Os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27 países, reunidos em Nova Iorque à margem da Assembleia Geral anual da ONU, “manifestaram claramente a sua solidariedade para com a França”, “um apoio claro”, afirmou Josep Borrell, à imprensa.

A Austrália tinha-se comprometido em comprar 12 submarinos a França mas na semana passada anunciou a compra de submarinos com propulsão nuclear aos Estados Unidos, rompendo o contrato com Paris, para submarinos que não teriam essa tecnologia. Dessa decisão saiu a aliança trilateral entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos, AUKUS (iniciais em inglês dos três países anglo-saxónicos).

O responsável disse ainda que os europeus sentiram que a disputa franco-americana sobre o anúncio de uma aliança indo-pacífico entre os EUA, Reino Unido e Austrália não era “uma questão bilateral” mas sim que “afetava” toda a UE.

O Governo francês disse na segunda-feira esperar do Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, “explicações” sobre a “rutura brutal, inesperada e inexplicada” de um contrato de compra de submarinos franceses por parte da Austrália.

Numa conferência de imprensa na segunda-feira, em Nova Iorque, o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, falou da polémica sobre os submarinos, dos últimos dias, que levou mesmo Paris a chamar os seus embaixadores em Nova Iorque e Camberra.

Segundo o ministro, a questão será o assunto de uma conversa telefónica (sem data) que terá Joe Biden com o seu homólogo francês, Emmanuel Macron, depois de a Austrália ter anunciado na semana passada a assinatura de um contrato de compra de submarinos norte-americanos, e o subsequente cancelamento do contrato de 12 submarinos franceses, avaliado em 56 mil milhões de euros.

O cancelamento foi seguido de uma chamada para consultas dos embaixadores franceses em Washington e Camberra.

“O que está aqui em causa é a quebra de confiança entre aliados: uma aliança significa transparência, previsibilidade e explicações, mas tudo isto não foi dado aqui (…) Porque se esconderam, porque o fizeram às escondidas?” lamentou o ministro.

E acrescentou: A atitude dos Estados Unidos “é uma deceção: pensávamos que tinham virado a página do unilateralismo, da brutalidade nos anúncios, do desrespeito pelos aliados”.

O responsável insistiu que os Estados Unidos e a Europa “são aliados” e que não se podem esconder para desenvolver estratégias diferentes das que expõem aos aliados.

Jean-Yves Le Drian assegurou que nesta crise, que eclodiu inesperadamente nas vésperas da Assembleia Geral da ONU – daí a sua presença em Nova Iorque – a França recebeu o apoio dos seus parceiros europeus, embora tenha recusado responder à questão de saber se os países da Europa de Leste ou os Estados Bálticos também tinham demonstrado o seu apoio.

E disse acreditar que na base da decisão dos Estados Unidos há uma conceção diferente do papel da China na geopolítica mundial.

Os Estados Unidos têm “uma estratégia muito conflituosa” com a China, enquanto a França, e a Europa em geral, entende que existe “uma disputa” com o gigante asiático na qual a soberania de cada parte deve ser respeitada.

A relação da Europa com a China, explicou o ministro, baseia-se num tríptico: “é um parceiro em algumas questões (como as alterações climáticas), um concorrente em questões como a tecnologia e o comércio, e um rival tendo em conta o seu rearmamento e a sua monopolização perturbadora do Mar do Sul da China”.

Portugal expressa solidariedade com França e diz que Austrália “furou compromissos”

Augusto Santos Silva disse, em declarações à agência Lusa, no final de uma reunião informal de ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, em Nova Iorque, que o bloco europeu assumiu uma posição comum de solidariedade com a França.

“Na generalidade, nós próprios exprimimos a nossa solidariedade com a França, que de facto não foi tratada com o respeito devido neste processo”, disse o ministro português, acrescentando que “manifestamente, a forma não foi aquela que devia ser ter sido seguida”.

“Em relação ao conteúdo, também, a Austrália tomou uma decisão bastante discutível”, acrescentou o chefe da diplomacia portuguesa, que na segunda-feira de manhã teve um encontro bilateral com a homóloga australiana, Marise Payne, em Nova Iorque, durante a semana de alto nível da ONU

“É muito importante que os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Europeia estejam o mais possível alinhados nas suas estratégias para o Indo-Pacífico. E por isso devemos todos evitar gestos que perturbem essa unidade”, declarou o ministro português.

“A preocupação portuguesa é que estes últimos acontecimentos não perturbem o alinhamento entre Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia, que me parece tão necessário para que o equilíbrio geopolítico na região do Indo-Pacífico seja reforçado”, detalhou ainda Augusto Santos Silva.

Segundo o chefe da diplomacia portuguesa, as consequências da aliança trilateral AUKUS “estão à vista”, a nível diplomático e político, com “elementos de confiança que se perderam ou saíram enfraquecidos destes acontecimentos”.

Relativamente à reunião bilateral entre Portugal e Austrália, o ministro português fez uma “troca de pontos de vista” sobre esta situação com a homóloga australiana e analisou as relações bilaterais, que considerou serem “excelentes”.

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