal. “Convidamos os outros clubes todos, associações, federações, fazemos um arraial, temos um palco, convidamos cantores portugueses, os ranchos todos que há aqui pelos arredores. Temos as farturas que os nossos escuteiros fazem, depois é comer e beber, tudo à português”, explica.

A festa este ano dá lugar ao desalento. A pandemia levou a que África do Sul instaura-se um lockdown agressivo a 26 de março levando ao encerramento destes espaços e à impossibilidade de organizar todos os eventos. “Os clubes precisam disto para sobreviver”, suspira Michael. É ele que nos dá uma visão geral de um país que enfrenta uma doença que ainda não chegou à comunidade portuguesa - “que eu saiba não há óbitos ou infetados entre nós”.

“O lockdown na África do Sul começou no nível 5 em que só se podia sair de casa para ir ao médico, à farmácia e ao supermercado. Não podíamos andar na rua a fazer exercício físico, nem a passear cães. Agora estamos no nível 3. No nível 4 as coisas relaxaram um bocadinho, mas ainda assim tudo fechado, centros comerciais, restaurantes, lojas. Agora no nível 3 as lojas dos centros comerciais reabriram. Em vários sítios, tiram-nos a temperatura, pedem-nos para preencher um formulário sobre sintomas para se houver algum caso eles detetarem logo e saberem quem é que foram os contactos”, explica.

créditos: PIETER BAUERMEISTER / AFP

Exemplifica os tempos vividos com o que aconteceu há uns dias com um grupo de pessoas “que se juntou na associação portuguesa em Pretória e passado meia-hora apareceu lá a polícia e foram todos presos". "O clube estava aberto ilegalmente. Segundo as ordens do lockdown não podiam, estavam todos juntos e a menos de 1 metro e meio de distância, não tinham máscaras, estavam a consumir álcool - a venda de álcool e de tabaco na África do Sul durante o lockdown está proibida…”

No LusoClube as instalações foram encerradas no dia 26 de março. “Foi uma pena, os clubes hoje em dia já estão com uma certa dificuldade. A juventude não está muito interessada... Na nossa associação usamos o desporto para puxar por eles, o futebol e o ciclismo, Mas agora já são lusodescendentes. As razões pelas quais a malta vinha aos clubes antigamente já não são as mesmas de hoje em dia”, desabafa Joaquim Melo que diz que as repercussões financeiras no clube serão grandes face a estes meses de lockdown.

No Núcleo de Arte e Cultura, uma agremiação portuguesa que tem 33 anos, uma das mais jovens, as dificuldades não são menores. É dirigida por Joaquim Coimbra, nascido em Portugal, mais propriamente em Vila Nova de Gaia, veio para África do Sul com dois anos, -“tenho 55, portanto passei cá toda a minha vida. Vivi sempre aqui, estou no ramo da informática, tirei o 12.º anos por equivalência, o meu português não é o melhor, mas sou muito português. Fiz folclore durante 25 anos, dancei, sou amante de hóquei em patins, de futebol e da nossa comunidade” - e, naquele que “era para ser o ano dos anos” está "mesmo por um fio".

"Lançámos um apelo aos nossos sócios para atualizarem as quotas, pedimos ajudas financeiras de amigos e simpatizantes do clube em termos de patrocínios, mas está muito complicado. Vai fazer três meses que estamos em lockdown e só agora é que estamos a chegar ao pico da pandemia aqui, por isso não faço ideia de como vão ser os próximos meses”, lamenta,

No núcleo há hóquei em patins e futsal e, “de vez em quando” o rancho folclórico. “Já tivemos teatro, temos uma livraria chamada Almeida Garrett, temos um restaurante nas instalações para servir a comunidade, recebemos os eventos portugueses com maior saliência e tentamos também ajudar a comunidade. Temos um evento anual de caridade em que conseguimos meios para ajudar lusodescendentes. Temos também um centro de dia que fez agora cinco anos. Temos já oitenta e tal utentes, tratamos todos por meninos e meninas. É assim, o clube tenta ter estas diversas atividades para apoiar a comunidade”, explica-nos.

“Tentamos atingir as diversas idades, embora esteja muito difícil porque na terceira geração aqui na África do Sul, eu faço parte da segunda, os meus pais da primeira, o portuguesismo está a fugir um pouco”.

Em Pretória, na capital, a Casa da Madeira partilha as dificuldades. Sem festas não há dinheiro para pagar as despesas fixas e as contas aumentam.

“Nunca mais falámos com o senhor cônsul para saber se podíamos receber alguma ajuda de Portugal ou da Madeira só para pagar as despesas, mas se eles nunca ajudaram antigamente vão ajudar agora?”, desabafa a presidente.

Sem as receitas habituais das comemorações do 10 de Junho que este ano se esperavam maiores, face à dimensão dos eventos, o associativismo português na África do Sul corre riscos. À data da publicação deste artigo, nenhum dos entrevistados fora informado da possibilidade de receberem qualquer apoio fosse da embaixada, consulado ou Ministério dos Negócios Estrangeiros. Algo que, no entanto, não surpreende José Contente.

“Nós na África do Sul temos sido muito esquecidos, não temos tido apoios em nada. Sei que a Europa é um bocadinho mais beneficiada nesse aspeto porque os emigrantes europeus sabem fazer um pouco de política e nós aqui estamos mais dedicados ao trabalho, a política ficou de lado e como tal temos sido esquecidos. Apoios nenhuns, praticamente”, afirma.

Enquanto presidente da União Portuguesa, sente na pele do papel que representa as dificuldades da associação. “Vivemos do aluguer do pavilhão, um pavilhão gimnodesportivo, dos campos de futebol, das salas onde se faziam festas de casamento e batizados. Toda essa remuneração dos alugueres morreu. Estamos praticamente a zero, não há entradas de capital. O restaurante da União que atendia muitos dos nossos portugueses durante a semana fechou, as despesas não param porque temos os empregados na mesma, temos os funcionários que temos mantido, temos a segurança, temos os alarmes, temos a água, luzes, impostos. Existe todo um somar de despesas para as quais não temos presentemente recebido nenhuns fundos. Não admira as coletividades estarem, por conseguinte, muito abaladas e se isto não pára brevemente não sei o que vai ser”, lamenta.

O resultado está à vista, diz, “uma comunidade pobre”. “Muitos vão ficar desempregados e há aqui muitos portugueses de idade que estão aqui há muito tempo e que têm dificuldades. Nós temos um lar da terceira idade que foi criado pela Academia do Bacalhau e que nós enquanto portugueses vamos todos suportando conforme podemos. Essas mesmas festas que fazíamos para esses lares, este ano não vão ser feitas. As pessoas também, economicamente, não estão a colaborar, vamos ver como é que conseguimos desfraldar a nossa bandeira”, diz.

Que celebrações sobram?

“No núcleo costumamos fazer uma celebração campal. Vai lá o padre da nossa paróquia e a gente faz sempre uma celebração pequenina. Temos uma estátua do Vasco da Gama e, na quarta-feira já falei com o senhor padre, com alguns convidados e com as autoridades, estou à espera da luz verde para ter talvez 40 convidados, pessoas amigas do clube para se fazer uma cerimónia singela e solene e festejar o 10 de junho”, diz Joaquim Coimbra, do Núcleo.

O Núcleo e a Academia têm celebrado o Dia de Portugal da maneira possível, ajudando os mais desfavorecidos. “Há muitos portugueses a ajudar não só a comunidade, mas também os locais. É uma comunidade que trabalha para todos. Quando surgem problemas como este é uma comunidade com muita unidade”, salienta Joaquim.

Mas para hoje, Dia de Portugal, Camões e das Comunidades, o objetivo maior de cada uma destas associações é içar a bandeira. Fazer emergir no céu as cores de Portugal será tudo o que têm depois de lhes ter sido prometido  o mundo. Pedem para não cair no esquecimento. Tudo o que lhes sobra este ano é a bandeira e a esperança de, daqui a um ano, se encontrarem com o seu país aqui, na África do Sul.

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