Findada a bonomia natalícia e a farra de Ano Novo, o campeonato português retomou tendo como jogo forte uma partida onde nada estava decidido mas onde era proibido perder (mais) pontos.

Com a vitória do Benfica na véspera, o FC Porto não se podia dar ao luxo de se atrasar em Alvalade, aumentando assim o fosso para sete pontos de distância e deixando de depender de si mesmo para ser campeão. Já para o Sporting, o campeonato parece ser uma miragem, mas o segundo lugar não, e a nove pontos dos dragões, esta seria a oportunidade para não perder o comboio da Champions.

No entanto, se o ambiente de antecipação desta partida não se pautava exatamente por ser fervilhante pois não se tratava do embate entre dois candidatos ao título (restando-lhe apenas o seu cariz histórico), o passado recente entre as duas equipas fazia deste jogo uma prova de jogo para um dos intervenientes.

“Quem escreve a história do jogo somos nós. Cabe-nos escrever a história do jogo de amanhã [domingo] e não olhar para o passado. Queremos escrever uma nova história. E nada disso nos pode condicionar. Todos os segundos vão ser diferentes dos outros jogos.”

Foi com estas palavras que Sérgio Conceição anteviu o Clássico e sua tentativa de relativização não escondia que, não só o Sporting não perdia contra o FC Porto em Alvalade desde 2008, como Conceição nunca tinha ganho aos leões. Para piorar o cenário, na sua memória ainda deviam estar frescas as finais das Taças da Liga e de Portugal do ano passado (ambas perdidas nos penáltis para os leões).

Ou seja, não só haveria aqui o tónico para manter a distância pontual o mais curta o quanto possível do Benfica, como também uma certa questão de orgulho ferido a defender.

Para o Sporting de Silas, nem uma coisa, nem outra. Feita de inconsistência, esta época dos leões tem tido bons picos (vitória frente ao PSV por 4-0 na Liga Europa) como terríveis baixos (eliminação frente ao Alverca para a Taça de Portugal). Apesar de ainda se manter na Taça da Liga e na Liga Europa, no campeonato o objetivo do Sporting passaria apenas por tentar chegar-se o mais próximo do FC Porto sem perder pontos para o Famalicão.

Com os onzes praticamente na máxima força — Sporting pôde contar com Bolasie, despenalizado do seu castigo, e Danilo Pereira figurou no onze do FC Porto apesar de estar em dúvida por lesão — as duas equipas subiram ao relvado de Alvalade. Sem grandes lances vistosos e com um nível de jogo relativamente fraco, a história da primeira parte desta partida pode definir-se assim: se o Sporting começou a dormir, o FC Porto foi para o intervalo ensonado.

Ainda estavam as equipas a medir forças e a posicionar-se cautelosamente em campo quando os dragões, aos seis minutos, passaram para a frente do marcador. Num lance em que Ristovski, Coates e Mathieu ficaram os três parados enquanto colocavam Marega em jogo, o maliano avançou perante um Luís Maximiliano em contrapé e só precisou de fazer um controlo de bola desajeitado em direção à baliza para colocar o FC Porto na frente, pondo fim a uma seca tanto para os dragões como para o próprio Sérgio Conceição.

Em véspera de Dia de Reis, o Sporting tinha dado um presente ao FC Porto, que o aceitou de bom grado e o Clássico, que por si só de quente tinha pouco, ficou gelado para os adeptos leoninos.

Os pupilos de Jorge Silas tentaram reagir, mas a pressão da primeira linha do Porto (feita por Marega, Nakajima e Soares) impedia o Sporting de construir, resultando em muitos passes falhados, jogadas à queima e decisões imprevidentes, não chegando nunca a bola a Luiz Phellype. Já do lado dos dragões, a vontade em carregar não foi muita e o conjunto de Conceição também não protagonizou grandes lances de perigo.

No entanto, com o decorrer dos primeiros 45 minutos, as peças do xadrez foram mudando em Alvalade e o Porto, que mandava no jogo sem precisar de se esforçar, começou a ser encostado às cordas. Após a lesão de Pepe aos 25 minutos (substituído por Mbemba), os dragões apenas tiveram em Nakajima o seu lance mais perigoso (um slalom que fez pouco do meio campo leonino e terminou num vistoso remate a passar perto).

Com o Sporting a começar a subir as linhas — foram várias a bolas ganhas por Coates no meio campo do FC Porto —, as oportunidades começaram a somar-se, ainda que inconsequentes (Bruno Fernandes não esteve muito inspirado). Já os azuis e brancos começaram sucessivamente a perder bolas (Uribe e Danilo não funcionaram) e a demonstrar fragilidades, não conseguindo fazer uso da verticalidade de Marega perante a subida dos leões, mas também não mostrando grande solidez defensiva.

Foi assim que, numa bola mal despejada pelo guarda-redes Marchesin, Marcos Acuña ganhou o lance de cabeça, passando para Luiz Phellype, tendo o brasileiro deixado para Vietto. O argentino, temporizando o passe no limite, passou para o lateral seu conterrâneo e Acuña fuzilou a baliza do FC Porto num ângulo apertado.

Sporting CP vs FC Porto
EPA/RODRIGO ANTUNES

De um momento para o outro, os dados estavam lançados para a segunda parte, que começou quase exatamente como a primeira terminou, mas com uma diferença fulcral.

É que se na primeira parte, o Sporting marcou na única oportunidade de golo que teve, na segunda foi um arraial de desperdício de bradar aos céus. Ao poste, ao lado e por cima, Luciano Vietto foi o maior culpado dos falhanços leoninos, mas também Bruno Fernandes e Luiz Phellype mostraram pontaria desafinada. Se o setor defensivo do Sporting se estava a mostrar musculado, ao atacante faltou nervo.

Com isso, retorna o velho ditado escrito no início deste texto. Com o assomo ofensivo que demonstrou, o Sporting arriscava-se a ter goleado o FC Porto. Mas depois aconteceu Soares. Já desde os tempos em vestia a camisola do Vitória de Guimarães que o avançado brasileiro tem sido maldito contra os leões. Aos 73 minutos, num canto em que fugiu à marcação de Doumbia, Tiquinho atirou de cabeça e repôs a vantagem para os dragões, que assim se manteve até ao fim.

O lance foi contra a corrente de jogo, mas também teve o condão de reajustá-la, pois o Sporting foi se abaixo quando voltou a estar a perder. Mesmo com as entradas de Camacho, Plata e Jesé (tendo o espanhol apenas saído do banco para levar um amarelo despropositado), os leões só voltaram a discutir a partida num canto aos 84 minutos em que Coates (já a jogar a ponta de lança) atirou de cabeça à barra.

Do outro lado, por duas vezes Luis Díaz (que substituiu, e com grande nível, Nakajima) alvejou letalmente a baliza de Luís Maximiliano, mas o guardião leonino levou de vencida nas duas ocasiões. 

Terminados os 90 minutos, tanto o Sporting se afundava numa luta cada vez mais inglória (já está a dezasseis pontos do primeiro lugar), como o FC Porto se voltava a aproximar do Benfica e ganhar aos leões em Alvalade ao fim de 11 anos. Ele pode não chamar-lhe de vingança, mas, com este resultado, Sérgio Conceição entrou em 2020 um homem feliz.

Sporting CP vs FC Porto
EPA/RODRIGO ANTUNES

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso ó, meu? 

O Natal não é só um período de alegria, e quem assim o acha é porque nunca esteve numa sala em que alguém recebeu prendas muito melhores que as suas. Pegue-se neste exemplo e pense-se nos adeptos leoninos. Se os rivais encarnados terminaram a quadra com um inesperado presente para o seu meio-campo defensivo, o Sporting tem de se contentar em ir a jogo com Idrissa Doumbia. É verdade que o costa-marfinense ainda é jovem e pode melhorar, mas o trinco tem tardado em justificar a sua contratação, pois se no corte é desleixado e na marcação é inconsistente (é na suas costas que Soares marca o segundo para o FC Porto), com bola nos pés é, no mínimo, sofrível, e o Sporting ressente-se disso em jogos como este.

Igualmente merecedores de entrar nesta categoria estiveram Danilo Pereira (que continua a arrastar-se em campo nesta época) e Luciano Vietto (três oportunidades de golo cantado e zero eficácia — alguém vai dormir mal nesta noite).

Acuña, a vantagem de ter duas pernas

“Intempestivo”, “raçudo”, “maluco” ou “agressivo” são adjetivos que frequentemente são dedicados a Marcos Acuña, e nem sempre pelos melhores motivos. O Lateral/Médio Ala do Sporting é um mal-amado, mas também faz por isso quando se deixa levar pelo calor do jogo e acumula más decisões. Tal não foi o caso nesta noite. Numa exibição de gala, o argentino tanto secou o seu corredor como deu-se ao ataque, finalizando uma grande jogada e construindo outras tantas. Se dependesse apenas de si, o Sporting teria certamente saído de Alvalade com a vitória.

Fica na retina o cheiro a bom futebol

A conta de Twitter da Câmara Municipal de Lisboa antecipou um jogo de odores desagradáveis, mas houve perfume em Alvalade. Nakajima e Luis Díaz de um lado, Bruno Fernandes e Luciano Vietto do outro, nem sempre se sentiram fragrâncias de alto nível durante a partida, mas quando tal aconteceu, foi por responsabilidade destes senhores. O momento mais pungente terá mesmo sido a jogada do golo leonino, apenas secundado por um grande lance do ataque portista que só não deu em golo porque Max não quis.

Nem com dois pulmões chegavam a essa bola

No preciso momento em que estas linhas estão a ser tecladas, já alguém estará a fazer uma montagem do primeiro golo do FC Porto com a música do Benny Hill ou do Curb Your Enthusiasm. Fora Jesus Corona, que realizou um passe magistral, ninguém ficou bem na fotografia, nem mesmo Marega. Se a defesa leonina deixou-se plantada enquanto Marega avançava e Max ficou perdido em terra de ninguém, a verdade é que o maliano não fez propriamente um remate, mas sim uma tentativa de controlo de bola que afortunadamente rolou para as redes leoninas.  

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