“Se não me tivesse casado, hoje era médica”. Esta é a história que a minha avó nos repete em todos os almoços. Aqueles em que nos vai servindo, um a um. Não raras vezes, o número de pratos que cozinha é igual ao número de comensais à mesa. Atende todos os pedidos e gostos. Há sempre um que não gosta de bacalhau, o outro que não gosta de fritos e ainda aquele a quem não apetece, seja lá o que for. Muitas vezes, também o seu é diferente, feito de restos do dia anterior. Com tantos pratos e tantos outros pedidos a atender, regra geral, acaba por se sentar e comer já depois de todos termos terminado.

“Se não me tivesse casado, teria sido estilista”, repete, enquanto marca as bainhas do vestido da neta ou escolhe tecidos para o próximo tailleur. Usa muitas expressões em francês, porque, na sua altura, era considerado fino. Vai ao restaurant, estaciona o carro na garage. Os tecidos, esses, seguem para a costureira a quem descreve os vestidos que imaginou, frisando sempre que a bainha não deve nunca subir o joelho, nem o decote deve descer a clavícula.

“Se não tivesse casado, seria escritora”, diz noutra ocasião. Num dia em que contou uma qualquer história que nos tenha feito rir. Conta, também, que conheceu o marido, meu avô, com doze anos, numa quermesse. Ele, encantado, não tardou em pedir para namorá-la. Namorar, para eles, nunca se tratou de um estado civil ou um substantivo precedido de pronome possessivo. Um verbo. Eu namoro fulana, tu namoras fulana, ele namora fulana. Um verbo conjugado sempre no masculino. Uma menina não namora nem tem namorado, deixa-se namorar. Ele na rua, pescoço esticado, ela a deixar-se ver, cotovelos apoiados no parapeito, com mandam os bons costumes.

“Se não me tivesse casado, teria estudado”. E teria aprendido e teria conhecido e teria viajado. Casou com 18, foi mãe aos 19. Nessa altura, diz-nos, já não queria casar. Já não queria esse tão bom partido sete anos mais velho, que a conquistou aos 12. Queria brincar mais, queria ler mais, queria saber mais. Não estava escrito nas regras, nem na sebenta de economia doméstica que a treinava para ser essa mulher exemplar. A regra, não estava escrita, mas era falada, alto e bom som. Se a Maria que namorou Beltrano, não casa, já ninguém lhe pega.

Teve medo. Não sabia, nessa altura, o que queria ser e queria já ser tanta coisa. Podia ter sido enfermeira ou professora primária. Ou poderia casar e ter filhos. Das três opções escolheu aquele que, diz hoje, mais de 70 anos depois, a fez infeliz. Se não tivesse casado não teria sido avó, não teria sido a cozinheira que odeia ser, não venderia bolos para ajudar nas contas, não seria nada do que é hoje. Mas poderia ter sido tanta coisa.


Texto por Elisa BaltazarHoje, dia 25 de abril, publicamos uma seleção dos textos que resultaram da iniciativa lançada pelo SAPO24 e O Primeiro Capítuloassinados por novos nomes de quem tem na escrita uma forma de expressão. 

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