A UE sublinhou a importância de prosseguir a ajuda internacional à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinianos, que gere escolas para centenas de crianças nos territórios da Palestina, mas também na Líbia, Jordânia e Síria.

"Esta decisão lamentável dos Estados Unidos de não participar mais no esforço internacional e multilateral cria um vazio considerável", declarou o porta-voz dos serviços diplomáticos e da cooperação exterior da União Europeia, em comunicado.

"Esperamos que os Estados Unidos reconsiderem esta decisão", disse o porta-voz, sublinhando que os Estados Unidos "desempenham e continuarão a desempenhar um papel essencial nos esforços para instaurar a paz no Médio Oriente". "A União Europeia continuará a colaborar com os Estados Unidos e com outros parceiros internacionais e regionais para a realização desse objetivo comum", adianta o comunicado.

A UE anunciou que discutirá com os seus parceiros internacionais a forma de "assegurar uma assistência durável, contínua e eficaz aos palestinianos, através da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinianos", antes da Assembleia-Geral da ONU, a realizar em setembro.

Na sexta-feira, os Estados Unidos anunciaram o corte do financeiro à agência da ONU, cujas atividades foram consideradas tendenciosas pela porta-voz do departamento de Estado norte-americano, Heather Nauert. Washington "não vai mais suportar uma parte desproporcionada deste fardo", precisou Nauert em comunicado, observando que não haverá mais contribuições do que a concedida em janeiro de 2018, no valor de 60 milhões de dólares (51,5 milhões de euros).

O Governo de Trump já tinha questionado o sistema de financiamento da agência da ONU, considerando que Washington assumia um “peso desproporcionado” e, por não ter visto mudanças “suficientes” no seu funcionamento, tomou a decisão de cancelar a sua ajuda.

Os Estados Unidos asseguravam cerca de 30% do orçamento das Nações Unidas para a agência na Palestina (que em 2017 ascendeu a cerca de 1.100 milhões de dólares). Em 2017, os Estados Unidos doaram 364 milhões de dólares à organização, quantia que este ano foi reduzida a 65 milhões. Finalmente, na sexta-feira, o Departamento de Estado norte-americano anunciou a decisão de cortar todo o financiamento. Tendo em conta um défice de 146 milhões de dólares que já estava incluído nas contas, a decisão de Washington criou um buraco de 446 milhões de dólares no orçamento da agência.

As críticas 

Em Ramallah, um porta-voz do presidente palestiniano considerou que a decisão norte-americana como "um ataque aos direitos do povo palestiniano". O porta-voz de Mahmoud Abbas alertou que a decisão norte-americana "não serve a paz e fomenta o terrorismo na região".

Também a ONU lamentou a decisão dos Estados Unidos de cortarem o financiamento à Agência de Assistência aos Refugiados Palestinianos, enquanto a Liga Árabe a condenou e o Egito expressou preocupação com a situação humanitária que dela derivará.

Descrevendo a agência como um organismo “que fornece serviços essenciais e contribui para a estabilidade da região”, o secretário-geral da ONU, António Guterres, citado em comunicado pelo seu porta-voz, Stéphane Dujarric, sublinhou que “os Estados Unidos têm sido tradicionalmente o maior contribuinte da Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados Palestinianos”.

“Apreciamos o seu apoio durante os anos passados”, prosseguiu Guterres, acrescentando que a agência tem a sua total confiança e elogiando o trabalho do respetivo comissário-geral, Pierre Krähenbühl, cujos esforços para ultrapassar a inesperada crise financeira que o organismo enfrentou este ano classificou como “incansáveis, rápidos e inovadores”.

O responsável máximo da ONU recordou que Krähenbühl alargou a base de doadores, recolheu fundos consideráveis e explorou novas vias de apoio, além de ter tomado medidas administrativas para aumentar a eficiência e reduzir gastos.

“A Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados Palestinianos tem um sólido recorde de fornecer educação de alta qualidade, saúde e outros serviços essenciais, muitas vezes em circunstâncias extremamente difíceis para os refugiados palestinianos, que estão em situação de grande necessidade”, lê-se no comunicado.

Guterres emitiu ainda um apelo aos outros países para que ajudem a preencher a brecha financeira existente, para que a agência possa continuar a fornecer a sua vital assistência, dando também “um sentimento de esperança a esta vulnerável população”.

Entretanto, Hossam Zomlot, que representa em Washington a Organização da Libertação da Palestina (OLP) acusou os Estados Unidos de "renunciarem aos seus compromissos internacionais e à sua responsabilidade" perante um organismo criado por resolução da ONU em 1949.

Por sua vez, a Liga Árabe pediu também à comunidade internacional para fazer frente à situação criada pelo Governo Trump fazendo doações adicionais ao organismo especializado das Nações Unidas.

Em declarações à imprensa na sede da organização pan-árabe, na capital egípcia, o conselheiro do secretário-geral da Liga Árabe para Assuntos Palestinianos, Said Abu Ali, defendeu que “os Estados Unidos não têm o direito de abolir a Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados Palestinianos, que foi criada com base numa resolução da ONU que representa a posição e a vontade da comunidade internacional” em relação aos refugiados palestinianos.

Abu Ali sustentou igualmente que “o incumprimento pelo Departamento de Estado norte-americano dos seus compromissos internacionais não deverá afetar o compromisso internacional para com os refugiados palestinianos para alcançar a paz, a segurança e a estabilidade no Médio Oriente e no mundo”.

O secretário-geral, Ahmed Abulqueit, emitiu em seguida um comunicado expressando “preocupação e condenação” perante a medida de Washington e responsabilizando o Governo Trump pelas consequências de uma decisão que pode “causar grandes danos a cerca de cinco milhões de refugiados que dependem, para a sobrevivência diária, dos serviços oferecidos pela agência” e também aos países árabes que os albergam, “especialmente aqueles, como o Líbano e a Jordânia, que atualmente também hospedam um grande número de refugiados sírios”.

Também o Egito reagiu hoje à decisão dos Estados Unidos, expressando “profunda preocupação” com a “situação humanitária dos refugiados palestinianos”. Em comunicado, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros egípcio, Ahmed Abu Zeid, frisou que a situação desses refugiados “é mais difícil de dia para dia”, com o aumento das dificuldades da agência da ONU para desempenhar o seu “importante papel” no que respeita a acudir “às questões vitais e necessárias dos refugiados”.

Israel apoia EUA

Os Estados Unidos e Israel acusam a agência da ONU de manter a ideia - à qual se opõem - de que muitos palestinianos são refugiados dotados do direito de regressarem às suas terras de origem e das quais foram despojados após a criação de Israel em 1948.

"Israel apoia a decisão norte-americana", declarou sob anonimato um responsável do gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. "Reforçar o estatuto do refugiado palestiniano é um dos problemas que faz o conflito [israelo-palestiniano] eternizar-se", adiantou a fonte.

Segundo o responsável do gabinete de Netanyahu, Israel defende uma outra forma de ajuda aos palestinianos que passe pela utilização correta do dinheiro em benefício da população e que não perpetua o estatuto do refugiado.

A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinianos foi criada após a guerra da independência de Israel em 1948 para permitir a ajuda a cerca de 700 mil palestinianos que foram forçados a abandonar as suas casas e, mais tarde, a muitos milhares de descendentes.

Atualmente, a agência ajuda mais de três milhões de palestinianos num quadro de cinco milhões registados como refugiados, através das suas escolas e centros de saúde.

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