Portugal hoje pode tudo. Melhor, Portugal hoje disse que podia tudo. Não o disse literalmente, mas deitou cá para fora o sentimento. António Costa e Silva subiu ao palco do auditório da Fundação Calouste Gulbenkian para apresentar a versão final do plano de recuperação económica para a próxima década, antes de se saber que o número de novos casos de infeção por Covid-19 foi o mais baixo dos últimos sete dias.

Sim, eu sei que são só dois pontos, mas chega. Chega-nos. Afinal de contas, são estes dois pontos o resumo da nossa vida: a pandemia de hoje e a crise de amanhã. Ambos, os pontos, como se fossem dotados de vida própria, desenharam sobre si um smile que pode ser enganador:

O primeiro piscou-nos o olho aquando da apresentação do plano de Costa e Silva após a discussão pública e uma adenda de quase 40 páginas em relação à primeira versão do mesmo documento revelado em julho. Sobre a próxima década, o paraministro, engenheiro e poeta não conseguiu que nenhum ponto ficasse na memória. As medidas elencadas foram as mesmas de julho, e entre citações de literatura e história, ficaram demasiados objetivos desordenados, como quem sabe o que tem de ser feito, mas não sabe por onde começar.

A promessa do que será a próxima década esbarrou na falta de prioridades, ficando-se por um ataque ao ultraliberalismo e pela defesa do Estado — "Quando há uma epidemia como esta, não é o mercado que nos vai salvar, é o Estado, os serviços públicos e o Serviço Nacional de Saúde, e eu espero que haja a humildade de assumir esta derrota histórica que a realidade impôs a ideias ultraliberais" - e num aviso à navegação — “nós vamos entrar ainda em decrescimento antes de haver crescimento, vamos piorar antes de começar a melhorar".

Já o outro bonequinho amarelo, passou a mão pela testa quando viu que Portugal registou 425 novos casos, o aumento mais baixo dos últimos sete dias, numa semana que aproximou os novos dados epidémicos daqueles com que vivemos durante o período de confinamento em abril.

Se soa a esperança, há que dizer que o número — ainda bastante alto — tem um sentimento agridoce quando nos chega no mesmo dia em que o país continental passa a estar em estado de contingência, algo que mesmo que não mude o fundamental do nosso dia-a-dia, só o facto do etiquetar já nos deixa mais cabisbaixos.

Parece que foi um daqueles dias chatos que se resolvia com uma ida ao restaurante favorito, mas no qual batemos com o nariz na porta. "Para descanso do pessoal", lemos no papel, e nós, nada descansados, aquecemos qualquer coisa no microondas e esperamos que o ambiente, os portos, a ferrovia e uma renovação do Estado venham a ser uma realidade mais palpável e que os números de amanhã sejam ainda mais baixos dos que o de hoje. Afinal de contas, a quarta-feira tem tudo para ser um bom dia. Dê por onde der, o restaurante vai estar aberto para fechar o dia.

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