O que é ser Natal? É impossível definir concretamente. Cada um há de viver (ou simplesmente não viver) a data de maneira diferente. Este ano, a diferença tem de chegar mesmo àqueles que sempre a viveram de certa maneira, de determinado modo, desta forma tradicional que sempre conheceram.

Os filmes e a publicidade sempre nos ditaram o Natal perfeito: a árvore deslumbrante, a mesa recheada, uma montanha de gente sentada ali toda à roda, entre a porcelana chique e a prata cintilante. Fora dos ecrãs e dos reclames, a tradição afirmava sempre também o seu modo, por ventura mais particular, mais adaptado — um bacalhau, claro; ou um polvo, evidentemente; peru, sem sombra de dúvidas; anho (também conhecido por cordeiro), sempre.

A gastronomia difere: bolo rei, rainha, rei de chocolate, formigos, pão de ló, filhós, sonhos, isto, aquilo, o açúcar, o óleo, os ovos, a fruta cristalizada, a fruta fresca, a fruta seca, o chocolate, branco, de leite, preto, arroz doce, bolachas, aletria… Tanta a fartura, tanta a escolha, ali arrumada entre o tio de Bragança, os primos do Barreiro, o irmão de Lausanne, a irmã de Bordeaux.

Hoje, o pedido é para que tudo isto seja diferente. Hoje, o pedido é que seja mais recatado. Na inevitável necessidade de concentração de pessoas de casas distintas, que se ponha só uma mesa a um canto, com comida volante, para que cada um pegue na sua porção e a vá comer afastado. Pede-se que haja arejamento das casas, apesar do frio. Que haja máscara no máximo possível de tempo.

É que, apesar de a data tradicionalmente apelar a tudo menos isso, é importante pensar na realidade mais ampla: na pandemia, que hoje mesmo está a matar portugueses, tal como matou 70 nas 24 horas anteriores, tal como já matou mais de seis mil só desde março.

Ontem, mais de quatro mil pessoas souberam que hoje teriam de estar em isolamento. Souberam que estão infetadas com o vírus responsável pela omnipresente covid-19, animal amorfo e invisível que envenena todos os pedaços das vidas de cada um. É importante, por isso, fazer os possíveis para não deixar que o vírus, esse vírus de que todos estão fartos, entre festa adentro.

“Para que é a máscara?”, perguntam-me a entrar na casa de quem me viu crescer. Eu sorrio com os olhos — mantenho-a. Eu sei que ela me afasta de quem sou, me arreda das pessoas de quem gosto. Mas prefiro isso à morte, à doença. Que seja o Natal uma outra coisa, antes isso do que nunca mais ser.

É interessante pensar na arrelia de nos ver roubada a tradição, de nos ver negado o direito de ser quem queremos ser, de reivindicar a família, o amor, a proximidade. Que mau é não poder gritar o carinho.

Sempre houve quem nunca o pôde fazer: excluído da família por ser qualquer coisa de que a família não gosta, seja ela o que for. Esta noite, todos estão mais sozinhos. Mas há um ano, nesta noite, haveria por ventura tantos já sozinhos (nem sempre por opção). Porque um homossexual não encaixa no cenário; porque um velho dá trabalho; porque um transexual não faz sentido na cabeça do tio; porque a prima casou com um homem de cuja cor a gente não gosta; porque a cadeira de rodas não cabe na mesa. Porque ninguém nos quer.

Texto meloso, bem sei, mas é Natal. E neste Natal em particular, enquanto andamos afastados dos mais frágeis (e dos mais fortes), aqui arrumados a comer sonhos morninhos que a mãe fez ali na cozinha, mais vale aproveitar para lembrar esses outros Natais que sempre foram alternativos, como, por uma vez, temos de fazer o nosso ser.

Que seja a melhor noite possível. Sobretudo em segurança. Sobretudo para a segurança. Bom Natal, seja ele como for.

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