No último artigo dedicado ao tema falámos da proposta apresentada pela federação ‘Whole Game Solution’, ainda assim, e porque essa era a parte mais difícil de concretizar que a federação tinha em mãos, em paralelo, apresentou também o ‘English DNA’ - ‘O ADN Inglês’. Este projeto tem como principal objectivo revolucionar a formação em Inglaterra.

‘4 Corner Module’ - ‘O modelo dos 4 quadrantes’

‘O modelo dos 4 quadrantes’ passa por uma abordagem holística - que procura compreender um fenómeno no seu todo, abrangendo todas as partes - ao atleta e ao treino.

O objectivo principal da federação é lembrar aos treinadores que por detrás do ‘jogador’ está a ‘pessoa’ e que um não é mais importante que o outro. Como tal, e tendo a imagem acima como referência, se os ‘quadrantes’ psicológico e social forem  esquecidos no planeamento de treino, isso significa que o treino está focado apenas e só no ‘jogador’ (ou, em muitos casos, na equipa), e estaremos a desenvolver um atleta incompleto. A importância dada agora aos quadrantes psicológico e social deve-se ao entendimento de que a criança desenvolve certos atributos devido à sua forma de estar e de pensar. Uma criança, dada a escolher, opta por atividades que a façam sentir bem e em que se divirta, e quando o faz, tem tendência a progredir mais e de forma mais completa.

Analisemos, então,  os referidos ‘quadrantes’ e o que seria esperado em cada um deles.

Técnico

Desenvolver a técnica sem oposição, intensidade e de forma descontinuada em toda a duração do treino tem muito menos impacto na evolução do que a técnica que é desenvolvida através de um jogo em que a oposição ao atleta é realista, em que a intensidade lhe permita reproduzir momentos que se repitam em situações de jogo e onde a duração dessa tarefa permita repetição constante. Por muito que esta seja uma forma ‘natural’ para muitos que treinam diariamente, a maioria dos treinadores ainda realiza treinos com filas de espera, objectos estáticos a fazer de adversário e de intensidade muito reduzida, em que muitas vezes o tempo de espera entre uma repetição e outra é elevado. Os exercícios, sejam eles quais forem, devem ter sempre momentos de transição (ataque e defesa) e isso, por si só, obriga a que o realismo e a transferência da tarefa para o jogo estejam presentes. São estes conhecimentos que a Federação tenta transmitir aos treinadores para que se formem atletas de técnica superior.

Físico

A diferença dos pontos de maturação física e psicológica/emocional entre dois atletas com a mesma idade cronológica pode ser abismal. Por isso, os treinadores são alertados para o facto de que, eventualmente, dois jogadores da mesma ideia poderem precisar de estímulos e desafios completamente diferentes. É importante ter em mente que só porque um atleta domina o seu escalão etário por ter uma vantagem física sobre os seus companheiros ou opositores, não significa que o continuará a fazer dentro de poucos anos. O mais provável, aliás, é que não o faça. Além disso, permitir que um atleta passe anos a dominar o seu escalão é não só um erro como um desfavor que se faz ao atleta. O impacto psicológico e técnico é na sua maioria negativo, mas só se revelará anos mais tarde. O acompanhamento e planeamento psicológico terá que ser constante para que tal não aconteça; tem que estar presente no treino diário e interligado com os desafios do plano individual do atleta.

Social

Uma das principais razões que leva uma criança a começar a praticar qualquer desporto é a de poder partilhar essa experiência com amigos. Crianças com poucas ferramentas de socialização têm não só menos probabilidades de participar como também menos capacidade para experimentar, arriscar e assim sendo, evoluir. Não estamos apenas a falar dos atletas que são mais reservados ou que não têm grande capacidade participativa em algumas tarefas; estamos a falar dos atletas que deixam afetar as suas decisões por terem essas características sociais. A compreensão de que errar e participar nas decisões de grupo é fundamental para o seu próprio desenvolvimento (como pessoa e como atleta) é crucial nos anos de formação de uma criança. O que a Federação tenta mostrar aos treinadores é que ter ‘controlo’ e ‘poder de decisão’ sobre o próprio treino, exercícios, decisões de grupos, etc., é fundamental para o desenvolvimento da ‘pessoa’ e, por consequência, do atleta.

Psicológico

Ter um atleta que encara o treino e o jogo com uma disponibilidade competitiva elevada não é, à partida, negativo. Ter um atleta, principalmente em tenra idade, que encara o treino, o jogo e o seu desenvolvimento com uma atitude competitiva extrínseca poderá, na maioria das vezes, ser um problema. E o que distingue a atitude competitiva intrínseca da extrínseca? A distinção é feita através dos motivos pelos quais estamos a participar na tarefa, seja ela qual for. Se na intrínseca o atleta tem consciência de que a razão pelas quais está a fazer a tarefa são para o seu desenvolvimento, para que se sinta bem e para que se divirta, na extrínseca não é bem assim. Na intrínseca, muitas vezes vê-se o atleta a fazer coisas em que sabe que tem uma grande probabilidade de erro - porque tem consciência que o sucesso poderá demorar mas que, com repetição, adaptação e insistência, acabará por consegui-lo. Por outro lado, com numa atitude competitiva extrínseca, o atleta, perante o insucesso, acaba por não voltar a tentar, uma vez que acredita que a probabilidade de ter sucesso é mínima. Adicionalmente, a atitude extrínseca baseia-se nos fatores extrínsecos do jogo como o resultado (que na maioria das vezes significa muito pouco nos escalões de formação), enquanto que um atleta com uma atitude intrínseca se foca em si mesmo, desenvolvendo as ferramentas que mais tarde lhe permitirão lidar com as consequências de um resultado coletivo menos positivo e ganhando um leque de recursos sociais e psicológicos que lhe irão ser preciosos nos anos vindouros.

Resumindo, este processo pretende dar mais atenção aos ‘quadrantes’ sociais e psicológicos do que no passado, acreditando que serão estes a despoletar e definir a qualidade dos aspetos mais técnicos a desenvolver pelo atleta. Desta forma, o atleta terá mais capacidade crítica, traçará melhor os seus objectivos e, consequentemente, será melhor a longo prazo.

São muitas as teorias que se opõem a esta forma de treino e que continuam a utilizar os chamados processos 'tradicionais' de formação de ‘equipas’ e ‘jogadores’, sendo que isso, em sua opinião, formará melhores atletas. O treino tem espaço para todos e os resultados só se conhecem no fim do processo. Ainda assim, esta é a fórmula que a Federação resolveu desenvolver para formar melhores ‘pessoas’ e ‘jogadores’, ou seja, em última instância, melhores atletas.

Já aqui mencionei que tive o privilégio de observar de perto o final da formação do jogador do Tottenham e da seleção inglesa de futebol Dele Alli. Então na formação do MK Dons (actualmente na League 1), Dele Alli passou por estímulos e desafios constantes. Toda a sua formação foi baseada em colocá-lo em situações menos confortáveis, fazer o jogador perceber que a derrota e o erro têm papéis preciosos no processo de desenvolvimento da sua pessoa. Não só isso, o divertimento esteve associado a todo o processo de formação do atleta: ter confiança para sair da defesa até à baliza adversária sem ter que partilhar a bola era, de tempos a tempos, um dos desafios apresentados ao atleta, caso ele não o tentasse por iniciativa própria (o que, de resto, acontecia com regularidade). Ter que colocar a bola por entre as pernas dos adversário era outro dos seus passatempos preferidos, que sempre foram apoiados e estimulados pelo corpo técnico. Hoje, ainda em desenvolvimento, Alli é um atleta muito completo, com um potencial enorme, com uma estrutura mental capaz de suportar a pressão de jogar ao mais alto nível e, acima de tudo, é ele mesmo, não uma cópia de outros jogadores.

Muitos são os temas que poderiam ser discutidos e abordados e muito mais haveria a dizer sobre o próprio ADN inglês. Mas, no fundo, a base de desenvolvimento a que a Federação se propôs foi esta. Por exemplo, a minha filosofia de treino, apesar de ter uma base idêntica à do ADN inglês, acaba por ter foco em aspetos que crescem no dia a dia, no campo, com o passar das horas. Na verdade, e porque é baseada em experiências pessoais, a minha filosofia é única, tal como a de outro qualquer treinador.

Esta semana, na jornada dupla, o Chelsea já facilitou. Ainda assim, conseguiu conquistar pontos à concorrência, que também não fez melhor. Quanto a destaques, o embate entre Chelsea-Arsenal, já amanhã, dia 4, pelas 12:30.

Pedro Carreira é um jovem treinador de futebol que escolheu a terra de sua majestade, Sir. Bobby Robson, para desenvolver as suas qualidades como treinador. Tendo feito toda a sua formação em Inglaterra e tendo passado por clubes como o MK Dons e o Luton Town, o seu sonho é um dia poder vir a treinar na melhor liga do mundo, a Premier League. Até lá, pode sempre acompanhar as suas crónicas, todas as sextas, aqui, no SAPO 24.

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