A frota dos sete barcos que compõe a 13ª edição da Volvo Ocean Race (VOR) está em Newport, Estados Unidos da América. Cumprida a 8ª etapa da regata à volta do mundo, mais de 15 dias depois dos velejadores terem partido de Itajaí, Brasil, a tripulação aproveitou uns dias de descanso antes de voltar “ao trabalho” e os barcos foram sujeitos a uma inspeção. Cardiff, País de Gales, é a próxima paragem.

Desengane-se, no entanto, quem pensa que para as sete equipas foi um momento de pausa. É que se os “artistas” que dão a cara se retiraram, por instantes, do palco, em cena entrou uma outra equipa (de terra). Entrou, não. Já lá estava, tendo começado a trabalhar uns dias antes dos homens e mulheres do mar terem chegado aos EUA.

O SAPO24 rebobina o filme da regata à volta do mundo até Itajaí. Porque grande parte do sucesso desta travessia do Atlântico Sul para o Atlântico Norte está assente no que foi pensado e tratado em terra firme na localidade brasileira. Na viagem no tempo e no espaço levantamos o véu sobre todo o trabalho da “outra” equipa que viaja pelo ar e participa, em terra, na mais dura regata à volta do mundo, deixando espaço para que os velejadores se foquem somente nas rotas, no manusear das velas, em puxar cabos e enfrentar tempestades e dias sem vento de um porto para outro.

A agente de viagens e empregada doméstica

“Chego três dias antes dos velejadores e saio no dia seguinte a partirem”. Tiphaine Turluche é responsável “por tudo o que mexe”. Logística, trocado por miúdos. “Damos conforto e descanso aos outros”, sumariza. Outros, entenda-se, em especial os velejadores, mas também familiares e toda a equipa de terra da Dongfeng. “Queremos que não se preocupem onde vão jantar, com a mala ou onde lavam a roupa”, exemplifica.

Tiphaine Turluche créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Neste barco de responsabilidades é preciso tratar de vistos, em número de 250, “por causa dos chineses”, e garantir “hospedagem”, em primeira instância, para as “44 pessoas que pertencem à equipa”, número que duplica em cada paragem da regata por causa dos familiares.

Francesa, de 29 anos, a viver em Lorient, começou a trabalhar em agosto de 2016, mais de um ano antes da prova arrancar de Alicante, Espanha, em outubro de 2017. “Nos primeiros três meses, em Lisboa, só reservei hotéis”, recorda. Certificou-se de tudo, “como uma agência de viagens”. A experiência nestas andanças deu-lhe uma folga. Não foi preciso “ir a todas as paragens”, frisa. Prefere apartamentos a hotéis, por ser mais parecido com o que “temos em casa”. No Brasil, escolheu, por exemplo, a Praia Brava, a 8 km de distância do campo de regatas. “Envolveu fazer um shuttle diário, mas há um equilíbrio”, disse Tiphaine.

A cozinheira que recorda os sabores da mãe e da avó

Na cozinha da Pousada Ondas da Brava, na Praia Brava, Marine Cerbelle, de avental colado ao corpo, uma colher na mão, olhos e nariz nos tachos e panelas, prepara as refeições. Há “salsichas, galinha curry e vegetais”, descreve.

“Aqui ninguém entra”, diz com um sorriso. Mas “podem olhar”, informa esta “mulher na cozinha”, que procura deixar “todos felizes”. Felizes com uma aproximação à comida de “mãe e de avó ao mesmo tempo”, solta uma gargalhada. A tarefa de agradar a gregos e troianos não é fácil numa equipa de várias nações. “Não há comida especial. Estiveram na base da equipa em Lorient (França) e aprovaram”, recorda a chef, que se estreia a acompanhar, pelo ar, a equipa que está a dar a volta ao mundo de barco.

Marine Cerbelle créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Marine aterrou em solo brasileiro dois dias antes da chegada do VO65 chinês. Preparou três refeições por dia para 40 a 50 pessoas. “150 refeições/dia”, contabiliza. Ali, como em outros lados, adquire os produtos em supermercados. “Não vou aos mercados se não domino a língua do país onde estou. Não arrisco”, avisa. Embora tente encontrar “coisas novas” e mude, por vezes, “a forma de cozinhar os vegetais e as especiarias”, a maior parte do tempo opta por manter alguma “rotina no que comem”, relata.

Um contentor que vira escritório...

Em cada porto há um contentor que serve de escritório. Ali trabalham velejadores – como Carolijn Brouwer e Pascal Bibégorry, Bruno Dubois (diretor da equipa) e equipa de terra, e com Neil “Albert” Graham, diretor técnico, Graham “Gringo” Tourell, capitão do barco e Neil Maclean-Martin, Humam Performance Manager, à cabeça.

Entre franceses, kiwis (neozelandeses), canadianos, holandeses, ingleses e australianos, a língua inglesa é rainha. “Um kiwi, um francês e um chinês têm formas diferentes de olhar para a vida. Morreremos menos estúpidos a trabalhar assim”, reconhece Bruno Dubois, descrevendo o ambiente de Nações Unidas da equipa.

Com um computador à frente, “Gringo” passa a pente fino todos os pormenores. Faz um check-list de velas, cabos, sistema elétrico e quilhas, fala do estado do barco depois de ir “à inspeção”, em doca seca, anuncia umas “valentes pinturas”, desenvolve sobre o “sistema de segurança” e o material “pendente, por arranjar”. “A minha função é de check, de arranjar e preparar as coisas”, informa. O trabalho não se fica por terra. “Faço de skipper do barco para ver se está tudo ok. Como se fosse um test drive”, sublinha.

Graham “Gringo” Tourell créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

O check-up ao estado do barco passa por outro olhar clínico. “Não sou o homem que arranja o barco. Vejo a manutenção”, sorri Neil “Albert” Graham, diretor técnico. “Retomar o barco ao estado mais próximo com que iniciou a regata” e executar o “trabalho nos sistemas para se manterem fiáveis”, é a tarefa a cada paragem.

Cada cidade que alberga a regata tem um tempo diferente de trabalho. “Em Itajaí trabalhámos 7 dias por semana. Há paragens em que trabalhamos 12h por dia. É intenso. Não era suportável por um período longo de tempo”, assume Neil “Albert”, que depois de três voltas ao mundo como velejador e três delas como assistente, reconhece hoje estar “demasiado velho” para navegar.

...e outro que vira armazém de comida

A uns metros da base da equipa, num emaranhado de contentores, há um retângulo de aço transformado em armazém gastronómico. No interior, Pascal Bidégorry, navegador, cola o nome em etiquetas: 18, tantas quanto os dias de previsão para a etapa em causa (Brasil-EUA). Faz o racionamento da comida servida em embalagens.

Em cada paragem, os velejadores, um a um, discutem com Neil Maclean-Martin, o preparador físico, o menu das três refeições. Há cereais, embalagens de ovos mexidos, massa pene, galinha curry, porco, salmão, strogonoff, veado, bolonhesa, barras de chocolate, proteínas e fruta. Da caixa com o número 27 saem snacks e batatas salteadas.

Habituado a andar no mar, Pascal, apreciador de beef strogonoff, torcia o nariz ao que lhe punham à frente no passado. Diz que hoje “até há boa comida” — comida essa testada meses antes, em terra, em Lorient, e então classificada de “sim, não e talvez”.

Pascal Bidégorry créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Neil MacLean-Martin trata "do físico e da barriga”. Responsável pela performance de todos os que entram nesta aventura náutica, faz as contas das calorias gastas e as que cada um dos velejadores necessita de ingerir. A combinação variada de comida “pode motivar os velejadores”, começa por explicar. “Se não, paramos de comer, tão simples quanto isso”, adverte.

Há “três refeições principais e três snacks para complementar”. E um saco por velejador. “É importante que [a comida] esteja bem acondicionada, se não pode ficar esmigalhada e lá se vai o desejo de comê-la”. Levam também o kit de papel higiénico, queijos, comida seca sem ser de baixas gorduras porque “o que necessitas é de gordura agradável ao paladar. Queremos que saiba a gordura”, atenta.

“Temos que fazer escolhas claras entre o que necessitam de comer e o que querem comer. Quanto mais perceberem o que necessitam de comer, mais querem comer isso. Porque sabem que se sentem melhor”, remata. Queixas? “Nunca é a primeira escolha, mas sei que estou a dar-lhes o que necessitam”, frisa. Compara a “uma dieta detox”. “É boa comida, com bons ingredientes, boa apresentação, sabe a comida de bebé” descreve. “É tudo mole, comem com colher e tentamos pôr algo estaladiço para manter os sabores diferentes”, continua.

Neil MacLean-Martin créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Física e mentalmente “não há nenhuma regata que se compare à VOR”, alerta. Neil socorre-se de números para o comprovar: “nas regatas mais longas, os mais dotados fisicamente queimam 8 mil calorias dia”, aponta.

Já “os stopovers são oportunidades para mitigar algumas das consequências físicas da perna. Aí o que fazemos é relançar a sua recuperação”. No reset ao ritmo corporal entra o “descanso, sono, 30-35 horas por semana, a comida e a recuperação, para começarem a treinar outra vez”. Em suma, o programa é “tudo sobre disciplina: o que comem, como treinam e como dormem e recuperam”, resume Neil MacLean-Martin.

O treino é variado e adaptado ao local onde estão. No Brasil envolveu uma aula de remo indoor, por exemplo. “Quanto melhor qualidade de treino que conseguimos durante a paragem e quanto mais depressa conseguirmos pô-los a treinar, mais fácil é recomporem-se e melhor mitigamos a deterioração geral”, explica.

Qual o grau de preparação física ideal para alguém que se aventure 9 meses na travessia dos oceanos? “Não olhamos para picos de força ou endurance. Olhamos para a robustez. Completa robustez. Eles vão ser sacudidos dentro do barco”. Neil utiliza a imagem de um jogador de râguebi. “Alguém capaz de levar um choque, ir ao chão, levantar, manter o ritmo e recuperar. E continuar. Descansar um par de horas ou saltar o período de descanso, 8 ou 10 horas sempre a trabalhar, a produzir força na mudança de velas e em cada manobra e continuar outra vez e outra vez”, descreve.

O manda-chuva que antecipa tempestades

Ao primeiro olhar, o gigante holandês Marcel Van Triest, careca e de orelhas grandes, tem mais figura de cientista do que de velejador, mas já cumpriu este último papel por cinco ocasiões. Depois, deixou essas andanças e desenhou planos para outros se aventurarem no mar, por exemplo, no Troféu Jules Verne (Banque Populaire) ou no Le Figaro.

Marcel Van Triest créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Fala do passado, do tempo em “não havia uma equipa de terra”, em que a manutenção “era feita por nós”, era “mais duro, mais primitivo”, até “nas roupas”. Na altura, iam do “Uruguai à Austrália”, “seguiam em frente, sem satélites, com falhas de rádio”, recupera. “Falavas uma vez por dia”. A ausência de resposta podia “ser falha de baterias, esqueceste-te ou afundaste-te”, recorda. “Antes, os barcos desapareciam por uns dias e era...ok”. Hoje, tudo é diferente. “Agora estamos debaixo de um vidro em que a organização sabe tudo e em segundos. Big brother is watching you [o big brother está a olhar para ti]”, avisa.

Marcel veste a pele de meteorologista especialista nos Mares do Sul. Não se assume como os olhos e ouvidos da equipa. “Não é bem assim”, afirma pausadamente.

Tem a sua base em Palma de Maiorca, Espanha. Regressa “à sua NASA” a cada paragem. Antes dos barcos partirem, junta-se à equipa onde ela estiver e lê os dias que se avizinham. Na regata que ligou o Brasil aos EUA olhou para “o histórico dos últimos 20 anos”, entre Pressões Altas e Baixas Pressões, para “as correntes no Brasil e Equador nas últimas três regatas” e pôs “um olho no Canadá” para dissipar como uma Pressão Alta “pode influenciar as últimas 24h antes da chegada a Newport.

Sobre previsões, diz que o melhor que se consegue “é 7 a 10 dias”. Mas tudo pode mudar. Tempo para falar de mudanças climáticas. “O que é mais chocante é a velocidade. Mudanças acontecem há séculos. Agora o que me preocupa é serem são tão rápidas”, avisa. “Vejo hoje em dia cada vez mais temperaturas extremas. Recordes são batidos e todos os anos temos esse headline: dia mais quente ou mais frio”.

Quando os barcos deixam as cidades para trás seguem a rota “enviam-me mensagens: estamos a ver uma grande nuvem. Tento ver a temperatura, vento e tudo o mais”, relata. “[o risco] é dizeres que não há problema, podem seguir. E se falharmos?”, questiona.

“Todos os desportos são sobre a disciplina. Em especial a vela”

Carolijn, velejadora holandesa que viveu a infância no Brasil, ao contrário do resto da equipa, não regressou ao país onde habita. Ficou na sua “segunda casa”. A presença da família (mãe e filho) a seu lado, na pousada em que equipa ficou instalada, serviu de balão de oxigénio.

Chen “Horace” Jinhao créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Chen “Horace” Jinhao, velejador chinês que repete a viagem de circum-navegação, admite que “antes da corrida não temos tempo para preparar. O teu corpo está confortável”. Sabe onde pode e quer ir. Diz-se “perfeccionista” e quer “ganhar sempre”. E quando se fala na vitória de uma regata com nove meses de duração, o individualismo perde face à “necessidade de um trabalho de equipa”, frisa.

“Todos os desportos são sobre a disciplina. Em especial a vela. Para estar em forma temos que estar preocupados com o que comemos, como treinamos e como nos comportamos a bordo”, afirmou Charles Caudrelier, skipper francês da Dongfeng.

“Antes da regata, tratamos muito do físico porque sabemos que são noves meses e que só vamos perder peso”. A recuperação é feita a cada paragem. “É difícil prepararmo-nos mentalmente antes. Somos uma equipa. E não é por teres o melhor que fazes uma melhor equipa. Temos que andar em conjunto. Esse é desafio. Andar em conjunto com seis nacionalidades e cada qual com a sua forma de estar”, assegura.

Diz que “não é uma luta contra a natureza”, mas antes um jogo com a dita. “Jogamos com as nuvens, com os ventos, ondas, gelo, montanhas”, elenca. “Antes da regata não estás em prova. Mudamos quando estamos sob pressão. As pessoas mudam”, reconhece. “Quando começas não és o mesmo quando terminas”, finaliza.

* Os jornalistas viajaram para a Itajaí (Brasil) a convite da Dongfeng Race Team

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