Num dia de trabalho ou de escola, tudo se rege pelo relógio. Há horários a cumprir e os atrasos são de evitar. É preciso que se seja rigoroso para o dia andar — e para haver tempo para tudo. Há uma hora para acordar, outras para as refeições, outras para as tarefas que têm de ser feitas. Nada de novo até aqui.

Todavia, nos próximos tempos, em 121 concelhos do nosso país (lista essa que pode ir sofrendo alterações), há outras horas a ter em conta, principalmente no fim de semana. Como já se sabe, foi decidido, devido ao estado de emergência em vigor, que há recolher obrigatório a partir das 13h — a hora de almoço, no fim de contas.

Hoje, António Costa veio responder às críticas que se fazem sentir — principalmente do setor da restauração — devido ao horário imposto e rejeitou passar o recolher obrigatório das 13h para as 15h nos dois próximos fins de semana, alegando que essa medida visa precisamente travar convívios sociais ao almoço.

"Isto é duro de dizer, mas temos mesmo de evitar esses grandes convívios à hora de almoço e daí a decisão de limitar às 13h" o período de abertura da generalidade dos estabelecimentos comerciais dos concelhos com maior incidência de covid-19, realçou o primeiro-ministro, referindo que a decisão foi bastante ponderada.

"Não foi por acaso que escolhemos as 13h, porque temos precisamente em conta aquilo que todos os inquéritos epidemiológicos nos dizem: 68% das transmissões estão a correr neste momento em momentos de convívio familiar e social", justificou o líder do executivo.

Mas muitos já têm algo a dizer. Porque são os seus negócios que estão em risco. Seja porque já vivem com as novas medidas, seja porque têm medo do que se avizinha.

  • Na Mealhada, terra do leitão, os restaurantes anteveem um cenário catastrófico na faturação se o concelho vier a ser incluído na lista dos municípios mais afetados pela pandemia. "Um restaurante na Mealhada não pode fechar às 13h ou então não abre, porque não servimos pequenos-almoços de leitão", lamenta-se uma proprietária de um restaurante;
  • Em Paços de Ferreira, às portas do Mercado Municipal, perto de meia centena de empresários da restauração muniu-se das cadeiras dos próprios restaurantes e iniciou uma marcha silenciosa até às portas da Câmara. As cadeiras, por sua vez, tinham algo a contar: "Não deixem os restaurantes morrer à fome", "Não pedimos esmolas, só pedimos que nos deixem trabalhar", podia ler-se;
  • Em Alfama, em Lisboa, as casas de Fado e os restaurantes começam a chorar a triste sina. Muitos comerciantes fecharam os estabelecimentos para trespasse, os restaurantes estão agora "a ser vendidos ao desbarato: começa a ser um banco de oportunistas, quem tem dinheiro compra". E nem ‘take-away’ dá para fazer no bairro, uma vez que os moradores são idosos e que a maioria das casas foi transformada em alojamento local para os turistas que agora nem sequer andam nas ruas.

Para acalmar as críticas, Costa frisou que os restaurantes poderão funcionar em regime de entregas ao domicílio e adiantou ter "consciência de que a restauração será um dos setores mais atingidos por esta crise", até porque "o setor da restauração não pode antecipar eventos", ao contrário de competições desportivas ou dos espetáculos, "que estão a ser antecipados para poderem terminar a tempo de as pessoas chegarem a casa".

Desta forma, os dias vão ter de se desenrolar em menos horas. E há coisas que vão ter de ficar de lado, outras que não podem ser atiradas para um canto. António Costa observou que "as pessoas podem adiar a compra de uma camisa ou de umas calças, mas uma refeição não é adiável".

Por isso, o setor da restauração precisa de medidas concretas para conseguir sobreviver, a ser anunciadas em breve pelo ministro de Estado e da Economia, Pedro Siza Vieira, avançou o primeiro-ministro. Até lá, as vozes continuam a levantar-se, na esperança de dias melhores — e com mais horas úteis.

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