Lionel Messi, no prefácio de “O senhor dos talentos”, a biografia de Manu Ginobili escrita pelo jornalista Julián Mozo, escreveu que “deixa-me muito orgulhoso ouvir os jornalistas chamarem ao Manu o Messi do basquetebol, mas, na verdade, eles deviam chamar-me o Manu do futebol.”

É esse o estatuto quase divino que Ginobili tem no seu país natal. Um estatuto lendário que se estende um pouco por todo o mundo do basquetebol. Ginobili é o melhor jogador argentino de sempre, um dos melhores não-americanos na história da NBA e um verdadeiro ícone do basquetebol mundial. É o único jogador na história a vencer um título na Euroliga, na NBA e nos Jogos Olímpicos. E, à beira de completar 40 anos, a sua lenda continua a ser escrita.

Na passada madrugada de terça-feira fez o tempo andar para trás e foi decisivo na vitória dos Spurs no jogo 5 da semi-final da conferência Oeste. Nesse jogo frente aos Houston Rockets, os seus 12 pontos, 7 ressaltos e 5 assistências ajudaram os Spurs a ultrapassar as ausências por lesão de Tony Parker e Kawhi Leonard e fez-nos saltar do sofá às 4 da manhã com jogadas como esta:

E como esta:

E como esta, a melhor jogada do jogo, que deu a vitória à equipa de San Antonio:

Manu é um caso raro de longevidade na NBA. Em 70 anos da liga, apenas 25 jogadores jogaram até e/ou após o seu 40º aniversário.

Os exemplos de maior longevidade na história da liga norte-americana (se não contarmos com o de Nat Hickey, que, em 1948, aos 46 anos, fez um jogo pela equipa que treinava, os Providence Steamrollers) são os de Kevin Willis, Robert Parish e Dikembe Mutombo. Estes três jogaram até aos 44, 43 e 42 anos, respetivamente. Mas as suas últimas épocas relevantes foram antes dos 40 anos e passaram esses últimos anos como suplentes pouco utilizados.

Willis retirou-se aos 42, esteve um ano sem jogar e voltou aos 44 para ser utilizado em apenas 5 jogos pelos Dallas Mavericks. Parish passou as suas três temporadas finais no banco dos Charlotte Hornets (duas) e dos Chicago Bulls (uma, em 97, onde se tornou o jogador mais velho de sempre a vencer um título). Mutombo foi aquele que deu ainda um contributo importante nos Rockets, quando Yao Ming se lesionou, mas já estava também longe do seu melhor e jogou apenas 15 e 10 minutos de média nas duas temporadas que fez após os 40 anos.

Mais raros e impressionantes são casos como os de Karl Malone, John Stockton ou Tim Duncan, que, já quarentões, eram ainda dos melhores jogadores das suas equipas. Duncan ainda era, no ano passado, a âncora defensiva da equipa (e podemos ver este ano a falta que ele faz à equipa) e Malone e Stockton foram dos melhores jogadores nas suas posições até ao fim da carreira. Stockton, aos 40 anos, jogou os 82 jogos da temporada (todos como titular) e acabou essa época de 2002-03 com médias de 10.8 pontos, 7.7 assistências e 27 minutos por jogo. Malone, na sua temporada final (nos Los Angeles Lakers, em 2003-04), acabou com médias de 13.2 pontos, 8.7 ressaltos, 3.9 assistências e 32 minutos (!) por jogo. E não se tivesse lesionado a meio da temporada e podia ter conseguido o anel que lhe escapou na carreira.

Vince Carter e Jason Kidd são dois casos ainda mais raros: o de jogadores que jogaram até depois dos 40 e que se souberam reinventar com o avançar da idade e com a perda de capacidade atlética. Vince Carter (apesar de ainda voar de vez em quando e ainda ser capaz de fazer coisas como esta:

ou esta:

40 anos! O homem tem 40 anos!) tornou-se, com o passar dos anos, um atirador; e Jason Kidd, que, no seu auge, era um base penetrador e atlético, tornou-se um base atirador que jogava a passo, vivia atrás da linha de três pontos e já pouco ou nada penetrava. Mas foi, até ao fim, um bom defensor e um dos melhores distribuidores de jogo do mundo.

E depois temos Kareem Abdul-Jabbar. O pioneiro nestas andanças de jogar para lá dos 40 e, até hoje, a fasquia para todos os casos do género. 
Quando se retirou, aos 42 anos (o que, em 1989, era um feito sobre-humano e inacreditável), era ainda um dos melhores postes da liga e um dos principais jogadores dos Lakers. Não só era ainda titular dos campeões Showtime Lakers, como foi All Star nesse ano. É claro que ter um lançamento que era impossível de desarmar e que dependia mais da técnica do que da capacidade atlética ajudava, mas ser capaz, aos 42 anos, de ainda jogar àquele nível, desafia a credulidade.

Com os avanços na ciência desportiva (na medicina, no treino, na fisioterapia, na recuperação e na nutrição) é provável que vejamos cada vez mais casos de longevidade no basquetebol. Mas os quarentões continuam a ser uma espécie rara.

Voltando ao mago argentino que inspirou este texto: Manu Ginobili é um caso raro de longevidade. E, mais raro ainda, de longevidade produtiva. Um caso raro que não sabemos quanto mais tempo vamos ter o privilégio de testemunhar. Por isso, é desfrutar enquanto pudermos.

Não vamos dizer que ele e os outros são como o vinho do Porto. Porque não são. Nenhum jogador fica melhor ao envelhecer. Nenhum destes ficou e todos foram perdendo capacidades com o avançar da idade. Infelizmente (ou felizmente; ou simplesmente, porque a vida é mesmo assim), nenhum jogador consegue derrotar o Tempo. Este continua (e continuará) invicto. Mas alguns conseguem, pelo menos, dar-lhe muita luta.

Márcio Martins já foi jogador, oficial de mesa, treinador e dirigente. Atualmente, é comentador e autor do blogue SeteVinteCinco. Não sabe o que irá fazer a seguir, mas sabe que será fã de basquetebol para sempre.

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