Depois de oito anos de “núpcias”, a verdade é que hoje em dia muitas são as vozes que se atiram a Arsène Wenger por não vencer a Premier League há doze anos. Se os números mostram um treinador vencedor nos primeiros oito anos, a verdade é que nos doze anos seguintes o Arsenal conquistou apenas duas Taças de Inglaterra e duas Supertaças, pelo que os Gooners (alcunha dos adeptos do clube) estão cada vez mais impacientes. Mas o que provocou esta mudança? Vamos por partes.

Opções e reputação

Longe vão os tempos em que jogar bem ou ter os melhores jogadores chegava para ganhar jogos. Desde 2004 que Wenger é criticado pela apatia no banco e substituições tardias, por apostar em jogadores que acabam por não vingar e por não ter uma capacidade tática para ganhar os jogos mais complicados (que não são poucos na Premier League). Adicionalmente, o Arsenal é muitas vezes criticado por parecer querer construir as suas equipas “da frente para trás”, ou seja, focando a sua atenção apenas na contratação de jogadores que sejam soluções que melhorem a equipa nas posições do meio-campo para a frente, descurando a qualidade no setor defensivo.

Por outro lado, a reputação do Arsenal, fator muitas vezes relevante para a contratação jogadores de topo, já viu melhores dias. Payet, Mahrez e Vardy são exemplos de jogadores que preferiram ficar em clubes de menor dimensão, a ir para o clube do norte de Londres. Este é um problema sério que, apesar de não ter afetado as chegadas de Ozil e Sanchez há um par de anos, esta época parece ter sido um fator decisivo.

Disponibilidade financeira

Enquanto outros clubes tentam articular estratégias para contornar as cada vez mais rigorosas regras da UEFA em matéria de fair play financeiro, Wenger parece não o querer fazer e teima em não gastar como os rivais. Terá menos capacidade financeira? Na verdade, não. O Arsenal é um dos clubes mais ricos do mundo e os adeptos sabem-no.

A título de exemplo, recorde-se a famosa proposta de quarenta milhões e uma libra por Luis Suárez em 2013. Sabendo que existia uma cláusula no contrato do uruguaio, então ao serviço do Liverpool, Wenger e o Arsenal resolveram ser “engraçados” e oferecer apenas uma libra a mais do que a cláusula de rescisão do jogador previa. Sim, leu bem, £40.000.001! Resultado? Suárez sentiu-se insultado e resolveu permanecer nos Reds, e esperar por outro clube que o valorizasse mais. Um ano depois, o Barcelona “chega-se à frente” com 75 milhões de libras, Suarez muda-se para a Catalunha e é indiscutivelmente um dos melhores avançados do mundo neste momento. Erro histórico de Wenger, que poderia ter mudado o rumo do clube não fosse, mais uma vez, querer ser diferente dos rivais e gastar apenas o necessário.

A juntar a este, existem ainda os casos de jogadores que o Arsenal não foi capaz de persuadir a ficar no clube, como Nasri, Van Persie, Ashley Cole, Gael Clichy ou Cesc Fàbregas, peças importantes dos Gunners que nos últimos anos acabaram por abandonar o clube (na maioria dos casos trocando-o por clubes rivais).

Aposta na formação

Ninguém põe em causa a importância que as mudanças implementadas por Wenger tiveram na academia. De fato, as mesmas têm potenciado de forma brilhante os jogadores que chegam ao clube desde tenra idade. O problema é a enorme concorrência dos outros clubes, bem como o fato de o treinador francês não abdicar da ideia de que a formação seria o único caminho para o sucesso. Em Londres existem, neste momento, sete clubes com grande capacidade financeira e com academias extremamente bem situadas e organizadas.

Na realidade, o plano de Wenger foi bem estruturado e o potenciamento de jogadores no Arsenal é muito eficaz. Só que, devido à referida concorrência, os melhores jogadores ingleses nem sempre chegam à academia do Arsenal. Jack Wilshere - resgatado à academia do Luton Town em 2001 - foi um dos mais talentosos a sair da fábrica Wenger. O problema é que “um Wilshere” só não chega. A verdade é que o Arsenal é um "tubarão" no oceano de talento dos jovens futebolistas ingleses. Só que não é o único. A aposta na formação foi correta, mas insuficiente. Wenger apostou em formar uma equipa com mais ingleses oriundos da academia e, não só está a perder essa batalha, como também não recruta a peso de ouro como os rivais.

Com o contrato a terminar no final da época, muitos acreditam que esta seja a última temporada de Wenger ao serviço do clube de Londres. Para além da insatisfação geral dos adeptos em relação ao futebol praticado, outros fatores (falhanços constantes no mercado de transferências e descontentamento face aos preços dos bilhetes praticados) são também potenciadores de uma eventual mudança de paradigma ao fim de 17 anos de reinado do francês.

Esta semana a Premier League “descansa” com os jogos das seleções nacionais (amigáveis e início da qualificação para o Mundial de 2018 na Rússia) mas regressa já para a semana, dia 10 de setembro, com o primeiro duelo entre Mourinho e Guardiola. E a antevisão do derby de Manchester será aqui, no SAPO24.

Leia aqui a primeira parte desta crónica.

Pedro Carreira é um jovem treinador de futebol que escolheu a terra de sua majestade, Sir. Bobby Robson, para desenvolver as suas qualidades como treinador. Neste momento a representar a academia do Luton Town, o Pedro deseja fazer aquilo que nenhum outro treinador português fez, ir do 4º escalão das Ligas Inglesas até ao estrelato da Premier League. Até lá, podemos sempre ir lendo as suas crónicas.

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