Finalmente! O dia pelo qual esperávamos. Adeptos a arranhar as gargantas, cânticos a ecoar pelas ruas, um mar de cores a invadir as imediações do estádio de Sochi. Agora não há conferências de imprensa, antevisões, estatísticas e previsões para embelezar artigos. Agora, é a sério e a contar, é dentro das quatro linhas. E foi por isso que chegámos relativamente cedo (tendo em conta que a estreia da Seleção das 'Quinas' frente a La Roja se disputava às 21h00 locais), por volta da hora do almoço. E sentia-se que este era um dia diferente. Não apenas porque o movimento em volta do Fisht Stadium era mais acentuado, havia qualquer coisa no ar que transmitia uma aura diferente.

Seguindo o caminho das bandeiras e das camisolas, acabámos por chegar a uma rua que apelidamos de Coca-cola Street (basicamente porque, cremos, o nome da conhecida marca de refrigerante está em tudo o que é canto e o chão é vermelho). No fundo, não mais é do que uma estrada que faz a ligação entre a zona do estádio e a marginal que dá acesso à praia.

E assim foi aí que esbarrámos com o primeiro grupo de portugueses que, bem dispostos, ensinavam uns russos a cantar “a loirita bonita”. Estamos a falar de rapaziada que mostra que não se pode pôr idade ao espírito de um homem. Tirámos foto e descobrimos que vinham de vários pontos do país. Mas seguimos em frente. Toca a andar que o tempo está bom e a convidar à passeata.

Num jogo de superação, Ronaldo empata Espanha
Num jogo de superação, Ronaldo empata Espanha
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Não muito depois, outra família portuguesa, mas esta não vinha de terras lusas, vivem nos Estados Unidos, em Nova Jérsia. Pai, avô e os dois filhos. Tinham chegado na quarta-feira, mas partem já este domingo. “Segunda é dia de trabalho”. Prognósticos? “[Os jogadores] têm que fazer o trabalho deles” (e que trabalho, Ronaldo, um trabalho!).

No entanto, à primeira vista, no confronto de adeptos Portugal saía a perder, havia um número bem superior de espanhóis em Sochi esta sexta-feira. Ainda que, facto curioso: as camisolas portuguesas eram mais que muitas, envergadas orgulhosamente por estrangeiros, a maioria asiáticos. Se há dúvidas quanto à popularidade das Quinas além fronteiras, na Ásia parece que não faltam admiradores dos campeões europeus. Mas não se pense que os russos não gostam de nós, muito pelo contrário. Foram muitos aqueles que nos abordaram assim que percebiam que éramos portugueses. Um grupo bem disposto, sem dizer uma única palavra em inglês e a falar sempre em russo, lá quis tirar uma foto de família e levar uma recordação. E nós também!

créditos: MadreMedia

Só que nós queríamos falar com portugueses, com aqueles tugas valentes, alguém que nos desse uma história e um brilharete. Mais perto das imediações do Estádio, num dos cafés, demos com um grupo animado e encetámos caminho na sua direção. Não eram muitos, mas eram ruidosos. Estavam a ver Marrocos com Irão (que viria a ganhar por 1-0 com um golo ao cair do pano).

Das músicas de apoio à seleção, ao "Anel de Rubi", do Rui Veloso, algumas das quais dedicadas à Olga, a funcionária. Sempre bem dispostos, sempre numa jogada de charme. Abordamos um deles. Conta-nos que se chama Hélder Monteiro e vive na Alemanha, em Frankfurt. E aqui o Hélder é um aficionado pelo espírito que envolve as pessoas nestas competições. Segundo nos contou, esteve no Europeu de 2000 na Bélgica, 2004 em Portugal, 2006 no Mundial da Alemanha, 2008 no Euro da Áustria e da Suíça, 2012 na Polónia Ucrânia e no Euro 2016, em França. Está agora na Rússia, apesar de inicialmente não fazer parte dos planos. Explica que veio cá só ver este jogo, volta domingo para casa.

Conversa puxa conversa, e o que nós queremos saber é da aventura que foi ir a Ucrânia de carro em 2012.

"Foi uma experiência espetacular. É assim, tu vais com amigos, conheces pessoas e todos têm uma história para contar; um esqueceu-se do visto, o outro perdeu o passaporte, outro não sei quê. Eu, por exemplo, quando fomos à Ucrânia, esqueci-me do livrete do carro, tirei o livrete para fazer uma fotocópia, aquela sensação ah, lá roubam os carros e não sei quê, tirei o livrete fiz uma fotocópia, deixei o original ao lado da impressora e levei só a fotocópia”, começa por contar.

“Cheguei à fronteira, isto é fotocópia, por isso não entra. Então, mas não entra porquê? Quem nos salvou foi um polícia alentejano que estava lá para essas situações e que falava polaco e russo fluentemente, e o gajo tanto insistiu, tanto insistiu, que ele disse vocês vão, vão e passem. E são essas histórias que ficam. Íamos ver o Alemanha-Portugal, perdemos 1-0. Em Lviv”, recorda.

Rafael, também fazia parte do grupo de seis com que nos deparámos vem do Norte de Portugal. Só que o Rafael, ao contrário do resto do grupo, não apanhou um avião de Moscovo para Sochi: foi de comboio. E a viagem demorou cerca de 20 horas. Diz que conheceu vários russos, que bebeu vodka e cerveja com eles. O comboio “parou 15 vezes” e conta que as pessoas saíam só para ir tirar uma fotografia dos sítios onde iam parando. Daqui a uns dias seremos nós do SAPO24 a viajar num comboio, mas a viagem será mais curta. Será na viagem de regresso de Saransk para Moscovo, depois de Portugal disputar o último jogo na fase de grupos frente ao Irão, de Carlos Queiroz.

Perguntamos-lhe prognósticos para o jogo de hoje, para o Portugal-Espanha, e responde "eu não faço prognósticos para hoje, faço para o Mundial" entre sorrisos, música e mais cerveja (talvez se perguntássemos a Ronaldo diria o mesmo, como escreveu o meu colega de viagem Tomás Albino Gomes, "a Espanha já é de Ronaldo, mas o capitão acredita como ninguém que a Rússia também será dele").  

Ele só queria um 3-3

A conversa foi formal e não tinha qualquer propósito de virar reportagem. Tanto assim foi que nem nomes foram trocados de parte a parte. Mas a verdade é que um adepto de La Roja estava de coração dividido e disse que queria um 3-3. Não era prognóstico, era um desejo. E justificou-se: queria um bom jogo, com golos, mas preferia um empate. CR7 fez-lhe a vontade.

Já estou a perder a voz só de contar essa história

A conversa iniciou-se fora do Estádio, depois de passarmos por um grupo de adeptos mexicanos que estava a fazer as delícias (culpa dos seus enormes sombreros) dos russos que ali passavam. Era um em milhares, mas acabou por nos chamar a atenção. Porquê? Ora, porque falava num português demasiado fluente para ter uma camisola de Espanha em cima do corpo. E como consideramos tudo aquilo contraproducente, tivemos que o interpelar para saber a justificação de tal maleita ao nosso querido coração lusitano.

“Já estou a perder a voz só de contar essa história”, responde entre risos. Mas depois justifica a tonalidade da indumentária. “Nasci em Espanha, mas com 12 anos vim viver para Mirandela. Tenho o coração dividido”. Ahhh, bom! Assim é compreensível. Vale! No entanto, não veio de Portugal para a Rússia. Veio de Londres, cidade onde vive. Ainda assim, garante que se pudesse trocar a principal cidade britânica pela terra de adoção, o faria num ápice e sem levantar muito alarido. “É outra qualidade de vida”. Porém, avisa-nos, a história do seu amigo é bem melhor. É? A ver vamos...

Venezuelano, pai português, da Madeira, sotaque brasileiro. “Bizarro isso, não é? Histórica bizarra, eu sei”

Amigo, mas que na verdade é um adepto da seleção que conheceu na Fan Zone em Sochi. Porque aqui fazem-se amizades e descobrem-se pessoas. Fomos então saber a história deste amigo que o espanhol de Mirandela acha que é melhor.

"Eu já falava [português] um pouquinho, um bocadinho. A minha avó não falava espanhol, então eu tinha que falar um pouco. Mas quando cheguei ao Rio [de Janeiro], o pouquinho que eu sabia era o português de Portugal — com sotaque português. Cheguei no Rio e o sotaque carioca é completamente diferente. Aí morei 10 meses no Rio, morei em Manaus, morei em São Paulo, morei em Belo Horizonte e acabou numa mistura de sotaques”.

Puxa, que é catrefada mesmo, irmão. E agora podemos adiantar que deverá acrescentar mais um sotaque, pois a residência atual é nos Estados Unidos. Porém, diz-nos que vai ter passaporte português este ano. “Vou receber a nacionalidade esse ano, vou receber o cartão este ano. E vou virar oficialmente cidadão português”. E assim fica a partilhar a nacionalidade com o melhor do mundo.

Pelo meio, acrescenta ainda que já foi conhecer Lisboa e que já esteve na Madeira, terra do pai. Também que já passeou por Sintra e Cascais. Todavia, a conversa regressa rapidamente à bola, afinal, foi ela que nos juntou na Riviera Russa. Foi então que lhe perguntei sobre o que ele achava do embate da turma de Fernando Santos no duelo ibérico que dominou as atenções do dia. É que era certo que Hierro não iria mudar o estilo de jogo da Espanha. E este adepto venezuelano de pai madeirense e sotaque brasileiro concordava, prevendo assim muitas dificuldades para Portugal. Todavia, apostava numa vitória magra, com um golo de Cristiano. Pois bem, como se viu duas horas mais tarde, não foi o que aconteceu. A vitória não chegou. Nem magra, nem gorda. Deu mesmo empate. Mas como tem sotaque brasileiro, mas uma camisola de CR7, tem de se fazer a pergunta: Ronaldo ou Neymar? 

"Agora? Ronaldo, sem dúvida alguma! Não precisa de perguntar. Nem merece questão. O Neymar é a próxima estrela mundial — não tenho dúvida nenhuma disso, não resta dúvida. Mas, agora, ainda não."

Enfim, ganhou-se um golo, perdeu-se um vídeo

Que se acarinhe o ‘tomahawk’ de Ronaldo

Não deveria ser tão difícil traduzir em palavras o sentimento de ver em campo o toque de bola de Iniesta ou os golos de Ronaldo numa noite acalorada (especialmente para quem ganha a vida através delas). Mas a verdade é que por vezes o é (que o digam os jornalistas d'A Bola). O dicionário tem muitas palavras, mas parecem nunca ser suficientes num momento destes. Porque as primeiras vezes nunca são fáceis, e esta é a minha primeira Copa do Mundo, como escrevem os colegas brasileiros.

Uma das primeiras coisas que disse ao Tomás foi "o Pepe com cabelo assusta-me. Parece que não me dá a mesma confiança. Careca, ninguém passa. Com cabelo…" É verdade que pode ser apenas uma superstição, mas de facto sinto que não se joga tão bem quando se tem gel no cabelo. Bom, bom, é ao natural e rapadinho e sem qualquer penugem capilar.

Praticamente quase a abrir, Ronaldo troca os olhos a Nacho e cai na área com falta. Ora, ditam as regras que este tipo de lance se penaliza com um remate à distância de 11 metros. O capitão encarrega-se de meter a batatinha para fazer balançar a rede. O telemóvel, esse, estava na mão para registar o momento. E na verdade registou, só que o coração falou mais alto e o vídeo ficou estragado porque o realizador se esqueceu que estava a filmar e teve a infeliz ideia de se esbracejar todo. Há barulho, há Ronaldo a correr em direção da bola, mas não há o resto. Enfim, ganhou-se um golo, perdeu-se um vídeo. Parece-me uma troca com a qual viverei bem.

Mas houve Ronaldo, Ronaldo e Ronaldo. E aquele último Ronaldo?

Por esta altura, Espanha dominava. Porque Espanha é Espanha e é mais do que um treinador. Joga no seu estilo de jogo. Passe, passe, primeiro toque, primeiro toque e o rapaz da frente só tem que aparecer no espaço e meter o esférico lá dentro. Diego Costa trabalhou no primeiro e encostou no segundo. Nós bem que tínhamos o Guedes a fuçar na frente, mas o jogo não lhe consegue chegar até ele.

Spasiba [obrigado em russo], cantam os portugueses nas bancadas. Ou assim me pareceu. Fiquei na dúvida, mas assim me pareceu (e quero crer). Faltam 10 minutos. Vamos lá campeões! Os adeptos portugueses bem que puxavam pela equipa, Fernando Santos desesperava no banco, mas as Quinas não arrancavam para cima deles. Mas houve Ronaldo, Ronaldo e Ronaldo. E aquele último Ronaldo? Não há como não admirar o capitão. “Esta já está lá dentro”, comentei para o Tomás que estava na cadeira ao lado. “Esta já lá mora. A certeza é tanta que até vou filmar o golo”. Nos 90 segundos seguintes deixei as minhas teclas por uns momentos e registei o momento. Longe de ser uma criatura crente, aqui tive fé. Tive fé no melhor do mundo. Da bancada, da tribuna da imprensa, o livre viu-se assim.

Mas, pronto, para saber sobre o jogo remeto-me às palavras do Tomás, é carregar aqui e ler como foi.

A última noite em Sochi

Esta foi a nossa última noite em Sochi. E foram dois dias que surpreenderam pela positiva. Pelo clima (entre a neve e praia, esta é a pérola do mar negro), pela aparente falta de interesse das pessoas na zona de Adler (o nosso hotel não fica exatamente em Sochi), pelo jogo inaugural da Rússia. Esta noite, num último passeio à beira do Mar Negro em jeito de despedida, havia diversão garantida para quem frequentasse os principais bares da longa avenida costeira. Luzes, som e muita farra para quem se encontra a gozar um período de férias com as montanhas do Cáucaso a fazer um belíssimo pano de fundo — mas sempre com grande policiamento e reforçada segurança.

Agora, é tempo de dizer adeus a Sochi, pelo que o próximo Diário na Rússia já será em Moscovo. O voo estava marcado para as 13h25 deste sábado. Vemo-nos por lá, ou melhor dizendo, por aqui, no SAPO24.


Diário da Rússia é uma rubrica pela voz (e teclas) de Abílio Reis e Tomás Albino Gomes, equipa do SAPO24 enviada à Rússia para fazer cobertura do Mundial. Um diário que é mais do que futebol, porque a bola não se faz só de bola, mas também das pessoas que fazem a festa. Acompanhe a competição a par e passo no Especial "Histórias de futebol em viagem pela Rússia".

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