Desde há nove meses, a organização que rege o futebol mundial tem sido abalada por um tsunami de escândalos, com dirigentes presos e revelações bombásticas das investigações lideradas pela Suíça e pelos Estados Unidos. O desafio do novo presidente será fazer com que a palavra Fifa possa ser pronunciada sem remeter necessariamente para problemas de corrupção.

Uma tarefa das mais árduas, quando ainda pairam dúvidas sobre a atribuição das sedes dos próximos campeonatos mundiais, na Rússia, em 2018, e no Qatar, em 2022.

O sul-africano Tokyo Sexwale, um dos cinco candidatos, com hipóteses quase nulas de ser eleito, resume a situação desta forma: "estamos aqui pela Fifa, uma casa danificada, que precisa de ser reparada". O Príncipe jordaniano Ali, outro que será provavelmente mero figurante na eleição, depois de levar Blatter à segunda volta em maio do ano passado, deixou claro que "é preciso restaurar a confiança na Fifa". O quinto candidato é o francês Jérôme Champagne, que já foi secretário-adjunto da Fifa, e que também não deve ter condições de se intrometer no duelo Salman-Infantino.

O novo presidente será eleito pelas 209 federações membros da entidade, que têm direito a um voto cada uma. Ou seja, o Brasil, pentacampeão mundial, tem o mesmo peso de Djibouti, último país do ranking da Fifa. Na verdade, é possível que apenas 207 federações participem na votação, já que a Indonésia e o Kuwait foram suspensos por causa da interferência dos seus governos nas instâncias dirigentes do futebol local. A decisão de excluir ou não os dois países da escolha do novo presidente será tomada na manhã de quarta-feira.

A votação deve começar por volta de 14h00, horário local.

Quando o futebol se torna assunto de polícia

Resgatar a imagem da Fifa será a principal missão do sucessor de Blatter, que abandonou o cargo no dia 2 de junho de 2015, pondo fim a 17 anos de reinado. Quatro dias antes, o suíço de tinha sido reeleito para um quinto mandato, mas precisou de se afastar e convocar novas eleição face à pressão internacional depois do terremoto do dia 27 de maio. Nesse dia, sete altos dirigentes da Fifa que estavam em Zurique para participar no congresso eleitoral foram presos num hotel de luxo.

Entre eles, o brasileiro José Maria Marín, ex-presidente da CBF, que foi extraditado para os Estados Unidos em novembro, e cumpre hoje prisão domiciliária em Nova Iorque, enquanto aguarda o julgamento.

São acusados de receber milhões de dólares em subornos na negociação dos direitos de transmissão de competições como a Taça América, entre outras. Desde então, o noticiário desportivo vem dando muitas vezes mais destaque a novas prisões, extradições ou acusações de todo o tipo do que ao talento dos craques entre as quatro linhas.

O esquema de corrupção é tamanho que o diretor da Receita Federal dos Estados Unidos, Richard Weber, chegou a chamá-lo de "Campeonato Mundial da Fraude". Dezenas de jornalistas estão de plantão esta semana em frente ao hotel de luxo Baur au Lac, onde aconteceram as últimas detenções, e a justiça americana deve acompanhar com atenção a eleição de sexta-feira.

Platini apoia Infantino

As previsões foram confirmadas na quarta-feira com um levantamento efetuado pela AFP, que procurou todas as federações com direito de voto: Infantino e Salman lideram com folga as intenções de voto, e os outros três praticamente não foram citados.

Criticado por organizações de defesa dos direitos humanos por ser acusado de envolvimento em repressões no seu país, o Bahrein, durante a primavera árabe de 2011, o xeque tem como principal trunfo o apoio de África, que reúne o maior número de federações nacionais (54). "A Fifa encontra-se numa encruzilhada", afirmou Infantino esta quinta-feira. Pela primeira vez na campanha, o secretário-geral da Uefa teve o apoio oficial de Michel Platini, presidente da confederação europeia, que era o grande favorito da eleição, antes de se retirar por ser suspenso pela comissão de ética da Fifa.

"Trabalhei durante nove anos com Gianni. É um tipo que trabalha muito, tenho total confiança nele", declarou o ex-craque francês numa entrevista que será publicada na sexta-feira no jornal L'Equipe. Platini ficou fora da contenda por conta de um pagamento controverso de 1,8 milhões de euros que recebeu de Blatter em 2011. Ambos alegam que se trata da remuneração de um trabalho de consultoria realizado pelo francês de 1998 a 2002, mas existem suspeitas de que o suíço tenha feito esse depósito para garantir que o eterno camisa 10 da Juventus desistisse de se candidatar na eleição de 2011. Blatter e Platini foram suspensos por oito anos em dezembro, e a pena foi reduzida para seis anos pela câmara de apelação da Fifa na quarta-feira.

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