Diário de um pai em casa. Dia 20


créditos: Miguel Morgado

Após o primeiro anúncio de Estado de Emergência, lancei um desafio a mim mesmo que agora partilho. Não dei toques em rolos de papel higiénico, não deixei crescer nem rapei o cabelo, não brotam pêlos farfalhudos por todos os meus poros da cara, não desbravei aprendizagens de viola, nem desatei a fazer ginástica todos os dias à frente de uma App. Não fiz nada disso.

Durante 14 dias, registei um frame dos dias que passavam. No mesmo local, a horas variadas, pedi a um dos meus filhos que tirasse uma fotografia. Um registo meu com a minha mulher a meu lado. Os dois.

Na película entrou um, depois outro, seguido de outro e mais outro. A três, de cada vez. Seis, no total das contas destes longos dias.

Foram, e vão ser, dias e noites duras na 2ª parte do Estado de Emergência. Nem tempo temos para fazer um intervalo.

Houve muitas zangas, discussões e “empurrões”. Muito mais que o habitual. Os pedidos de silêncio e as ordens para os filhos se recolherem ao quarto foram repetidos vezes sem conta. Talvez demasiadas.

Tivemos dificuldade em conciliar tudo e mais alguma coisa. Somos marido e mulher, pais e filhos, professores e alunos, colegas de escritório e de redação, colegas de carteira da escola. Fomos demasiadas partes ao mesmo tempo.

Em poucos momentos, coloquei-me na pele do outro. Talvez o devesse fazer mais vezes.

Miúdos fechados em casa, sem “discutirem” uns com os outros, sem fazerem, a toda a hora, perguntas, sem rastejarem até à cozinha para comer umas bolachas, sem darem uma biqueirada na bola que aterra em cima de um objeto cuja probabilidade de se partir é enorme ... se nada disso existisse ... estou certo não seriamos a família que somos.

Não registei fotograficamente todos esses momentos. Registei somente as 14 fotografias, durante 14 dias. Um registo para mais tarde recordar. E que ficam connosco.

As imagens falam por si. Cada uma delas vale 1000 palavras. Juntas somam a carta que nunca escrevi. A eles todos.

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