Em entrevista à agência Lusa, a propósito dos cinco anos de existência da associação, o presidente da Quebrar o Silêncio adiantou que têm sido cada vez mais procurados por homens que foram abusados em idade adulta e cujo abuso aconteceu nos doze meses antes do pedido de ajuda.

“Quer isto dizer que não há um caso tipo de abuso que nos chega, mas que há diferentes e cada vez mais vamos tendo esta diversidade no nosso dia-a-dia”, disse Ângelo Fernandes.

Segundo o responsável, estes casos são ainda residuais, tanto que no ano passado foram apenas cinco no total, entre 184 pedidos de ajuda feitos à associação, e são casos que acontecem sobretudo em contexto de relações de intimidade.

Ângelo Fernandes sublinhou que “existem muitos estigmas que são obstáculo aos homens que foram abusados sexualmente para procurarem apoio”.

“E para os homens que são abusados em idade adulta pode haver aqui um obstáculo maior, que é o perceber que enquanto homem a sociedade espera que se saiba defender e evitar este tipo de situações e que quando isso não acontece, porque não é natural que não tenha de acontecer, pode acontecer sentirem um obstáculo na procura de apoio”, explicou.

Um outro problema relativo a estes casos tem a ver com o prazo de prescrição dos crimes, uma vez que, ao contrário dos abusos sexuais contra crianças, em que a prescrição acontece cinco anos depois de a vítima completar 18 anos, no caso dos homens adultos a prescrição ocorre ao fim de seis meses.

Na opinião do presidente da Quebrar o Silêncio, trata-se de um prazo que “não respeita e não acompanha o tempo das vítimas”.

“Quando se sentem preparados para denunciar já é tarde demais no sentido da lei, não é possível denunciar”, criticou, recordando um caso que a associação acompanhou em 2021, em que por apenas 12 dias a vítima já não conseguiu denunciar o crime.

Defendeu, por isso, que seja aumentado o prazo de prescrição no Código Penal, de modo a ir ao encontro das necessidades das vítimas e do tempo que precisam para denunciar este tipo de crime, defendendo mesmo que o ideal seria que estes crimes nunca prescrevessem, tendo em conta “o potencial traumático enorme”.

Alertou também para o impacto que esta situação pode ter nas vítimas, desde logo criando um “grande sentimento de frustração e de impotência”, tendo em conta que quando ganham coragem para fazer a denúncia são impedidos de o fazer porque o crime prescreveu.

Apontou igualmente que em muitos destes casos, os homens pretendem fazer a denúncia não para fazer justiça pelo seu caso em particular, mas sobretudo para que o agressor não volte a abusar de mais ninguém.

Por outro lado, o presidente da Quebrar o Silêncio aproveitou para chamar a atenção para o impacto da pandemia, salientando que "trouxe ao de cima muitas situações do passado que muitos homens achavam que estavam esquecidas”, tendo em conta que usam frequentemente estratégias para lidar com o impacto traumático do abuso, como dedicar-se mais ao trabalho ou praticar atividades ao ar livre.

“Com a pandemia e os confinamentos, muitos destes homens perderam estas estratégias porque não podiam sair de casa e acabaram por se ver confrontados com memórias do passado para as quais não estavam ainda preparados para lidar”, sublinhou Ângelo Fernandes.

Acrescentou que isso refletiu-se num aumento dos pedidos de apoios feitos à associação em 2020, quando ajudaram 120 homens sobreviventes, número que baixou para 96 em 2021.

No ano passado, no total, a associação recebeu 184 pedidos de apoio, nos quais estão incluídas 18 mulheres sobreviventes, que foram reencaminhadas para outras respostas específicas, e 61 familiares e amigos de vítimas.

No total dos 467 homens e rapazes que procuraram a Quebrar o Silêncio nos cinco anos de existência da associação – uma média de 94 por ano – a média de idades situou-se nos 32 anos, prevalecendo o abuso praticando na infância por um membro da família ou pessoa próxima.

Durante 2022, Ângelo Fernandes tem a expectativa de continuar a aposta na prevenção dos abusos e na sensibilização para o tema, estando prevista a realização de formações sobre violência sexual junto de pais e mães, o primeiro já no dia 12 de fevereiro. Igualmente previsto está a realização da segunda edição do evento “Desconstruir Violência Sexual”.

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