#DiárioDaRússia: Passeata por Moscovo em noite de agonia argentina

Este artigo tem mais de um ano
Um final de tarde virou passeata à turista por algumas das principais ruas do centro da capital moscovita, por contas de uma entrevista que acabou gorada (e adiada). Passeata onde ainda houve tempo para assistir a um tombo argentino, onde nem Messi foi capaz de impedir a humilhação albiceleste.
#DiárioDaRússia: Passeata por Moscovo em noite de agonia argentina
MadreMedia

A ida a Moscovo tinha o propósito de realizar uma entrevista. Marcada para um sítio histórico e perfeito para realizar umas fotografias de ilustração, o acordo entre entrevistadores e entrevistado estabelecia encontro na Praça Vermelha. Só que o destino ditou o infortúnio do desencontro, e a conversa ficou adiada. Todavia, há que ser honesto e dizer que não há muito (nada!) a lamentar — só as duas horas (ida e volta) de comboio, vá.

Saídos da estação de Metro de Okhotny Ryad, na linha vermelha e número 1, fez-se aquilo que habitualmente se faz neste tipo de situação quando se está num sítio que se desconhece: seguimos e fomos atrás da multidão. Foi desta forma que fomos parar, sem o saber, à mítica rua Nikolskaya. É uma das ruas mais antigas de Moscovo e que espelha bem o caráter da cidade através dos seus hotéis, cafés e habitações do séc. XIX. É uma rua que está por estes dias repleta de luzes, comércio e fãs de futebol. E cânticos. Muitos cânticos. Percorrida de ponta a ponta, entrámos no GUM. O GUM é um sítio onde se encontra de tudo. Arquitetura, bancos, restaurantes, lojas de luxo, lojas desportivas, cafés, livrarias. À primeira vista parece um longo edifício com vários zonas de comércio, mas é bem mais do que isso. É um dos símbolos de Moscovo e um monumento arquitetónico que faz parte integral da Rússia desde 1893.

Vasculhados os quatro recantos do GUM (com a falha grave de não termos comido um dos gelados típicos soviéticos), rumámos em direção à histórica Praça Vermelha (escusado será dizer que antes de entrar foi necessário passar pela já clássica zona de segurança, entre cães e detetores de metais, como se estivéssemos a entrar para um check-in para um aeroporto) para contemplar o Museu Histórico do Estado, a Catedral de São Basílio e o Mausoléu de Lenine.

Sem entrevista, acabamos por ir visitar o museu que não é mais do que um acervo que abrange vários períodos da história russa. A exposição começa nos tempos pré-históricos (logo na primeira sala há um exemplar de uns dentes de mamute — penso eu de que — bem gigantes e imponentes) até os últimos momentos da União Soviética, contemplando ainda um pouco da Rússia moderna. A visita custou 500 rublos (não chega a 7 euros), com direito a desconto de 30% por estarmos a trabalhar no Mundial, mas qualquer pessoa que apresente o FAN ID (documento que todos os espetadores de jogos da competição russa têm de ter, para entrar nos estádios) tem direito a um desconto semelhante.

Trata-se de um museu riquíssimo, mas que tem pouca ou nenhuma informação em inglês. Praticamente toda a informação está no alfabeto cirílico. Contudo, há sempre a possibilidade de alugar um “gravador-guia” em língua inglesa (não há em português) que narra a história de cada uma das salas do museu (por uns adicionais 400 rublos, pouco mais de 5 euros).

No entanto, em mês de Mundial, há que assinalar o momento. E é nesse contexto que foi montado um espaço dedicado ao futebol onde é possível participar em várias atividades e jogos; entre outras coisas, é possível tentar marcar golos a um guarda-redes mecânico que, nos minutos que estivemos a observar, este tanto ou mais intransponível que Rui Patrício diante de Marrocos; jogar uma peladinha de 5 para 5, vencer um jogo de precisão (há uma baliza com luzes, que têm de ser apagadas à bolada) ou então optar por uma partida de futpong (é mais complicado do que parece).

Cânticos e festa encantam russos no coração da cidade

Há pequenos grupos, há grupos assim-assim, podem ser apenas dois ou três. Mas, ainda que assim seja, quem canta tem audiência.

No entanto, os cânticos dos países africanos são diferentes. Há qualquer coisa no tom. Não sei se é algo melódico ou algo rítmico; de música pouco ou nada entendo, mas ali há chamariz que cheira a perfume lúdico sonoro. Os cânticos sul-americanos são energéticos, apaixonados e vividos. Sentimos uma força tremenda quando os escutamos; sentimos que conseguimos mover mundos e fundos, sentimo-nos inspirados, prontos para ladear qualquer festa e carimbar a nossa identidade assim que entramos no espírito. É como se o nosso corpo ficasse ainda mais lesto, ágil e doce, mas ao mesmo tempo forte e vigoroso. O tom latino vira um ardo nas cordas vocais que nos faz querer acompanhá-los a cada sílaba. Mas os cânticos africanos conseguem ter um je ne sais quois de hipnóticos. Há ali qualquer coisa que nos embala no seu ritmo; qualquer coisa de bailável, dançável. O que escrevo poderá não fazer sentido para a maioria, mas é o que sinto cada vez que vejo um grupo de adeptos a espojar cântico futebolês nas ruas de Moscovo, que obrigam aos presentes ter que puxar do telemóvel e gravar um vídeo. Não conheço ou percebo se são de clubes, claques ou outros que tais; nem tão pouco percebo língua, nem o que dizem; apenas aquilo que fazem sentir.

Os mexicanos fazem as delícias com os sombreros e sempre que apanhamos uma camisola verde e um chapéu típico, há sempre também uma foto. Só que o dia pertenceu aos tunisinos. São eles que atraem e concentram os telemóveis de tudo e todos aqueles que ziguezaguearam pelo centro de Moscovo e das ruas mais populares entre os turistas. Os russos parecem encantados; reforço aquilo que já tinha tinha escrito anteriormente, pois nos maiores centros turísticos e no Metro, a maior parte assume uma postura de admiração e sorri para toda aquela situação com intenção de a registar.

Ainda não há aceno de despedida, mas anda lá perto. Tanto assim foi que o resultou provocou que uma saída na estação errada

Foi a notificação recebida no telemóvel, acerca do 3-0, que fez com que saíssemos na estação errada. Kratovo fica a 47km de Moscovo, mas já conhecemos a estação ferroviária de ginjeira. Mas ela para trás ficou, pois se havia algo inesperado que pudesse originar uma distração, era este resultado. Um golo de diferença ou derrota com golos marcados, ainda que não vá. Agora, 3-0? (Para o leitor ou leitora mais desatento do Mundial de futebol, falamos da copiosa derrota imposta pela Croácia à Argentina).

A primeira coisa que se fez ao chegar ao quarto de hotel foi ver o resumo do jogo. Só que avaliar 90’ através de um resumo de 10' não parece justo. Por isso, as linhas que se seguem vão ser baseadas apenas e somente no resumo disponível e naquilo que essa compilação demonstrou.

E o que as imagens ditam é que a Croácia não consegue apenas avançar para os oitavos-de-final pela segunda vez na história da competição. A Croácia fez questão de chamar a atenção para o facto de que veio para a Rússia com o intuito de vincar um ponto — e esta geração de jogadores tem todo o potencial para o fazer. No lado oposto, a Argentina pagou pelos erros defensivos (grosseiros e infantis de gente experiente) e pela falta de inspiração de Lionel Messi. Maradona, na bancada, não queria acreditar e bem abanava a cabeça, mas a realidade mostra que a sua seleção mergulhou numa escuridão de tal maneira densa que muitos já não acreditam que ainda é possível chegar à luz.

Na primeira parte os sul-americanos até tiveram oportunidades para marcar e quiseram jogar ao ataque, sendo a ocasião desperdiçada por Enzo Perez a mais gritante delas todas, e que espelha o que foram estes dois jogos no Mundial: desacerto, desordem e tolice. Sem guarda-redes, com a baliza completamente descoberta, o ex-Benfica conseguiu atirar para fora. Foi uma perdida que, a ser concretizada, podia dar um desfecho completamente diferente ao jogo. Só que não foi. Passou ao lado e a Croácia veio para fechar negócio, não veio para apalpar terreno.

Mas não foi só Perez. Willy Cabellero, guarda-redes argentino de grande experiência, esteve em destaque (pela negativa) e se num lance ia comprometendo, noutro acabou mesmo por fazer asneira. Aos 57’, ao tentar picar a bola por cima de Rebic, num gesto técnico digno de quem calçou umas traineiras e não umas chuteiras, permitiu que o jogador, que este verão trocou em definitivo a Fiorentina pelos alemães do Frankfurt, rematasse de primeira e em rotação para um tento de belíssimo efeito.

Sampaoli, comandante de uma nau argentina que parecia estar a afundar-se, responde e lança Higuaín, Pavón e Dybala, para tentar virar o resultado. Porém, aquilo que conseguiu foi um ataque desesperado e uma defesa agastada, que não teve pernas para cobrir as movimentações dos homens da frente da Croácia, que tinham na compostura serena de Modric e Rakitic o controlo do centro do terreno. E foram mesmo os rivais a nível de clubes (o primeiro joga no Real Madrid, o segundo no Barcelona) que acabaram, por colocar, em definitivo, dois pregos no caixão argentino e reavivar o sentimento de miséria que assola o conjunto de Sampaoli desde os tempos da qualificação.

Primeiro, um golaço (!) de Modric. Aquilo foi, como diria um bom brasileiro, um verdadeiro tirambaço de fora de área! E neste momento do jogo, para além de se ter visto um dos golos do dia, ficou ainda demonstrada uma incrível passividade da defesa argentina, onde só Otamendi tentou impedir a progressão do capitão croata. O segundo, foi um golo de Rakitic já em cima dos 90’, onde só teve que encostar, após uma jogada de insistência e que começou num contra-ataque.

De resto, esta foi a única vitória dos croatas em encontros a contar para mundiais contra equipas sul-americanas. Nas quatro ocasiões anteriores, perdeu sempre e marcou apenas um golo (autogolo, na verdade) frente ao Brasil, em 2014.

A vida está complicada para os argentinos. Messi está apagado, Sampaoli não consegue reproduzir na seleção natal aquilo que fez no Chile, e os astros definitivamente não estão alinhados. No fundo, em coração argentino, só paira uma palavra: desastre. E não é razão para menos. Afinal para ganhar é preciso mais do que jogadores de ataque; é preciso uma equipa com um meio-campo sólido e uma defesa compacta. E neste Mundial nem uma coisa nem outra. A passagem está difícil, mas convém não descartar a possibilidade — para já.


Diário da Rússia é uma rubrica pela voz (e teclas) de Abílio Reis e Tomás Albino Gomes, equipa do SAPO24 enviada à Rússia para fazer cobertura do Mundial. Um diário que é mais do que futebol, porque a bola não se faz só de bola, mas também das pessoas que fazem a festa. Acompanhe a competição a par e passo no Especial "Histórias de futebol em viagem pela Rússia".

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