As forças russas, que controlam a central nuclear de Zaporijia, estão a preparar-se para ligar a unidade à península da Crimeia, anexada por Moscovo em 2014, danificando as instalações ao fazê-lo, alertou esta terça-feira, 9 de agosto, a operadora de centrais nucleares ucraniana Energoatom.

“Os militares russos presentes na central nuclear de Zaporijia lançaram o programa Rosatom para conectar a central à rede elétrica da Crimeia”, denunciou o presidente da Energoatom, Petro Kotin, na televisão ucraniana.

"Para fazer isso, primeiro é preciso danificar as linhas elétricas da central ligadas ao sistema de energia ucraniano. De 7 a 9 de agosto, os russos já estragaram três linhas de energia. Neste momento, a central funciona com uma única linha de produção, o que é um modo de trabalho extremamente perigoso", acrescentou.

"Quando for desconectada a última linha de produção, a central será alimentada por geradores movidos a diesel. Tudo dependerá então de sua confiabilidade e das reservas de combustível", explicou.

Localizada perto da cidade de Energodar, às margens do rio Dnieper e não muito longe da península da Crimeia, a maior central da Europa possui seis dos 15 reatores ucranianos, capazes de fornecer energia a quatro milhões de residências.

Em 4 de março, dias após o início da invasão da Ucrânia, as instalações ficaram sob controlo das tropas russas.

Moscovo e Kiev acusam-se mutuamente, desde sexta-feira, de atacar a central, mas as informações não podem ser confirmadas de forma independente.

Os bombardeamentos, no entanto, estão a fazer disparar os alarmes a nível internacional.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, advertiu, no Japão, que qualquer ataque a uma central nuclear é “uma missão suicida”, referindo-se ao ataque em Zaporijia, mas sem apontar os responsáveis.

O diretor-geral da AIEA, o diplomata argentino Rafael Grossi, manifestou-se extremamente preocupado com o bombardeamento da central nuclear e avisou que se estava a “brincar com o fogo”, havendo o risco de uma “catástrofe nuclear”.

Kiev e Moscovo pedem envio de missão internacional à central nuclear de Zaporijia

A Ucrânia considerou ontem “totalmente despropositadas” as alegações russas de que Kiev tenha bombardeado a central nuclear de Zaporijia, no sudeste do país, e pediu o envio de uma missão internacional dirigida pela ONU até finais de agosto.

Em declarações em Viena, o embaixador ucraniano junto da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA, organização do sistema da ONU), Yevhenii Tsymbaliuk, reconheceu que a situação na central nuclear de Zaporijia, a maior da Europa, “não é positiva” e advertiu sobre um “potencial desastre”.

Em contraste, a Rússia assegurou que mantém a AIEA informada sobre a situação da central nuclear, atualmente controlada pelo exército russo e alvo de vários ataques na passada sexta-feira, admitindo ainda a necessidade de uma inspeção internacional.

“Enviamos regularmente à AIEA informação atualizada ‘in situ’ e que está refletida nas circulares informativas do organismo, que revelam de forma clara as ações criminosas das Forças armadas ucranianas, cujo comando perdeu em definitivo a capacidade de pensar racionalmente”, indicou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova.

Segundo a porta-voz da diplomacia russa, aos militares ucranianos “faltou-lhes o sentido elementar da autopreservação”.

“Ao apontar as suas peças de artilharia contra os reatores em funcionamento e ao armazenamento de combustível nuclear utilizado, os ucranianos disparam contra si próprios”, alertou, ao assinalar que “a situação torna-se mais perigosa cada dia”.

Ainda a partir de Viena, o embaixador ucraniano junto da AIEA indicou que os recentes ataques, ocorridos na sexta-feira e sábado, destruíram numerosos sensores de vigilância, pelo que não é possível medir os níveis de radiação em toda a central.

“Esperamos a chegada de uma missão internacional, liderada pela AIEA, mas também com peritos da ONU e outros países. Essa missão é importante porque os peritos devem chegar a conclusões reais e a sua mera presença melhorará o nível de segurança da central”, prosseguiu Tsymbaliuk.

Após denunciar o “terrorismo nuclear russo”, o embaixador também assegurou que a presença dos peritos da AIEA na central nuclear nunca será entendida por Kiev como uma “legitimação” da ocupação russa.

Já a porta-voz da diplomacia de Moscovo optou por saudar as declarações do secretário-geral da ONU, António Guterres, em apoio aos esforços da AIEA “para criar condições destinadas a estabilizar a situação em Zaporijia e permitir o acesso (da agência) à central”.

“Esperamos por parte da ONU que agora não existem obstáculos para organizar uma missão internacional [da AIEA] à central de Zaporijia”, acrescentou Zakharova.

A representante de Moscovo também lamentou que a ONU tenha demorado a reagir após as primeiras denúncias russas de ataques contra a central.

*Com Lusa e AFP

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