Sérgio Conceição

Quando, hoje, se fala de um treinador de futebol, tende-se a procurar dentro do campo de jogo todos os argumentos para o diferenciar dos restantes. No entanto, todas as provas científicas demonstram que o principal papel do técnico está fora de campo, no quotidiano do treino, na relação com o plantel e com a estrutura do clube, na afirmação perante as ambições dos adeptos e as questões dos meios de comunicação social.

Perante este quadro, Sérgio Conceição vai construindo-se como uma referência no banco do FC Porto. Uma equipa azul e branca que não conquista pela beleza do seu jogo, mas pela imponência na forma como tenta dominar os seus adversários. Um conjunto que prima pela definição clara dos papéis das suas referências. Pela constituição de um muro defensivo que a torna a equipa a quem é mais difícil criar oportunidades.

É que Sérgio Conceição é, também, o líder exigente que tudo pede e tudo dá aos seus jogadores, procurando-lhes as condições ideias para demonstrarem as suas qualidades. É o homem que assume todas as decisões tomadas na construção do plantel e da sua equipa. Dá a cara perante as críticas, eleva a voz sempre que considera necessário (e são muitas as vezes…), exige aos adeptos na mesma medida em que estes lhe exigem a ele. O FC Porto ganha o seu segundo título em três anos por aquilo que Sérgio Conceição é.

Muito mais do que laterais

Tecatito Corona e Alex Telles são muito mais do que dois laterais. O brasileiro repetiu dose, esta temporada, demonstrando-se fundamental nas bolas paradas assumidas pela equipa portista, que marca mais do que qualquer outra equipa na Liga Portuguesa a partir deste momento do jogo. Corona, que funcionou como um verdadeiro abre-latas para Sérgio Conceição, sendo utilizado nas mais diversas missões, começou a maioria dos encontros a partir da faixa lateral direita.

Mas quem olhar para um onze do FC Porto saberá, com toda a certeza, que destes dois nomes surge muito mais do que aquilo que o seu posicionamento no papel pode oferecer. Tecatito Corona foi sempre o jogador que mais desequilibrou no momento ofensivo dos portistas, que também foram a equipa com mais dribles conseguidos por jogo na Liga. No final das contas, olhando para o rendimento ofensivo que pode ser contabilizado, Corona é rei das assistências, Alex Telles um dos melhores marcadores. Figuras incontornáveis deste título.

Marchesín e os seus mosqueteiros

Quando, no início da temporada, Marchesín chegou do América do México para ter a sua primeira experiência europeia com 31 anos, poucos terão acreditado que o argentino seria tão importante nesta temporada dos portistas. Foi lançado às feras logo no encontro com o FK Krasnodar, na Rússia, e começou a marcar a tendência do que seriam as suas exibições, muitas vezes a valer pontos, com grandes defesas, liderando a defesa menos batida da Liga (e nem o erro em Famalicão o parece ter deixado afetado).

Como mosqueteiros, Iván Marcano, regressado ao Dragão, Pepe e Chancel Mbemba foram figuras que enquadraram as suas capacidades com as ideias do técnico do FC Porto para transformar o setor defensivo em betão. Um conjunto de jogadores que não virou a cara a nenhum desafio, que nunca hesitou no estilo para deixar a sua área a salvo, que se revela também na forma como tem impacto no balneário. Um quarteto de luxo.

O gesto de Marega

Naquela que pode ser vista como a temporada mais desinspirada do maliano no FC Porto, Moussa Marega é destaque, não só pelo que joga, mas pelo gesto que deixou no Estádio D. Afonso Henriques em Guimarães. Insultado por adeptos rivais presentes no encontro, Marega tomou uma posição que trouxe o debate sobre o racismo nos estádios de futebol para cima da mesa. Nesse gesto, curiosamente num jogo também ele decisivo na rota do título, Marega tornou-se campeão antes do tempo.

O jogo era sensível porque permitia a aproximação ao Benfica, numa deslocação sempre complexa para os portistas. Marega esteve no golo que deu a vantagem decisiva à sua equipa e, mais tarde, acabaria por abandonar o relvado em protesto pelos insultos de que era alvo. Num momento de elevada tensão, o maliano tornou claro que não iria aceitar desaforos por fazer o seu trabalho. E numa temporada em que os avançados azuis e brancos tantas dificuldades encontraram para finalizar, foi dele o mais memorável golo da época.

O primeiro dia do resto da vida dos miúdos

Na época passada estiveram em Nyon, na conquista da UEFA Youth League frente ao Chelsea. Esta temporada, não sendo referências habituais nas escolhas de Sérgio Conceição, não deixam de marcar o seu espaço. Diogo Costa e Romário Baró viram as lesões afastá-los de uma aposta mais constante. Tomás Esteves e Diogo Leite lutam para ter espaço numa linha defensiva muito experiente. Fábio Silva foi opção recorrente para a frente de ataque. Fábio Vieira, Vítor Ferreira e João Mário conquistaram direito de entrar no grupo dos grandes depois de boas prestações na equipa B.

São oito nomes que conquistam em 2019/20 o seu primeiro título nacional. Nomes que, na reta final da competição, demarcam também aquela que é uma qualidade de jogo que lhes era reconhecida na formação e que começa a mostrar sinais de perdurar no futebol profissional. Nas últimas semanas, o momento em que os miúdos entram em campo é o espaço onde o futebol azul e branco floresce. A juventude terá o poder. Mas a partir de agora são já campeões.

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