A partida desta noite colocou frente a frente dois elefantes (leia-se históricos) do futebol europeu que atravessam uma crise de resultados e que apresentam um nível exibicional bem aquém daquilo que deles é esperado. Assim, não será descabido insinuar que esta noite não se limitava apenas a uma luta para assegurar presença na fase seguinte da Liga dos Campeões. Havia mais em jogo, nomeadamente o escrutínio do que fariam os treinadores de ambos os lados. Porém, no final, a expressão de Rui Vitória, de semblante carregado e cabisbaixo, dizia tudo. Até porque não havia dúvidas quanto à justiça do resultado e da superioridade do adversário durante todo o jogo. Pior, só em Vigo (7-0) e Basileia (5-0).

O Benfica apresentou-se em 4x3x3 e não em 4x4x2 como tinha feito diante do Arouca, na Luz, a contar para a Taça de Portugal. Com Seferovic relegado para o banco, o treinador dos encarnados apostou, ainda assim, num onze mais ou menos esperado: Conti fez dupla com Ruben Dias na defesa, Grimaldo e André Almeida nas alas; Fejsa regressou acompanhado por Pizzi e Gabriel; Rafa, Cervi e Jonas fariam as despesas do ataque. Antes da partida, havia a dúvida se Rui Vitória iria continuar a apostar em dois avançados. Mas na hora da verdade, ditou o timoneiro encarnado que o Pistolas teria a missão de mapear o ataque sozinho.

E por falar em timoneiro, o técnico das águias tinha dito na antevisão que ia a Munique com um único objetivo na cabeça: ganhar. E, para dar algum alento a Rui Vitória, havia a permeabilidade do quarteto defensivo da equipa de Kovac: 17 golos sofridos em apenas 12 jogos na recente edição da Bundesliga. Ora, para se ter uma noção do desacerto nada normal da turma baviera, os números das épocas anteriores ajudam a análise.

Nos últimos seis anos, o Bayern sofreu, respetivamente, durante as 34 jornadas que compõem o campeonato alemão, 28 (17/18 — Ancelotti/Jupp Heynckes), 22 (16/17 — Ancelotti), 17 (15/16 — Guardiola), 18 (14/15 — Guardiola), 23 (13/14 — Guardiola), (12/13 — Heynckes) 18 golos. Algo anda mal com a defesa, algo anda mal com as peças do tabuleiro. Há quem diga que a culpa é de Kovac, há quem diga que "há divas" no plantel. E, no sábado, o Bayern Munique deixou-se empatar ao cair do pano quando tinha uma vantagem de dois golos (vencia os aflitos Fortuna Düsseldorf por 3-1 até que Lukebakio, um jovem de 21 anos emprestado pelo Watford, completou o seu hat-trick aos 93'), o que coloca os campeões em título a 9 pontos dos líderes Borussia Dortmund e na 5.ª posição da Bundesliga (atrás de Borussia M'gladbach, E. Frankfurt e RB Leipzig).

E a verdade é que o desacerto alemão marcou novamente presença esta noite. Porém, para mal dos pecados da turma portuguesa, tal só se verificou na 2.ª parte. E apenas por uma vez. Porque tudo o resto, no que aos germânicos diz respeito, correu de feição. E quando se diz 'resto', fala-se no génio de Robben que, após ter estado quase um mês lesionado e ter regressado a meio gás no fim de semana, voltou a fazer das suas. Quando se diz 'o resto', fala-se em golos tirados a papel químico: o primeiro foi idêntico ao segundo, o terceiro igual ao quarto. Quando se diz 'o resto', fala-se nas defesas gigantes que Vlachodimos fez para salvar o Benfica de uma goleada com maior expressão. E convém não esquecer que James Rodriguez, Thiago Alcantara, Hummels, Tolisso e Kingsley Coman não jogaram a contas com lesões.

Esta foi uma noite europeia que feriu o orgulho de uma equipa — Benfica — que por si só já apresentava demasiadas fragilidades para quem quer andar a competir na "Liga dos Crescidos". E que apenas deu um ar da sua graça no lance que abriu o segundo tempo.

Sobre o jogo em si, diga-se que o Bayern Munique não teve que acelerar muito no primeiro tempo para conseguir golos e ir tranquilo para o intervalo. Tanto assim foi que aos 34' o Benfica já perdia por 3-0. Num encontro entre duas equipas que atravessam uma crise de confiança, a qualidade dos jogadores do Bayern Munique fez a diferença. Porque os jogadores encarnados não conseguiam simplesmente bater-se nos duelos individuais e na hora de mostrar algum virtuosismo para remar contra a maré... ninguém teve o capacidade de o fazer. O que é mau; especialmente para quem fazia intenções de continuar alimentar a esperança até à última jornada e de, pelo menos, cair de pé. E quando o melhor jogador de uma equipa é o seu guarda-redes (Vlachodimos), algo significa que não está bem para os lados da Luz.

Na primeira parte, portanto, assistiu-se a uma performance sólida por parte dos homens da casa. Dois golos de fazer levantar o estádio de Robben (13', 30') e o tento número 50 de Lewandowski (33') na Liga dos Campeões fizeram a diferença e sentenciaram desde logo o desfecho do jogo. Porque se havia uma réstia de esperança encarnada devido ao momento interno do Bayern Munique, essa ficou rapidamente esmorecida.

A segunda parte, contudo, abriu com o golo de Gedson Fernandes (46'), jovem que entrou para lugar de Pizzi ao intervalo. Foi um excelente momento individual e que fez lembrar outro menino da Academia do Seixal, uns anos antes, que também tinha assinado uma exibição engraçada e que compôs uma relatório singelo aos olheiros do Bayern Munique. Isto, avaliando apenas o seu jogo individual naquele lance. No coletivo, tratou-se de uma entrada que parecia que ia a ser a todo o gás, que reduzia a vantagem aos da casa, mas que na verdade foi apenas o equivalente a um condutor inexperiente, com um carro artilhado saído da saga Velocidade Furiosa, ter gastado uma garrafa de NITRO nos primeiros metros e ter ficado em último lugar da corrida atrás de um carocha.

Isto porque, tirando esse momento, o jogo encarnado pouco melhorou. De acordo com as estatísticas da UEFA, aos 70' os bávaros já tinham tido seis oportunidades flagrantes de golo. Porém, a partir dos 60', deu a sensação que os 22 jogadores em campo pediam que o jogo terminasse. Estava feito, estava decidido, não há muito para acrescentar para além daquilo que Rui Vitória teve que "admitir" nas declarações após o jogo: o adversário é e foi melhor esta noite. Em todos os aspetos: na experiência, na individualidade e no coletivo. No fundo, foi o espelho daquilo que tem sido o Benfica europeu nos últimos dois anos: 9 derrotas em 11 jogos.

E de nada valeu que esta época as exibições pouco convincentes do hexacampeão alemão tenham alimentado a chama (esperança) benfiquista antes do jogo. Porque tudo isto tudo não passou da teoria: Kimmich encheu e liderou o meio-campo, Leon Goretzka esteve bem nas compensações e Thomas Müller defendeu quando o tinha de fazer, enquanto Lewandowski e Robben iam fazendo o que queriam dos elementos mais recuados dos encarnados.

Em suma, findos os 90', a crise do Benfica ficou ainda mais acentuada e a posição de Rui Vitória cada vez mais fragilizada. O Bayern segue até à fase a eliminar e o Benfica vai terminar em 3.º no grupo E, após sofrer uma derrota pesada em Munique. Foi uma exibição muito pobre, onde os golos do adversário aconteceram com demasiada facilidade e onde a equipa da baviera foi simplesmente muito superior a uma equipa encarnada perdida em campo e nas suas ideias.

O final da história fica assim conhecido. No Grupo E fica a faltar determinar quem será o primeiro classificado (os bávaros lideram, com 13 pontos, contra 11 do Ajax, defrontando-se os dois clubes na última jornada), cabendo ao Benfica (com três pontos) defender a honra (ou o que que resta da mesma) frente aos gregos do AEK Atenas (zero pontos), que visitarão a Luz para "cumprir calendário".

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso, ó meu?

TAG TEAM Conti/Ruben Dias vs SOLO Lewandowski. Meus caros: acontecer uma vez, ainda vá; a capacidade e disponibilidade física do polaco é sobejamente conhecida. A sua técnica, também. O seu jogo aéreo, idem. Agora, sofrer dois golos, quase idênticos, em bolas paradas, em que o dito cujo sobe ao décimo andar no meio de ambos dos centrais benfiquistas sem ser importunado o suficiente para não conseguir cabecear é que não pode ser. Empurrem, ganhem posição... Enfim, qualquer coisa que impeça a bola de entrar.

Robben, a vantagem de ter um pé esquerdo

Cervi, Grimaldo e Fesja. Os três sobre o corredor direito, os três a tentar parar o movimento típico de Arjen Robben. É que aos 13' acontecia mais "um golo à Robben". Quem está familiarizado com o holandês de 34 anos (faz 35 em janeiro) já sabe de antemão aquilo que este vai tentar tramar. Aposto, sem qualquer receio, que a alma que lê estas linhas não precisou de mais de que umas poucas frações de segundos para imaginar o careca do Bayern de Munique a flectir para o centro do terreno, procurar o ângulo superior do poste mais distante e meter a bola no sítio certo — como se diz na gíria, onde a coruja faz o ninho. Todos os treinadores, defesas e demais sabem aquilo que ele vai fazer. Só que, até ver, ninguém o soube parar. E tanto assim é que voltou a fazê-lo aos 30' — de forma um bocadinho diferente, é certo, ainda que a dança tenha sido a mesma. E o ninho da coruja foi importunado uma segunda vez.

Fica na retina o cheiro de bom futebol

O quinto golo do Bayern Munique, o primeiro de Ribery. Foi uma jogada que vale pelo coletivo, apesar do francês a ter finalizado com grande suplesse. Começa no meio-campo, a bola chega aos pés de Lewandowski que meteu curtinho para Alaba na asa esquerda. O defesa combina com Ribery, fazem o chamado '1-2', o veterano volta a receber e de pantufas coloca rasteiro junto ao poste. Golo de classe para o francês, que sairia aos 77' para dar lugar a Wagner.

Boateng, nem com dois pulmões chegava à bola (ou a Gedson)

A jogada de Gedson. Excelente tabelinha de Jonas (a inteligência de movimentação e a sua noção de espaço só dão para admirar) e o jovem do Benfica rompeu pelo centro do terreno do Bayern com o turbo ligado e sem pedir licença a Boateng na hora de o ultrapassar enquanto este dava a sensação de ainda estar com um rim nos balneários. Gedson Fernandes para além de ter marcado um golo de belo efeito, demonstrou mais uma vez toda a sua capacidade quer a nível físico, quer a nível técnico.


Artigo atualizado às 12:08, de quarta-feira, dia 28.

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