Quase não deu tempo para um “aquecimento”. “Opinião e liberdade de expressão: Desafios à igualdade de género” foi o tema do primeiro painel do encontro organizado pela Quebrar o Silêncio. A conversa ganhou ritmo rapidamente.

Depois de uma hora a ouvir os oradores — Helena Ferro de Gouveia, jornalista e atualmente consultora na agência alemã Deutsche Welle Akademie; os ativistas Diogo Faro e Ana Esteves; e Júlia Garraio, investigadora do Centro de Estudos Sociais —, foi durante a discussão que se percebeu a ânsia da audiência em participar.

As perguntas e respostas sucederam-se durante mais uma hora. A agitação nas cadeiras, essa, foi mais forte nos momentos dos risos — quer por humor, quer por desconforto.

Estas são algumas das frases que ajudam a explicar porque é que a abertura do encontro foi da ligeireza do humor ao peso da desinformação.

“Dá-vos gozo fazer piadas com cheiro a bolor?”

Disse piadas, passou um vídeo, falou a sério sobre liberdade de expressão e suscitou várias perguntas do público. Diogo Faro foi ao ISCTE falar sobre “humor e ativismo” e sobre o papel que a comédia pode ter na promoção da igualdade de género. Mais: sobre a forma como o humor pode desmontar as práticas e os discursos que o humorista considera que perpetuam o machismo.

“Primeiro somos comediantes e temos de fazer rir, mas se conseguirmos acrescentar uma camada a isso, acho que nos valoriza enquanto artistas”, sugeriu a dado momento. “Se contribuirmos para que o público comece a achar mais graça a gozar-se com machistas e a achar menos graça a gozar-se com o papel supostamente inferior da mulher…”, continuou, considerando que fazer piadas machistas ainda “vende” mais. No final, Diogo Faro viria a rematar: “Para ser bom artista é preciso coragem e às vezes isso pode significar ganhar menos dinheiro”.

Antes disso, do público veio uma pergunta: “Que obrigação sentes em intervir nos casos mediáticos?”, lançou Ângelo Fernandes, organizador do encontro, referindo-se a situações como o tweet que Diogo Faro publicou a criticar o mais recente vídeo do rapper Valete, onde um homem aponta uma arma à namorada quando a vê com outro homem na cama. Diogo Faro explicou que, enquanto comediante, não sente nenhuma obrigação de atuar, mas o “artista tem sempre alguma responsabilidade”. A habitual frase “era só uma piada, não penso realmente assim” não o convence. “Eu não consigo desligar-me dos valores em que acredito. Não me faz sentido estar a fazer piadas que dizem o contrário do que penso só pela piada”, reforçou.

Apesar disso, Faro admite que cada um é livre de fazer as piadas que quiser. “Mas dá-vos gozo fazer piadas com um século, com cheiro a bolor?”, é a pergunta que o humorista diz levar para as discussões que lança juntos dos pares. “Se quiserem continuar a fazer piadas a dizer que ser gay é ser anormal, ser transgénero é uma aberração, e ser mulher é ser inferior”, podem fazê-lo, até porque “é perigoso proibir piadas”, mas importa ter noção de que esse humor “perpetua estereótipos, e os estereótipos perpetuam violência”, defende.

Quando questionado sobre se sente risco profissional por muitas vezes fazer humor com cariz ativista, Faro foi claro a posicionar-se: “Não sei se deixo de ser contratado. Mas seria um bocado estúpido uma marca ou uma empresa deixar de me convidar porque eu gozo com os racistas. Eu estou acho que do lado certo dos valores humanos”.

“Isto extravasou a comédia. Fomos beber uma cerveja na mesma, mas …”

Antes de começar a falar sobre liberdade de expressão, humor e ativismo, Diogo Faro tinha contado uma história. O caso de uma Instastory [tipo de publicação no Instagram] que lançou há uns meses e que acabou por virar um movimento social. Tudo depois de uma conversa regada a cerveja, como é apanágio do comediante - assumido pelo próprio.

No início do ano, Diogo Faro desafiou as suas seguidoras naquela rede social a enviarem um vídeo em que dissessem “eu”, caso já tivessem sido vítimas de algum tipo de agressão de cariz sexual - do assédio pelo piropo à violação. A ideia era usar as imagens num vídeo irónico que o humorista estava a fazer sobre o machismo. 

“Pensei que ia receber 30 ou 40 mensagens e recebi perto de três mil”, contou, recordando a surpresa que a situação lhe causou. Mais forte ainda foi o impacto do conteúdo de muitas das partilhas que recebeu: emails a revelar casos de violação e de violência doméstica, e até mensagens de amigas próximas a contar que “tinham passado por situações graves”. “Foi um choque”, insistiu.

“Isto extravasou a comédia e a ideia do vídeo. Temos de fazer qualquer coisa isto”, caiu-lhe a ficha na altura. Diogo Faro falou aos amigos, outros juntaram-se, e foram “para o café beber cerveja na mesma". "Mas com um propósito que achávamos maior e criámos o #nãoénormal”, contou.

O movimento usa o humor para estimular a conversa em torno dos “machismos do dia-a-dia”, explicou Ana Esteves, a consultora em gestão estratégica de talento que faz parte do grupo e que esteve presente no Encontro também.

Ana Esteves e Diogo Faro, a representar o movimento #nãoénormal, no encontro "O homem promotor da igualdade". créditos: Margarida Alpuim | MadreMedia

No final, ao SAPO24 Diogo Faro explicou o porquê da via do humor em particular: “O humor descomplica as coisas e faz-nos ver outra perspetiva dos assuntos. A surpresa faz-nos rir. E a simplicidade ajuda bastante à compreensão de determinados assuntos. É muito mais fácil lembrarmo-nos de uma piada. Esse tipo de dinâmica fortalece a memória dos assuntos”.

A ideia é levar as pessoas, os mais novos em particular, “que consomem informação de uma forma diferente”, a questionarem-se sobre as frases que usamos e os gestos que temos no quotidiano. Sem nos darmos conta, por acharmos “normal”, acredita Ana Esteves, estamos a reforçar práticas de desigualdade e a reforçar os comportamentos que “estão na base de coisas gravíssimas como as violações e a violência doméstica”.

“Queremos que as pessoas façam o processo que fizemos no nosso grupo de amigos: que conversem, que falem sobre os assuntos”. “Com calma. Não temos de ficar irritados com todas as pessoas”, “isto não é uma guerra”. “É uma questão de partilhar experiências”, para “ficarmos cada vez mais conscientes”, explicou Ana.

Com empatia. Este é o ponto em que ambos insistiram uma e outra vez. “É um processo empático”, que implica as pessoas partilharem experiências pessoais e perceberem melhor o que motiva uns e outros a dizerem o que dizem. Com empatia, insistiram.

Despedimo-nos rapidamente, porque a dupla ia para uma escola fazer mais uma das sessões que tem dinamizado (já são mais de 22) juntos dos alunos do ensino básico. Estes momentos de debate com os jovens são uma das vertentes do movimento, que também tem uma presença forte nas redes sociais, Facebook e Instagram (eixo da consciencialização, como lhe chamam) e disponibiliza gratuitamente imagens alusivas ao tema para estampagem, entre outras iniciativas.

“Três em cada quatro denúncias de violação são falsas”. Falsa também parece ser esta estatística. Como não cair na ratoeira?

Já no final da discussão da manhã de ontem, chegou uma pergunta do público que voltou a agitar cadeiras e cabeças. “Podem, por favor, explicar-me porque será que três em cada quatro denúncias de violação são falsas?”, perguntou uma jovem sentada lá atrás, no auditório J. J. Laginha, onde estavam mais de cem pessoas por esta altura. A estatística tinha sido levada por Júlia Garraio, a investigadora do Centro de Estudos Sociais que foi falar acerca de um estudo sobre media e masculinidades. Mas os dados não eram dela. Faziam parte de um conjunto de citações retiradas de um artigo de opinião de Quintino Aires na revista Flash, a propósito do caso revelado pelo jornal alemão Der Spiegel em que Cristiano Ronaldo é acusado de violação por Kathryn Mayorga e das “crenças falsas que contribuem para desculpabilizar as práticas de violência e descredibilizar as vítimas”.

Ainda a pergunta estava a ser feita pela jovem no público e já se via Helena Ferro Gouveia a pegar no seu tablet e a procurar uma informação que segundos depois partilharia com o auditório, reforçando a importância de estarmos atentos às fontes que usamos para nos informarmos.

“Relatório anual de segurança interna”, leu Helena no ecrã que tinha à frente. “Taxa de falsas denúncias em caso de crimes sexuais”, continuou. Os valores mostravam a discrepância entre a estatística inicialmente apresentada e estes dados oficiais: 75% contra 2,28% de denúncias falsas, respetivamente. Embora não saibamos se as percentagens reportam exatamente às mesmas variáveis - falam as duas do mesmo tipo de denúncias? -, aquele momento não podia ser mais exemplificativo da rapidez com que é possível chegar a dados oficiais que contribuam para tirar de forma fundamentada dúvidas que possamos ter.

E este é também o papel da imprensa, defenderam as oradoras unanimemente: informar com base em factos verificados, nunca esquecendo o contexto das situações reportadas, para que a violência não seja vista “como se fosse episódica”, como se se tratasse de “factos isolados”, mais do que de “fenómenos sociais enraizados”.

Estava iniciada a conversa sobre o papel dos órgãos de comunicação social na perpetuação de representações “que reforçam crenças” erradas acerca da violência - até porque “este ano é a vez da comunicação”, já tinha explicado Ângelo Fernandes ao SAPO24 quando falámos sobre o mote do Encontro deste ano. Esta sexta-feira, o último painel termina com este tema de novo. “O impacto dos órgãos de comunicação social e das notícias nas vítimas e nas estruturas de apoio”. Nós vamos lá estar, e amanhã cá estaremos para lhe contar o que lá se passou.


Este artigo integra um conjunto de publicações realizadas no âmbito do encontro "O homem promotor da igualdade", da associação Quebrar o Silêncio, que se realiza nos dias 14, 15 e 16 de novembro, no ISCTE, em Lisboa.

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