Entrar num avião nunca foi problema. O facto de saber que vou passear, nem que seja apenas para a vizinha Espanha, sempre foi do meu agrado. Tenho de confessar que a minha experiência mais radical foi um voo de Cabo Verde para Portugal, sentada no lugar da hospedeira de bordo. Por isso, quando me disseram que ia voar no Portugal Air Summit senti a excitação de viver uma experiência única misturada com o medo de entrar num avião de apenas dois lugares que, visto de fora, dá ideia de ser um espaço altamente claustrofóbico.

Optei por ignorar a informação. Obriguei-me a acreditar que se não pensasse no assunto, talvez se esquecessem do meu voo. As horas foram passando e comecei a relaxar. Até que aconteceu. Alguém da organização da The Race passou por mim e enquanto me puxava pelo braço, dizia: “É agora! Vais voar numa formação de 10 Yak 52 e bater o record". O entusiasmo dele era grande, tão grande que quase me contagiava, não fosse o facto de ter as pernas a tremer e o cérebro a reagir a uma informação que tinha tanto de excitante como de assustadora.

Encaminharam-me para o avião e fui recebida com um sorriso aberto pelo piloto espanhol, membro da patrulha Jacob 52, Gonzalo O’Kelly Pérez. Sentada atrás do piloto, fui informada que não poderia mexer em nada (como se eu tivesse coragem de fazer tal coisa!) e que podia sempre comunicar com o piloto. Depressa percebi que o avião não é nem um pouco claustrofóbico e, aos poucos fui começando a sentir-me confortável e quase relaxada.

Somos os primeiros a arrancar porque o nosso avião vai estar na linha da frente. Já no ar, olho em toda a minha volta. A visibilidade é total. Para cima, lados, atrás e, se me inclinar, também para baixo. Os outros aproximam-se e tenho nove aviões à minha volta e atrás de mim, todos ao mesmo nível e a fazer inclinações simultâneas.

Estar dentro de um avião acrobático, alinhado com mais nove, todos iguais, todos Yak 52, é realmente uma experiência única. O barulho dos motores é ensurdecedor e abafa o medo que cede finalmente à excitação.

Foram cerca de 60 minutos no ar, com paisagens lindíssimas em que o verde dos campos se misturou com o azul das águas e o pouco vermelho dos telhados. Ali ao lado, tão perto, os meus companheiros de viagem passavam a ideia que se eu esticasse o braço quase lhes tocava.

Quanto ao Gonzalo Pérez, o grande piloto que me conduziu, passou o tempo a dividir a atenção entre as informações trocadas com os outros pilotos e algumas palavras comigo.

Desta experiência levo muitas coisas, entre elas, o verdadeiro significado de uma equipa: aqui não pode haver falhas. A comunicação é fulcral, o profissionalismo, rigor e disciplina são fundamentais, assim como a confiança. E o que se passa no ar tem como ponto de partida um briefing board onde ficam esclarecidas todas as manobras e que todos têm de cumprir rigorosamente, até porque o briefing é gravado para o caso de haver falhas.

A aterragem é perfeita, o sorriso tolo não descola e apesar de já estar em terra, sinto-me a flutuar. O record dos 10 Yak 52 em formação foi alcançado, mas há outro, mais pessoal, o record da melhor experiência de voo da minha vida.

(Rita Rufino subiu a bordo de um Yak 52 a convite da The Race, responsável pela organização da Portugal Air Summit, a cimeira aeronáutica que decorreu em Ponte de Sor entre 25 e 27 de maio. Este é o seu relato na primeira pessoa)

 

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