Tina Lam e Michael Cheng tornaram-se proprietários da Presidio Terrace, uma rua de São Francisco (EUA), em Abril de 2015. A urbanização deixou de pagar impostos durante 30 anos e os espaços públicos da rua, com várias mansões, foram colocados em leilão. Lam e Cheng pagaram 90 mil dólares e, agora, querem rentabilizar a sua aquisição, nomeadamente com a oferta paga dos espaços de estacionamento disponíveis na rua - aos seus habitantes ou a outros da zona.

Os residentes souberam do caso e pretendem impugnar esta acção, numa audiência em tribunal que vai decorrer em Outubro próximo. Este é apenas um exemplo de como as cidades estão a evoluir para modelos que pouco têm a ver com a gestão urbana tradicional, centrada no município mas procurando novas formas de captação de receitas para as suas despesas.

As cidades estão igualmente a evoluir para modelos concorrentes entre si, como são exemplos recentes em Portugal o estabelecimento da conferência tecnológica Web Summit (retirando-a à irlandesa Dublin) ou o caso da Agência Europeia de Medicamentos, com Lisboa e Porto a confrontarem-se para obter a sua sede.

Em 2011, um estudo apresentado por José Poças Esteves, presidente da SaeR e da Companhia Portuguesa de Rating, concedia que "quem concorre no quadro global são as cidades, não os países". Como "cada uma das cidades tem a sua micro-geopolítica", elas têm de se "afirmar como novo centro de racionalidade estratégica". As cidades "terão um papel determinante na mudança do modelo de desenvolvimento da economia portuguesa que será imposto, inevitavelmente, pela insustentabilidade do modelo actual".

Esses modelos, assim como os paradigmas da gestão urbana, têm sido alterados radicalmente. A visão "top bottom" do Estado para as cidades - que deixou muitas de fora, nomeadamente no interior -, passou ainda pelo modelo regional que também não funcionou.

Veja-se o caso de Steve Lewis, CEO da Living PlanIT, que se empenhou em colocar no norte de Portugal uma "cidade inteligente". Em 2010, a sua empresa anunciava um investimento de 10 mil milhões de euros para ter o PlanIT Valley concluído até 2015, em Paredes, com 12 mil empresas instaladas e 110 mil investigadores no local. O Projecto de Interesse Nacional, lançado com a Cisco, previa ser "a primeira cidade do mundo em que a tecnologia está presente desde a construção dos edifícios e dos espaços, o que cria novas oportunidades a nível da energia, inovação e formas de interacção entre as pessoas". A falta de financiamento levou a empresa a optar por outras soluções tecnológicas e o projecto nem sequer aparece agora no seu site.

O PIB do estado de Nova Iorque é maior do que o da Espanha ou da Coreia do Sul

Um outro modelo é defendido por Rodrigo Tavares, fundador da consultora Granito & Partners, que reclama a atenção à "paradiplomacia" nas relações internacionais, quando cidades e Estados as estão a gerir a um nível global. O também técnico do World Economic Forum (WEF) apontava no ano passado que "as cidades são centros económicos e políticos. O PIB do estado de Nova Iorque é maior do que o da Espanha ou da Coreia do Sul. Na América Latina, o estado de São Paulo só por si é mais rico do que a Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia combinados. [A cidade de] Guangdong na China é mais abastada do que a Rússia ou o México".

A consciência deste poder (ou o desejo do mesmo) tem levado cidades a apostarem na diplomacia internacional. Tavares exemplifica como a cidade canadiana de Alberta "tem 12 escritórios na Ásia, Europa e Américas", enquanto cidades como a sueca Gotemburgo, a polaca Lodz ou a inglesa Liverpool têm representações em Bruxelas para "aproveitarem as oportunidades geradas pela União Europeia".

No ano passado, reconhecendo a necessidade de "enfrentar desafios locais resultantes de problemas globais", cerca de 60 presidentes de câmaras mundiais criaram o Global Parliament of Mayors, de que apenas Cascais faz parte.

A questão é que as cidades raramente se aventuram nos "problemas globais", mesmo sabendo o impacto que estes podem ter a nível local. A zona de conforto em assuntos como habitação, saúde, exclusão social, pobreza, transportes, lixo, turismo, cultura ou marginalidade e segurança evita a discussão e o alinhamento com outras cidades ou regiões ou com o próprio Estado sobre uma determinada temática "onde não têm jurisdição".

"Homo Urbanus"

"Pela primeira vez na história" os próximos anos vão ter "uma maioria de seres humanos a viver em vastas áreas urbanas, muitos em megacidades e extensões suburbanas com populações de 10 milhões ou mais" pessoas, escrevia Jeremy Rifkin em Dezembro passado no Washington Post.

Este "Homo Urbanus" diferencia-se daquele que há dois séculos conhecia "200 a 300 pessoas na sua vida. Hoje, um residente na cidade de Nova Iorque pode viver e trabalhar com 220 mil pessoas num raio de 10 minutos da sua casa ou escritório".

O presidente da Foundation on Economic Trends lembra que apenas Roma teve uma população de um milhão de pessoas antes do século XIX e que Londres só ultrapassou esse número em 1820. "Hoje, 414 cidades ostentam populações de um milhão ou mais". Rifkin alerta para um outro lado desta urbanização, "o desaparecimento da natureza", nomeadamente das espécies animais em espaço urbano.

Em paralelo, o facto de as cidades aumentarem o número de habitantes - nomeadamente pelo turismo ou incentivos fiscais - não significa que os moradores interajam, se ajudem, falem ou se preocupem com a vizinhança. Este é um tema particularmente sensível para as populações mais idosas, doentes ou com dificuldades de locomoção.

Gerir desafios actuais a pensar no futuro

As tecnologias de comunicação podem ajudar a diminuir a falta de comunicação entre os seres humanos mas não resolvem todos os problemas da convivência social. Isso não impediu as empresas tecnológicas de afrontar este problema, disponibilizando soluções integradas para as cidades e dinamizando o termo "smart city" ou cidade inteligente. O interesse foi tão intenso que a IBM pediu em 2009 o registo da marca "smarter cities", que lhe foi concedido dois anos depois.

A par com esta tendência mais interessada no negócio, de que surgiram inúmeros estudos e relatórios, os municípios começaram igualmente a olhar para o potencial de uma gestão integrada dos seus recursos.

O crescimento demográfico e urbano, o impacto social das decisões políticas a nível citadino ou o interesse dinamizado pelas Nações Unidas sobre o impacto futuro das megacidades levou ao aparecimento de estudos fundamentados sobre estas matérias.

Em 2013, por exemplo, o governo inglês publicou o "Future of cities" que actualizou com o objectivo de antecipar "as oportunidades e os desafios que as cidades do Reino Unido enfrentam nos próximos 50 anos".

A constatação para esta atitude é simples: "o futuro do Reino Unido está fortemente ligado ao das suas cidades" e pretende-se dar aos decisores políticos locais "provas, ferramentas e capacidades necessárias para suportar decisões políticas no curto prazo para obter resultados positivos para as cidades do Reino Unido no longo prazo".

No ano passado, também o WEF divulgou a "Inspiring Future Cities & Urban Services - Shaping the Future of Urban Development & Services Initiative", considerando que a tecnologia não é uma solução milagrosa para os problemas urbanos, apontando a necessidade de "as cidades transformarem aspectos de planeamento, governação e regulatórios", incluindo os riscos das parcerias público-privadas.

Sem propor uma solução generalizada, o WEF "identifica um processo estruturado no modelo de 'maturidade da cidade' que as cidades em todo o mundo podem usar para acelerar o desenvolvimento urbano", bem como modelos de negócio e tecnologias emergentes que podem ter impacto no tecido local.

Nas suas conclusões de como atrair talentos e capital, o WEF destaca que uma cidade deve "ser estável mas não estagnada", "estimular e aceitar a inovação" ou a colaboração entre todas as "secções da sociedade", a criação de um ambiente propício aos negócios e que os líderes devem ser "visionários e pragmáticos" por forma a atingir "a transformação desejada" para o seu município.

Olhar para o passado a presumir o futuro

As cidades tendem a renovar-se mas muitas vezes estão presas a um passado do qual é difícil desligar. A capital portuguesa teve a recente exposição "A Lisboa que teria sido" que, como escrevia o site O Corvo, contava "a história de uma cidade que, ao longo dos séculos, perseguiu um sonho de uma certa monumentalidade, aqui e ali projectada, mas quase sempre abandonada" pela "falta crónica de dinheiro".

O regresso ao passado ocorreu também em Manchester. Sobre a exposição "Making Post-war Manchester: Visions of an Unmade City" inaugurada no ano passado, Martin Dodge, do departamento de geografia da Manchester University, afirmava como "hoje falta ambição ao desenvolvimento urbano", por contraponto ao que sucedia nos anos 60 do século passado.

Olhar para o passado pode permitir antecipar necessidades futuras, escrevia em 2016 na Finisterra - Revista Portuguesa de Geografia, Horacio Capel, professor de geografia humana da universidade de Barcelona. "Pensar a cidade do futuro deve partir do reconhecimento de que o futuro depende de nós e devemos apresentar alternativas em relação aos nossos desejos sobre a cidade".

Um novo "espaço urbano" deve focar-se nas pessoas e fazer "desaparecer as ineficazes e insustentáveis formas e funcionalidades da cidade dos séculos anteriores". Ora este tipo de declaração (e de acção de ruptura) nem sempre é querido pelos cidadãos, pelos autarcas ou pelos interesses económicos instalados.

Capel clarifica que "o futuro está a ser pensado por muitos neste momento e há muitos políticos e técnicos que tomam decisões para o configurar de uma determinada maneira", reclamando a intervenção dos cientistas sociais e dos cidadãos neste debate. Nesse sentido, acompanha as recentes declarações de Dan Hill, da consultora inglesa Future Cities Catapult, que afirmava à BBC como "serão os cidadãos inteligentes os que farão as cidades inteligentes".

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