No meio de muitas narrativas e de comentários políticos, e para compreender melhor o que se passou no dia de ontem, proponho uma leitura desta eleição partindo dos votos e das diferenças que encontramos nos resultados eleitorais entre diferentes concelhos. E proponho três perguntas:

  1. Será que isto significa que a pandemia não impediu eleitores de votar?
  2. Em que forças políticas Marcelo Rebelo de Sousa capitalizou votos?
  3. Onde encontramos o voto do Chega?

A primeira ideia está relacionada com a abstenção no território nacional. Esta eleição tinha tudo para bater os piores recordes: uma longa tendência da diminuição de participação; uma reeleição, o que nas presidenciais costuma desincentivar o voto; e para completar o quadro, a pandemia poderia levar muitos eleitores a ficarem na segurança do seu lar. Numa meia surpresa, a participação no território Português em 2021 foi de 45% (um recorde negativo, é certo), mas não ficando tão atrás dos cerca de 50% da eleição de 2016. Será que isto significa que a pandemia não impediu eleitores de votar?

Média da diferença da participação eleitoral nas presidenciais de 2021 e da participação de 2016, por município, agrupada por incidência de casos Covid. Fonte MAI e DGS

O Gráfico 1 mostra a diferença média da taxa de participação, dividindo os municípios pelas categorias de casos por Covid-19 acumulados (fonte DGS), e desenha claramente uma relação negativa entre infetados e ida às urnas. Quando comparado com 2016, a participação eleitoral nos concelhos com um menor número de casos acumulados foi superior em 2021. Em média mais cinco pontos percentuais (p.p).

Nos concelhos com mais infectados, a participação vai diminuindo. Sendo que nos municípios de risco extremamente elevado, a participação diminui em média em 7,5 p.p. Assim, podemos concluir que a pandemia afectou a participação eleitoral, mesmo não se cumprindo os piores cenários previstos.

A segunda pergunta: Onde ganhou votos Marcelo Rebelo de Sousa, que passou de reunir 51,99% dos votos em 2016 para  60,76% em 2021?  No Gráfico 2 apresentamos a diferença de votos do Presidente reeleito entre as duas eleições (no eixo horizontal) com a percentagem de voto no PS nas legislativas de 2019 (no eixo vertical), por município. O gráfico demonstra que, tendencialmente, foi nos municípios que votaram mais no PS nas legislativas de 2019 (situados mais alto no gráfico), onde Marcelo conseguiu um melhor resultado na eleição de ontem (situados mais à direita no gráfico). Ou seja, parece que Marcelo conquistou sobretudo o voto de socialistas. 

Diferença de voto em Marcelo Rebelo de Sousa nas presidenciais de 2021 e de 2016 e percentagem de voto no Partido Socialista nas eleições legislativas de 2019, por município. Fonte MAI.

A terceira questão é dupla: onde encontramos o voto do Chega? E de que partido parece vir este voto? Abaixo coloco três mapas representado a percentagem de votos no candidato André Ventura nesta eleição, bem como a média dos resultados eleitorais do PCP e do PSD mais o CDS-PP na última década.

André Ventura teve uma maior proporção de votos no interior do país, sobretudo no interior alentejano e na região centro. E teve menos votos no litoral, sobretudo na Área Metropolitana do Porto. Não deixa de ser surpreendente que partido bastante recente (fundando em 2019) conte com um apoio expressivo em diferentes pontos do território, o que não é verdade nos primeiros anos de outros partidos que emergiram nas últimas décadas, como o BE (no final dos anos 90) ou o PAN (depois, em 2009).

Mas não é claro de onde veio esse voto. A tese da transferência de voto comunista no Alentejo para o Chega não parece verificar-se. Os concelhos alentejanos onde André Ventura encontrou mais apoio são aqueles que na última década votavam menos no PCP. Por outro lado, não parece que o Chega substitua os dois partidos tradicionais da direita, não tendo grandes resultados no Norte e Centro mais tradicionalmente de direita.


António Luís Dias é investigador de Ciência Política no ICS — Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e no IPRI-NOVA - Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa.

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