Notícia atualizada às 09h35 de 18-11-2019


A Universidade Politécnica, cujo campus tem vindo a ser ocupado por manifestantes desde a semana passada, foi palco da confrontação mais tensa entre manifestantes e polícia desde que começaram os protestos em Hong Kong, há mais de cinco meses.

Escreve o The Guardian que cerca de 800 pessoas continuam presas dentro da universidade. A polícia utilizou gás lacrimogéneo e balas de borracha para conter os manifestantes que tentavam fugir do campus. As autoridades estavam também a montar barricadas próprias para confinar os manifestantes a um só espaço.

Durante a noite, os manifestantes enfrentaram a polícia com bombas incendiárias e as autoridades ameaçaram começar a usar balas verdadeiras.

Quando um primeiro grupo de manifestantes tentou escapar da universidade, a polícia lançou gás lacrimogéneo nas várias saídas para conter a fuga.

Depois, numa segunda tentativa de fuga dos manifestantes — escudados por guarda-chuvas — a polícia além do gás utilizou um canhão de água. Vários manifestantes foram detidos por essa altura.

Já de manhã, uma terceira tentativa de fuga resultou na detenção de pelo menos 100 pessoas, escreve a BBC.

"Estamos presos aqui há demasiado tempo. Precisamos que todos os 'hongkongers' saibam que precisamos de ajuda", disse Dan, um manifestante de 19 anos, citado pela emissora pública de Hong Kong.

"Não sei por quanto tempo mais podemos continuar assim. Podemos precisar de ajuda internacional", acrescentou.

De madrugada, o reitor da universidade, Teng Jin-Guang, urgiu os manifestantes a sair de forma pacífica dizendo que a polícia tinha acordado um cessar-fogo desde que estes parassem com os ataques.

Segundo Tang Siu Wa, de 41 anos, e que estava no campus, cerca de 800 pessoas continuam cercadas na universidade.

"Oficialmente estão a dizer às pessoas para sair, e até apontam algumas saídas, mas quando as pessoas tentam sair eles contêm-nos. É uma armadilha", contou. "Eles não estão a deixar ninguém sair do campus".

Não há, assim, garantias de que os manifestantes possam sair sem ser detidos.

Noticia ainda o The Guardian que centenas de pessoas noutras partes da cidade de Hong Kong foram detidas por mostrar apoio aos manifestantes.

Entretanto, ainda de madrugada, o Supremo Tribunal de Hong Kong declarou inconstitucional a proibição do uso de máscaras em protestos, noticiou a emissora local RTHK.

O tribunal afirmou que a proibição das máscaras, que entrou em vigor em 05 de outubro passado, é inconstitucional por impor mais restrições do que as necessárias aos direitos fundamentais da população, indicou a RTHK.

Esta decisão surgiu na sequência de uma revisão judicial por 24 deputados pró-democracia da decisão do executivo de Carrie Lam de aplicar uma lei de emergência que remonta à época colonial britânica, acrescentou.

Quando anunciou a imposição da ‘lei anti-máscara’, no mês passado, Carrie Lam afirmou que o Governo pretende “acabar com a violência e restaurar a ordem”, devido à “situação de grande perigo público” que se vive no território desde o início de junho.

Na manhã de sábado a polícia já disparara gás lacrimogéneo contra os manifestantes junto à Universidade Politécnica de Hong Kong, num momento em que a oposição parlamentar critica as forças armadas chinesas que no sábado esteve a retirar escombros das ruas.

A Universidade Politécnica de Hong Kong é apenas um dos campus que têm sido utilizados como ponto de encontro para os manifestantes, com a particularidade de, contrariamente a outros campus, ficar no centro da cidade e a menos de 50 metros de uma base militar — sendo que não, pelo menos para já, sinal de que os militares serão mobilizados para lidar com os protestos, escreve a CNN.

A Universidade de Hong Kong que esta semana também foi palco de batalhas entre polícia e estudantes converteu-se numa espécie de comuna, guardada por catapultas e 'controlos fronteiriços', enquanto alunos passaram a gerir cantinas ou transportes. Paralelamente, fisgas, arcos e flechas, e outras armas medievais, estão agora a ser fabricadas e testadas no ‘campus’.

A contestação social em Hong Kong dura há cinco meses e foi desencadeada pela apresentação de uma proposta de alteração à lei da extradição, que permitiria ao Governo e aos tribunais da região administrativa especial a extradição de suspeitos de crimes para jurisdições sem acordos prévios, como é o caso da China continental.

A proposta foi, entretanto, formalmente retirada, mas as manifestações generalizaram-se e reivindicam agora também a implementação do sufrágio universal no território, uma investigação independente à violência policial e a libertação dos detidos ao longo dos protestos.

Os protestos radicalizaram-se no início de novembro, após a morte de um estudante universitário de 22 anos que caiu de um parque de estacionamento e sofreu ferimentos cerebrais graves em circunstâncias desconhecidas durante um protesto a 3 de novembro. Os manifestantes culpam a polícia, que já negou categoricamente qualquer responsabilidade na morte do estudante.

Entretanto, já por três vezes foram utilizadas balas contra manifestantes. Os dois primeiros incidentes foram no início de outubro, ferindo dois jovens, de 18 e de 14 anos, e o terceiro foi em novembro. Durante uma manifestação, um jovem resistiu e bateu no ombro direito do polícia, que disparou um tiro no estômago contra outro indivíduo, também de máscara, mas com uma indumentária preta, que tentou aparentemente tirar-lhe a arma. O polícia efetuou ainda dois outros disparos contra outro manifestante que também se aproximava.

A transferência de Hong Kong e Macau para a República Popular da China, em 1997 e 1999, respetivamente, decorreu sob o princípio de “um país, dois sistemas”, precisamente o que os opositores às alterações da lei garantem estar agora em causa.

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