Ora, após a exibição desta noite, é fácil depreender que, tendo em conta que ainda está a começar e a dar os primeiros passos pelo relvado de Alvalade, o brasileiro Raphinha, aos 21 anos, está a caminhar para o júbilo das bancadas sportinguistas. Pelo menos, assim foi esta noite, no jogo de estreia do Sporting CP na Liga Europa, onde os leões receberam e bateram os azeris do Qarabag por 2-0, em jogo da primeira jornada, no Grupo E.

Foi um dos melhores em campo e um daqueles que mais se destacou ao longo dos 90 minutos. O jogo, esse, não será muito difícil resumir, pois na sua quase totalidade o Sporting CP demostrou ter bastante mais qualidade que o seu adversário desta noite.

E, mesmo ainda antes da bola rolar, o Playmaker Stats dava conta que a equipa leonina nunca venceu no primeiro jogo da competição quando este aconteceu em Alvalade. Isto é: em dois jogos, não houve vitória, mas empate com o FC Basel (2012/13) e derrota frente ao Lokomotiv de Moscovo (2015/16). Só que esta noite a exibição do conjunto português foi segura, coesa e não permitiu que o ditado "não há duas sem três" se aplicasse. Nem se aplicou, nem esteve perto de acontecer.

Ao jogo, então.

Para começar, Peseiro mexeu na sua equipa-tipo. Frente ao Qarabag, o pentacampeão do Azerbaijão, o timoneiro da equipa da casa optou por dar a titularidade a Gudelj, que assim se estreava com a nova camisola, ocupando o lugar de Acuña; este, por seu turno, foi para a esquerda do quarteto que compôs o eixo defensivo. Regressado após uma paragem por lesão, Mathieu foi titular antes de ser traído pelo gémeo da perna direita, numa partida em que o técnico voltou a contar com o capitão Nani.

O jogo começou praticamente com Raphinha a cair na área. Alvalade pediu penálti, mas parece que o extremo brasileiro perdeu apenas o equilíbrio. Porém, estava dado o mote para o lance de perigo que se adivinhava e que aconteceu efetivamente apenas dois minutos depois, num livre perigoso marcado por Mathieu. Saiu com conta, peso e medida; ia bem colocado, mas Vágner, o guarda-redes que até já tinha passado por Portugal e que diz que as instalações do atual clube em nada devem aos nossos três grandes, voou e desviou para canto ao minuto 7.

Segue-se então uma fase em que os 'leões' conquistavam cantos sucessivos e onde havia muita correria para ganhar a bola o mais cedo possível, na zona do terreno mais adiantada possível. O Sporting CP apresentava as suas linhas bastante subidas, a pressionar bem à frente para aproveitar a falta de capacidade do adversário em sair da sua fase de construção.

Tirando um par de situações, o Qarabag mostrou sempre ter dificuldade para criar perigo. E quando o fez, foi à conta de erros dos próprios jogadores do Sporting. Num desses casos, Coates (27') perde a bola em zona proibida e Salin tem de sair aos pés do adversário azeri para evitar o primeiro da partida. No minuto seguinte, a equipa forasteira ia chegando à área do Sporting CP novamente com perigo, mas Battaglia, na raça, cortou o lance de contra-ataque. Foram duas jogadas seguidas em que os ‘leões’ perderam a bola na fase de construção e podiam ter dado mau resultado para os comandados de Peseiro.

Todavia, no final, aos 40', ia acontecendo o primeiro em Alvalade. Aos 34 anos, Mathieu tirou o coelho da cartola. Podia vir de lesão, mas fez questão de relembrar que começou a carreira no Toulouse, em França, na esquerda e foi precisamente lá que o francês fez um cabrito em Medveved e centrou rasteiro para o primeiro poste onde estava Montero, que tentou concluir a jogada de calcanhar. Foi apenas o ensaio — mais tarde iria fazer o movimento com resultados práticos.

Peseiro avisou que o Qarabag tinha um “jogo posicional” muito forte, mas a primeira parte terminou com um Sporting CP a dominar a partida. Foi superior em remates, nos cantos (7!) e no posse de bola. Golos, é que estava complicado. Era difícil passar pela agressividade dos defesas quando o jogo dos 'leões' pareceu assentar demasiado pelas faixas, com tentativas de cruzamento para um solitário Montero na frente. Os únicos cruzamentos que saíam com perigo eram aqueles que procuravam o espaço nas costas da defesa, ao primeiro poste.

Na segunda parte, parecia que ia ser mais do mesmo. Mais Sporting CP, mais domínio, o mesmo resultado. Só que não. Aos 54’ Raphinha marcou. Há destas coisas. Nani não estava a ser particularmente feliz e ainda que as más línguas digam que a velocidade já não é a mesma, o passe do português para o brasileiro é meio golo. Bruno Fernandes descobre o capitão dos ‘leões’ descaído na direita e este faz um passe a rasgar para o segundo poste, para o espaço, a prever que alguém só tinha que empurrar. Foi a sua primeira assistência e o segundo golo de Raphinha esta época (já tinha marcado no domingo, ao Marítimo, para a Taça da Liga).

O técnico do Azerbaijão — sim, para além de orientar o Qarabag também é o técnico nacional da seleção de Baku — ainda tentou mexer nas peças do seu xadrez azeri, com as trocas de Medvedev por Huseynov, de Zoubir por Abdullayev. Não adiantou de muito, pois com exceção de uns lances em que a bola foi enviada quase sempre para fora da órbita da baliza de Salin, o Qarabag não materializou as oportunidades que surgiram. Nomeadamente quando Gudelj, aos 56', quase que entregou o ouro ao bandido. Contudo, o avançado azeri foi demasiado perdulário num momento em que um ponta-de-lança não pode falhar. Salin, mais uma vez, bem.

Depois foi "só" controlar o jogo e dar oportunidade para que mais um jovem brilhasse.

Perto do fim, ao 88', Jovane Cabral, acabadinho de entrar e logo na sua estreia em competições europeias, marcou o golo que descansou Alvalade. Insistência de Montero na esquerda, bola recuperada, um belíssimo túnel de calcanhar feito ao defesa azeri e entrega a bola até ao homem do jogo, Raphinha, que depois assistiu Jovane, que só teve de encostar.

Em suma, Raphinha desbloqueou aquilo que parecia difícil e Jovane tranquilizou o coração mais assustado. Todavia, fica a sensação que o adversário era frágil e que com jogadores de outra qualidade o clube da casa podia ter registado mais problemas — especialmente se Innocent Emeghara tivesse outro requinte técnico. Guerrier, o defesa-esquerdo, esteve na outra calha da moeda; boa primeira parte e talvez o melhor da sua equipa. Porém, ainda que assim seja, pode dizer-se que foi uma vitória justa da equipa portuguesa e que serviu para começar a prova com o pé direito.

Para além disso, esta vitória traz consigo um dado curioso: o Sporting CP qualificou-se sempre que venceu o 1.º jogo na Liga Europa. E segue invicto na temporada (cedeu apenas um empate, somando cinco vitórias nas restantes partidas, no somatório todas as competições).

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso, ó meu?

O reforço Gudelj, na primeira titularidade ao serviço do Sporting, deu brinde… E Innocent Emeghara foi mesmo inocente e não marcou. Salin defendeu e os colegas tranquilizaram o sérvio. Ainda assim, para próxima, talvez seja a melhor não fintar à porta da sua grande área. É que o avançado poderá não ser tão inocente e a coisa dar para o torto. 

Raphinha e Montero, a vantagem de ter duas pernas

1) Rafinha andou endiabrado. Arrancadas, lances em que aplicava túneis aos adversários descaído na direita, roubos de bola... E, isto, no primeiro tempo. Depois, no segundo, marcou o golo. A jogada (passe) vale quase meio golo, mas é certo que alguém tem de estar lá para encostar. E o brasileiro correspondeu à chamada de Nani.

2) A jogada de Montero no lance do segundo golo. Pois é. Pareceu que andou "a dormir" quase todo o jogo, mas depois aplicou um túnel de levantar a bancada. Um pouco à imagem daquilo que aconteceu no tento que inaugurou o marcador, onde Nani inventou uma belíssima assistência, aqui El Avioncito mostrou que o cheiro cafetero, quando este é bem tirado, é realmente dos mais saborosos.

Fica na retina o cheiro de bom futebol

E do cheiro do café sul-americano, passamos para o sabor da tradicional baguete francesa. A idade não pesa na hora de apresentar classe. A jogada de Mathieu é disso exemplo. E o seu livre bem colocado, aos 10', também. Acabou por sair lesionado, aos 73', mas é inegável que durante o tempo em que esteve em campo o francês foi um dos melhores jogadores a pisar o relvado de Alvalade nesta noite. Sereno e sem comprometer durante praticamente 75 minutos, bem mereceu as palmas vindas da bancada aquando a troca com André Pinto — que nem tempo teve para aquecer. Serve para relembrar que, antes do túnel de Montero, também existiram outros momentos de requinte. 

Nem com dois pulmões chegava à bola

Os pés de Innocent Emeghara ao minuto 24. Para quem não viu, relato que o jogador do Qarabag tinha caminho livre na frente para arrancar em direção à cara do golo; o passe foi bem executado, no tempo e momento certo. Só que... o pé não soube mais. Com um domínio de bola "daqueles", é seguro dizer que cinco pulmões e a ajuda da motorizada de Eliseu não chegavam para apanhar a bola depois daquela receção. Em boa verdade, convém dizer que se tratou de um "daqueles" domínios que servem para colocar os pelos eriçados e as veias da cabeça salientes a qualquer adepto do desporto-rei. Mas em particular ao seu treinador.


Artigo atualizado às 02:32

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