O verão é tradicionalmente encarado como um período de acalmia e repouso, mas, neste momento, as autoridades de saúde devem estar tudo menos descansadas. Avolumam-se os avisos: se acharam que o início do ano foi difícil para lidar com a pandemia, esperem até chegar a outubro.

A lógica é simples e resulta da soma de dois fatores: junta-se o pior tempo próprio do outono/inverno — e consequentemente mais pessoas em espaços fechados — ao aumento da gripe sazonal, própria dessa estação. Fica-se assim com um caldo epidémico onde as infeções podem crescer a ritmo exponencial, o que, por sua vez, pode levar o Serviço Nacional de Saúde a ser colocado sob enorme pressão.

Por isso mesmo, são cada vez mais os epidemiologistas e especialistas de saúde pública a demonstrar preocupação quanto ao que o outono poderá significar no que toca à covid-19.

Ao Expresso, Manuel Carmo Gomes, professor de epidemiologia na Universidade de Lisboa e colaborador da equipa de peritos da Direção-Geral da Saúde e do Instituto Nacional Ricardo Jorge, avisou que o número de infetados deverá começar a subir significativamente três semanas após o início do próximo ano letivo.

Segundo o especialista, “o perigo vai começar em outubro e até fevereiro vamos estar sempre debaixo de grande risco, porque as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados, tentam manter as suas atividades profissionais, os transportes estarão a funcionar e as aulas a decorrer.”

Para além disso, trata-se de o período em que a gripe sazonal regressa e, partilhando de vários sintomas com a covid-19, pode levar a enchentes nos hospitais e nos centros de saúde e ao processamento de testes sem precedentes.

Também por isso, o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, deixou o recado numa conversa com a Agência Lusa de que Portugal não pode chegar ao inverno como está hoje

“É importante que neste momento consigamos reduzir aquilo que é a disseminação da doença no país. Se quando chegar o inverno já estivermos neste patamar, a possibilidade de as coisas entrarem num crescimento ainda mais difícil de controlar é real”, alertou.

Para Mexia, é necessário reforçar as unidades de saúde pública já nesta fase, assim como a capacidade dos laboratórios de processar amostras, para que tudo seja o mais eficiente possível quando essa potencial vaga chegar.

De acordo com a mesma peça do semanário Expresso, o ministério da Saúde já está a preparar um “plano de ataque” para esses difíceis meses. Em cima da mesa estão medidas como:

  • Antecipar a época de vacinação da gripe para o início de outubro;
  • Tornar a vacina gratuita a grávidas, funcionários de lares e novos grupos de risco;
  • Expandir a capacidade da rede de laboratórios para diagnóstico;
  • Assegurar uma reserva de kits de testagem, extração e zaragatoas;
  • Passar a dar medicamentos de dispensa exclusiva hospitalar nas farmácias e em casa dos doentes;
  • Contratação de enfermeiros e médicos;

Todas estas medidas poderão conter os estragos que um assomo de casos possa causar, mas os especialistas alertam também para a possibilidade de, mesmo que não se obrigue ao confinamento social forçado de março, se volte atrás com algumas medidas de desconfinamento.

Por enquanto, a situação permanece cautelosa no país, em particular na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde hoje foram detetados mais 342 casos.

Para debelar as transmissões naquele que tem sido um dos setores responsáveis pelos surtos na região, a Direção-Geral da Saúde publicou uma orientação para a construção civil, indicando a obrigatoriedade de utilização de máscara nos estaleiros e pedindo para que equipamentos não sejam partilhados entre trabalhadores.

A praia permanece convidativa, e as pessoas tentam viver estes meses de calor e banhos de sol com tranquilidade, mas o outono está aí à porta. Os avisos estão dados.

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