Não é todos os dias que se sente a terra tremer e dois sismos em duas semanas — a 31 de janeiro em Oeiras e 12 de fevereiro em Rio Maior — é o suficiente para deixar as populações em estado de alerta, recorrer à sabedoria popular e ponderar o quão perto estamos de um abalo como o que arrasou Lisboa em 1755.

Miguel Miranda, professor catedrático de Geofísica e presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera desde 2013, diz que "esta situação é perfeitamente normal".

"Todos os anos temos um número significativo de sismos de magnitude 2-3 que, quando são perto de zonas habitadas, são sentidos pelas populações. Mas isto não é nada de especial para uma zona que é razoavelmente ativa do ponto de vista sísmico", acrescenta.

Mostra-nos a ciência e o histórico de abalos que em Portugal Continental as zonas mais sísmicas são "a costa do Algarve e do Alentejo, até à zona a norte de Lisboa, perto da Figueira", diz.

Estes abalos  — o de Oeiras foi de 2,7 na escala de Richter e o de Rio Maior de 3,5 — explicam-se com "pequenos ajustes que acontecem na crosta terrestre, na zona mais firme da litosfera continental ou oceânica e que tem essencialmente a ver com processos que são tectónicos e que têm como origem o movimento entre as placas — que é o que tipicamente acontece com todos os sismos na região sul portuguesa. Por outro lado, também estão relacionados com pequenos ajustes relacionados com processos de dinâmica externa, ou seja, processos erosivos normais que atingem a superfície da Terra". E "não há nenhum conhecimento científico que suporte que haja uma relação entre estes pequenos sismos e os grandes sismos", acrescenta.

É verdade que "o processo de criação de sismos envolve acontecimentos grandes e pequenos, e existe uma proporção entre grandes e pequenos que é conhecida na literatura com a Lei de Gutenberg-Richter, em que já sabemos que um grande sismo está relacionado com 30 sismos de um grau inferior, 900 de dois graus inferiores, etc. Em Portugal temos muitíssimos sismos de graus zero, 1 ou 2 [na escala de Richter]. Um sismo de 4 já é raro e um sismo de 5 ou 6 acontece uma vez por ano. Um sismo de 8 acontece tipicamente uma vez por década. No entanto, nada disto é em si mesmo um sinal de qualquer tipo de mudança do regime de sismogénese da zona portuguesa", conclui.

E sobre esta ideia de que de 200 em 200 anos vem aí uma grande sismo, Miguel Miranda desmonta o mito.

"A ideia de que vamos ter um sismo grande todos os 200 anos não está demonstrada, a menos que estejamos a falar da zona toda de fronteira de placa e aí seguramente, de 200 em 200 anos, teremos um grande sismo, o que não quer dizer que tenha um efeito igual ao de 1755", diz.

Aliás, "devo-lhe dizer que o que está por detrás do sismo de 1755 nem sequer se pode considerar hoje totalmente esclarecido. Existem várias tentativas de interpretação, mas nenhuma delas é consensual, e na verdade, pior que isso, nenhuma delas consegue justificar a totalidade dos acontecimentos que estão relatados", conta.

Voltar a viver um sismo como o de há 266 anos é porém "inevitável", uma vez "que o movimento de aproximação das placas não vai parar", mas não é algo que se possa prever.

"A indicação que existe do ponto de vista de aproximação entre a placa africana e da placa euroasiática é de que estamos a falar de uma velocidade baixa, na ordem dos cinco milímetros por ano. Para ter ideia, uma velocidade na zona da Anatólia, na Turquia, é 10 vezes maior", compara.

Quando lhe perguntamos se estamos hoje preparados para um abalo de grandes dimensões, Miguel Miranda diz é notório o esforço que tem vindo a ser desenvolvido pelas autoridades de proteção civil, a todos os níveis, desde o central ao local. "Hoje em dia já se interiorizou no modo de trabalhar que há responsabilidades sobre muitos tipos de riscos, os naturais em particular", diz.

Ao nível do indivíduo, quando se fala de "resposta inteligente aos riscos", há ainda "muito caminho para fazer". "Quando se diz não estamos preparados para quando houver um sismo... Ouça, nós não estamos preparados para quando houver um incêndio no edifício, que é algo muito vulgar", nota o presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

Mas ao nível das instituições, "se comparar a situação que conhecemos em 2021, com a que conhecíamos, sem querer exagerar, há cinco anos, a compreensão que há hoje em dia de que existe uma multitude de riscos e de que esses riscos têm de ser conhecidos e compreendidos por todos os atores, desde o nível europeu até ao nível da freguesia, é algo que tem crescido de uma forma importantíssima — e que tem de continuar a crescer".

Portanto, "se me pergunta se estamos preparados diria que não; mas se me perguntar se estamos melhor, estamos", conclui.

Baixar, proteger e aguardar

O que fazer antes, durante e depois de um sismo? Se perguntar a uma criança em idade escolar é bem possível que tenha isso mais presente do que um adulto, já que é comum nas escolas portuguesas aprender o que fazer em caso de tremor de terra, memória que se esvanece à medida que o tempo vai passando.

No entanto, todos os anos a Proteção Civil leva a cabo um exercício nacional chamado "A Terra Treme" para sensibilizar a população para o risco sísmico. O exercício, que pode ser realizado em qualquer lugar onde esteja, dura apenas um minuto e o objetivo é executar os três gestos que salvam vidas em caso de sismo: baixar, proteger e aguardar.

Interiorizados estes três passos, aqui ficam mais algumas indicações da Proteção Civil caso esteja dentro de casa ou de um edifício quando se der um sismo:

  • Se estiver num dos andares superiores de um edifício, não se precipite para as escadas.
  • Nunca utilize elevadores.
  • Abrigue-se no vão de uma porta interior, nos cantos das salas ou debaixo de uma mesa ou cama.
  • Mantenha-se afastado de janelas e espelhos.
  • Tenha cuidado com a queda de candeeiros, móveis ou outros objetos.
  • Se está num local com grande concentração de pessoas fique dentro do edifício, até o sismo cessar.
  • Saia depois com calma, tendo em atenção as paredes, chaminés, fios elétricos, candeeiros e outros objetos que possam cair.
  • Não se precipite para as saídas. As escadas e portas são pontos que facilmente se enchem de escombros e podem ficar obstruídos por pessoas que tentam deixar o edifício
  • Nas fábricas, mantenha-se afastado de máquinas que possam tombar ou deslizar.

Já se se estiver na rua:

  • Dirija-se para um local aberto com calma e serenidade, longe do mar ou cursos de água.
  • Não corra nem ande a vaguear pelas ruas.
  • Mantenha-se afastado dos edifícios (sobretudo dos mais degradados, altos ou isolados) dos postes de eletricidade e outros objetos que lhe possam cair em cima.
  • Afaste-se de taludes, muros, chaminés e varandas que possam desabar.

Se estiver a conduzir:

  • Pare a viatura longe de edifícios, muros, taludes, postes e cabos de alta tensão e permaneça dentro dela.

Depois do abalo passar, há mais algumas coisas que deve ter em mente:

  • Mantenha a calma e conte com a ocorrência de possíveis réplicas.
  • Não se precipite para as escadas ou saídas. Nunca utilize elevadores.
  • Não fume, nem acenda fósforos ou isqueiros. Pode haver fugas de gás.
  • Corte a água e o gás e desligue a eletricidade.
  • Utilize lanternas a pilhas.
  • Ligue o rádio e cumpra as recomendações que forem difundidas.
  • Limpe urgentemente os produtos inflamáveis que tenham sido derramados (álcool ou tintas, por exemplo).
  • Evite passar por locais onde existam fios elétricos soltos.
  • Não utilize o telefone, exceto em caso de extrema urgência (feridos graves, fugas de gás ou incêndios).
  • Não circule pelas ruas para observar o que aconteceu. Liberte-as para as viaturas de socorro.

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